Derrota de Merkel abre crise na Alemanha

Derrota de Merkel abre crise na Alemanha

Chanceler alemã amarga derrota na eleição regional de Berlim e vê se complicar o cenário para as legislativas federais, em 2017. Partido que avançou na capital é contra as políticas migratórias

postado em 19/09/2016 00:00
 (foto: Steffi Loos/AFP )
(foto: Steffi Loos/AFP )


O partido conservador de Angela Merkel amargou ontem o pior resultado desde a reunificação da Alemanha, em 1990. Em um clima de descontentamento crescente com a imigração, tema que tem sido bastante explorado pela direita populista, a União Democrata Cristã (CDU), da chanceler (chefe de governo) alemã, somou, segundo pesquisa da emissora pública ARD, 17,5% dos votos nas eleições para o Legislativo de Berlim, cinco pontos e meio a menos em relação às eleições de 2011. O resultado provavelmente a obrigará a sair do governo local da capital alemã, do qual fazia parte até agora com os sociais-democratas, e põe em xeque a sobrevivência da atual coalizão de governo para a renovação do parlamento federal, em 2017.

O mau resultado da CDU em Berlim, metrópole de 3,5 milhões de habitantes, ocorre duas semanas depois de outro revés eleitoral. No início deste mês, o movimento de direita populista Alternativa para Alemanha (AfD), criado há apenas três anos, se impulsionou no nordeste do país, no estado de Mecklenburg-Vorpommern. Em Berlim, capitalizou outra vez com a insatisfação gerada com a chegada de centenas de milhares de refugiados à Alemanha e deve entrar no Parlamento local com cerca de 14% dos votos, segundo a ARD.

O Partido Social-Democrata (SPD), que faz parte da coalizão com a CDU, também perdeu terreno em Berlim em relação a 2011, mas continuará sendo a primeira força, com 22% dos votos.Com esse resultado, o SPD pode abrir mão da presença da CDU na parceria que lidera na capital alemã. O atual prefeito Michael Muller, membro do partido, se mantém, assim, em suas funções.

Efeito político
Apesar de se tratar de uma eleição para o parlamento regional, o resultado tem peso simbólico e político. Intensifica as dúvidas sobre se Merkel tentará a reeleição para um quarto mandato no ano que vem. Ela hoje tem 44% de preferência dos eleitores, a CDU tem poucos nomes alternativos, mas tendências observadas em pesquisas e resultados de eleições locais têm mostrado que a CDU tem perdido eleitores desde o início do ano.

Aliado nacional da CDU, a União Social Cristã (CSU) exige uma política muito mais restritiva com relação à imigração, estipulando, entre outros pontos, um limite à quantidade de refugiados que serão acolhidos anualmente. Por enquanto, não esclareceu que apoiará Merkel na disputa pela chancelaria do ano que vem. A aposta é de que, para compor o próximo governo federal, ocorra uma aliança do partido de Merkel com o SPD, hoje parceiro secundário, a esquerda e os ecologistas.

Peso simbólico

A metrópole cosmopolita que se mantém em constante mudança desde a queda do muro era tida como a capital alemã com estatuto de Estado-região que até agora resistia às tendências populistas. Durante a campanha, o prefeito chegou a dizer que se a AfD superasse 10% dos votos, o resultado seria ;interpretado, no mundo inteiro, como sinal de renascimento da extrema direita e dos nazistas na Alemanha;.

Ontem, o principal candidato da AfD para o parlamento de Berlim, Georg Pazderski, comemorou os votos recebidos. ;De zero a um número com dois dígitos, isso é um recorde para Berlim;, disse. J;rg Meuthen, um dos dirigentes do partido, seguiu no mesmo tom. ;Em uma cidade tão à esquerda como Berlim, nosso resultado acima de 10% é um grande sucesso.; Com a nova conquista, a AfD ingressará no décimo parlamento regional alemão ; são 16 no total. Se manter o ritmo, a sigla poderá ingressar, no ano que vem, na Câmara dos Deputados, um feito inédito para um partido da direita populista na história da Alemanha do pós-guerra.

"Em uma cidade tão à esquerda como Berlim, nosso resultado acima de 10% é um grande sucesso"
J;rg Meuthen, um dos dirigentes da Alternativa para Alemanha (AfD), legenda de direita populista que avançou em Berlim



17,5
Quantidade de votos recebidos pela União Democrata Cristã, partido de Angela Merkel, nas eleições legislativas de Berlim. Em 2011, a sigla recebeu 23%


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