Vestido para armazenar dados

Vestido para armazenar dados

Tecido magnético criado por pesquisadores dos Estados Unidos consegue guardar códigos e imagens sem perder a maleabilidade. A solução poderá substituir crachás e ser usada em luvas para o reconhecimento de celulares

» VICTOR CORREIA*
postado em 04/12/2017 00:00

Cartões de crédito, de ônibus e alguns tipos de crachá têm material magnético para armazenar informações, como um código de acesso. Mas ficam nas bolsas, nas mochilas ou nas carteiras. Há algum tempo, cientistas tentam levar essa funcionalidade para as roupas, permitindo que elas se comuniquem com outros dispositivos e/ou guardem dados. Essas tentativas, porém, dependem de baterias e circuitos eletrônicos que tornam as vestimentas desconfortáveis, além de serem pouco resistentes à chuva, a lavagens e ao uso diário.


Pesquisadores da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, criaram um tecido magnético capaz de resolver esses problemas. A solução vestível armazena informações, e até imagens, sem o uso de eletrônicos e gasto de energia. A base veio de um tipo de fio condutor de eletricidade muito presente em brinquedos e fantasias. A equipe de cientistas descobriu no material propriedades magnéticas que podiam ser exploradas para codificar dados e, então, criou o tecido especial.


;Fios condutivos são tipicamente usados na criação de tecidos inteligentes como um fio elétrico de um ponto para outro. O que descobrimos foi que podemos magnetizar esses fios usando um imã como os de geladeira. Nós podemos, então, detectar a presença ou ausência desses fios com um magnetômetro, um sensor para campos magnéticos. O legal é que todos os smartphones os possuem;, explica Justin Chan, principal autor do estudo, apresentado no 30; simpósio de Softwares e Tecnologia de Interface de Usuário, em Quebec, no Canadá.


Mesmo misturando tecido e eletricidade, a solução é tão maleável quanto fios de roupas comuns e pode ser costurada da mesma forma. Os pesquisadores testaram diferentes formas de tecer o material para formar o tecido magnético e optaram por um formato simples, que pode ser integrado facilmente a roupas. Por não usar eletrônicos, o material consegue guardar informações mesmo se exposto à chuva, a lavagens e depois de passado com ferro.


;Nós podemos codificar dados nesses tecidos magnetizados da mesma forma que informações são armazenadas em um disco rígido magnético no seu computador;, diz Chan. ;Transformamos esses fios em tecidos e polarizamos cada célula, de 5mm por 2cm de lado, com um polo norte ou sul para codificar um 0 ou um 1. Podemos facilmente armazenar números de série ou imagens com um padrão único, como um código QR em miniatura.;

Aplicações

Três aplicações foram testadas pelos criadores do material. A primeira ideia do grupo é substituir cartões eletrônicos adotados por empresas para controlar, por exemplo, o acesso a determinadas salas. Pedaços do tecido magnético foram colocados em peças comuns de roupa, como a manga de uma camisa, e receberam um código de acesso. Ao aproximar o braço do sensor, a porta se abriu.


;A vantagem é que códigos poderiam ser armazenados em roupas de maneira diferente das atuais, que precisam de algum circuito eletrônico;, ressalta André Avelino Pasa, professor do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina. Segundo ele, os códigos colocados em gravatas, mangas de camisa e dedos de luvas permitem que controles de portas sejam acionados pela simples aproximação. ;O trabalho é bem aplicado, isto é, deve estimular novos produtos na área;, acredita.
O segundo teste envolveu um quadrado de tecido capaz de armazenar imagens simples. Os cientistas dividiram a peça em regiões representando pixels e conseguiram guardar, por exemplo, letras e números. A última invenção foi uma luva com pedaços do tecido nos dedos para o reconhecimento de gestos por um smartphone, o que ;permitiria a interação com celulares sem que esses sejam retirados do bolso ou da bolsa;, diz Pasa.


;Imagine que uma loja de departamento quer marcar suas roupas com um identificador único. Ela teria que usar um código de barras visualmente intrusivo ou uma etiqueta eletrônica, que deve ser lida com um dispositivo caro;, ilustra Chan. ;Com nossa abordagem, todas as roupas podem ser marcadas com um identificador incluso no tecido. Além disso, elas podem ser lidas com os celulares do dia a dia.;


O pesquisador conta que ele e a equipe já estudam formas de aperfeiçoar o tecido magnético. ;Nós estamos pensando em como aumentar a densidade de informação que pode ser armazenada por ele. Fazer isso vai demandar o desenvolvimento de fios personalizados, assim como um método automático e preciso de codificar e recuperar os dados;, adianta.

* Estagiário sob a supervisão a subeditora Carmen Souza

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