ARTIGO

ARTIGO

PAULO DE TARSO LYRA paulodetarso.df@dabr.com.br
postado em 30/03/2018 00:00




Chocolate amargo na Páscoa

Na véspera da Sexta-Feira Santa, uma decisão do ministro Luís Roberto Barroso joga o presidente Michel Temer em uma via-crúcis da qual terá dificuldade de se livrar. Relator no Supremo Tribunal Federal do inquérito que investiga o presidente por suposto recebimento de propina em troca de benefícios a empresas do setor portuário via decreto, Barroso autorizou a prisão de José Yunes, João Batista Lima Filho, Wagner Rossi, Antonio Celso Grecco, Milton Ortolan e Celina Torrealba.

Os dois primeiros são do círculo íntimo de Temer. Rossi foi indicado por ele para o Ministério da Agricultura durante o governo Lula e permaneceu no posto no início do governo Dilma, até ser ejetado do cargo por ter aceitado carona no avião de um lobista. Antonio Celso Grecco é administrador do consórcio Rodrimar, que atua no Porto de Santos, e Celina Torrealba é uma das donas do Grupo Libra, concessionária do terminal santista.

Não há ninguém no grupo dos detidos que Temer possa dizer, olimpicamente, ;não conheço;. O presidente, que se anima cada vez mais no perigoso terreno da pré-campanha eleitoral, tem novos motivos para xingar, em público ou reservadamente, o ministro Barroso. Ele e os ministros mais próximos já fizeram isso quando o titular do STF aceitou investigar o presidente e quando Barroso interferiu no indulto de Natal de fim de ano.

Não dá para dizer que as prisões de ontem sepultem a pré-candidatura de Temer se ela não é vista com naturalidade nem mesmo pelo próprio partido até ontem presidido pelo emedebista. Mas poderá ser mais um complicador caso a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, resolva apresentar uma denúncia contra o titular do Planalto. Congressistas reclamam do desgaste de ter sepultado ;Michel 1; e ;Michel 2;, como eles próprios batizaram as denúncias apresentadas pelo procurador anterior, Rodrigo Janot. ;Michel 3; poderá não ser apreciada ; quiçá nem apresentada de fato ;, mas passeará como um fantasma a assombrar o presidente caso ele queira se aventurar à reeleição.

Temer, que se animara com a ideia da intervenção na segurança pública do Rio, já sentiu o baque com o assassinato da vereadora Marielle Franco e todos os questionamentos à operação em terras fluminenses. Agora, vê-se cercado por uma decisão de Barroso. E ainda tem que lembrar os parcos 6% de aprovação. De fato, é uma Páscoa à base de chocolate amargo.



Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação