Crônica da Cidade

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Droga e cultura

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 19/01/2018 00:00
Estava lendo uma matéria sobre um mapa das mortes provocadas por armas de fogo no Brasil quando tive a atenção despertada por um aspecto da pesquisa. A maioria atinge adolescentes e tem como causa o tráfico de drogas. Não entrarei no mérito da polêmica questão, sob o ponto de vista da violência, mas gostaria de remeter a um artigo do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, escrito em 1968, de impressionante atualidade.

Pasolini indaga: ;Por que as pessoas tomam drogas?; E se arrisca a responder: ;Não o compreendo, mas de certo modo explico. As pessoas se drogam por falta de cultura. Falo, evidentemente, da grande maioria ou da média dos drogados. É claro que quem toma drogas o faz para preencher um vazio, a ausência de alguma coisa, que causa desânimo e angústia. É um substituto da magia. Os primitivos estão sempre diante desse terrível vazio em seu íntimo. Ernesto de Martino o chama de ;medo da perda da própria presença;; e os primitivos, precisamente, preenchem esse vazio recorrendo à magia, o que o explica e o preenche;.

Ao fazer um paralelo entre o mundo moderno e o primitivo, Pasolini chega à conclusão de que, passado o momento de euforia com o iluminismo, a ciência, a comodidade, o bem-estar e o consumo, o alienado começa a se sentir sozinho consigo mesmo: ;Portanto, como o primitivo, ele se sente aterrorizado pela ideia da perda da própria presença;.

Pasolini admite: na realidade, todos tomamos drogas: ;Eu (ao que saiba) fazendo cinema: outros, aturdindo-se em outra atividade qualquer. A ação tem sempre uma função similar à droga. Che Guevara se drogava através da ação revolucionária (a teorizado pelo castrismo romântico: antes agir antes de pensar); também o trabalho que serve para ;produzir; é uma espécie de droga;.

A certa altura, Pasolini toca no ponto que me parece crucial para entendermos o momento que vivemos: a passagem de uma cultura humanista para uma cultura técnica coloca em crise a própria noção de cultura? ;Vítimas dessa crise são sobretudo os jovens. É por isso que há tantos jovens que tomam drogas. Carecer de certezas culturais e, portanto, da possibilidade de preencher o próprio vazio alienado, se não de outro modo, por meio da autoanálise e da consciência (individual ou de classe), significa ; em termos banais ; ser também ignorante. Com efeito, a crise da cultura faz com que muitos jovens sejam literalmente ignorantes. Em suma: que não leiam mais, ou que não leiam com amor;.

Pasolini não é nada otimista quanto à superação dessa crise cultural, pois ela envolve não apenas um problema de educação, mas sim um drama de civilização mais difícil de ser transcendido: ;Por outro lado (e esta é a conclusão desesperadora), libertar-se dessa ;falta de cultura; ou de ;interesse cultural; parece algo impossível; com efeito, ela provém, provavelmente, de um sentimento mais geral de ;medo do futuro;. Jamais, como nestes anos (nos quais a ;previsão; tornou-se ciência), o futuro foi fonte de tanta incerteza, foi tão parecido com um pesadelo indecifrável;.

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