Conexão diplomática

Conexão diplomática

Por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 15/04/2017 00:00
 (foto: Jim Watson/AFP)
(foto: Jim Watson/AFP)

Trump testa os
nervos do chinês



Há uma semana, quando foi recebido por Donald Trump, o presidente da China, Xi Jinping, gastou o mandarim no esforço de explicar o quanto é difícil, mesmo para o praticamente único aliado que restou à Coreia do Norte, dobrar o imprevisível Kim Jong-un. Em especial, Xi dedicou-se a expor para o anfitrião, no badalado resort da Flórida, como funciona a lógica de cerco de um regime comunista não apenas fechado, recluso, mas também dinástico ; uma característica cuja compreensão escapa, possivelmente, a um político de primeira viagem que começa a se entender com os mecanismos de uma democracia republicana. Tanto mais quando o dirigente do lado oposto é igualmente um iniciante: tinha pouco mais de 30 anos, em 2012, quando herdou um país a meio caminho de dispor de um arsenal de mísseis nucleares. Ao contrário do pai, e mais ainda do avô, o jovem Kim é um tanto imprevisível.

E aí reside outro paralelo entre ele e o presidente americano, como o próprio visitante chinês pôde constatar ao vivo e em cores. Trump serviu com a sobremesa do jantar oferecido ao colega e à primeira-dama a notícia do inesperado bombardeio que acabara de ordenar contra a Síria. Era a punição relâmpago por um ataque com armas químicas contra uma cidade dominada por rebeldes, apenas 48 horas antes, pelo qual a Casa Branca responsabilizou prontamente o regime de Bashar Al-Assad. Enquanto observadores, analistas e diplomatas digeriam e avaliavam informações em torno do cardápio de opções militares oferecido ao presidente pelo Pentágono, os mísseis Tomahawk choviam sobre uma base aérea síria.

O lançamento da poderosa ;mãe de todas as bombas; contra instalações do Estado Islâmico (EI) no Afeganistão, anteontem, só fez confirmar que, com Trump no papel de comandante em chefe, não faltarão emoções fortes. Mas a Coreia do Norte não é apenas ;diferente; da Síria ou do Afeganistão, como tentou ensinar o visitante: a ideia de uma guerra na vizinhança da China mexe com os nervos de Xi.

Senhor da razão
Foi o artífice da histórica reviravolta que resultou na aproximação entre os EUA de Richard Nixon e a China de Mao Tsé-tung, no início dos anos 1970, quem sistematizou alguns aspectos profundos da natureza do Império do Meio que jogam papel predominante na sua diplomacia. Em seu livro Sobre a China, o então secretário de Estado, Henry Kissinger, observa que a dimensão do tempo, para um país com milênios de história ; no mais das vezes, como protagonista ;, não pode ser a mesma experimentada por uma sociedade que ainda não conta 500 anos e mal completou o bicentenário da sua independência.

Da perspectiva de Pequim, o meio século passado desde a Guerra da Coreia, que congelou a península dividida como a última fronteira da Guerra Fria, é pouco mais que um breve espasmo na linha cronológica. Assim como as menos de sete décadas desde que Mao iniciou a original experiência do socialismo chinês, hoje em plena metamorfose econômico-social. Xi e seus camaradas da cúpula do Partido Comunista enxergam a Coreia tendo presente a imagem retrospectiva que receberam dos antigos imperadores mandarins. Não têm o sentido de urgência de um lobo de Wall Street.

Hard, soft ou smart?
As primeiras incursões de Trump pelo terreno das ações militares, aparentemente decididas de maneira intempestiva, colocam em maior evidência o contraste entre os dois meses do novo presidente e os oito anos do antecessor. Barack Obama ganhou o Nobel da Paz ao fim do primeiro ano na Casa Branca ; praticamente, um voto de confiança, que muitos julgam ter sido traído. De toda maneira, como lembrou à Conexão o estudioso francês Olivier de France, foi um período em que a diplomacia americana, sem renunciar à força como elemento de dissuasão, investiu também na persuasão como recurso para perseguir seus objetivos. Foi o que se viu, por exemplo, no acordo sobre o programa nuclear do Irã. Ou no reatamento das relações com Cuba, rompidas em 1961.

No governo do republicano George Bush, os EUA jogaram principalmente com a carta que chamam de hard power, o poder das armas, e jogaram basicamente sozinhos ; o unilateralismo. Obama, um democrata, adicionou à receita uma dose de lábia, o chamado soft power, uma combinação que ganhou o nome de smart power, um elogio à sagacidade. E fez uma inflexão clara na direção do multilateralismo.

Trump, que encontrou no Partido Republicano o veículo necessário para um projeto político de corte pessoal, liga menos ainda para conceitos acadêmicos. Prefere um bom slogan publicitário, tem faro para uma marca de sucesso. Amealhou os votos necessários para chegar à Casa Branca com uma fórmula de apelo direto entre os eleitores descontentes com a crise: a América primeiro.

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