O futuro é logo ali

O futuro é logo ali

Com a inteligência artificial cada vez mais presente na vida de todos, escolas preparam alunos para encarar o mundo novo e garantir espaços no mercado de trabalho

Simone Kafruni
postado em 12/01/2020 00:00
 (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)


Em um mundo em constante mudança, com inovações aceleradas, as escolas estão cada vez mais preocupadas em direcionar seus alunos para as profissões do futuro, para o empreendedorismo e para o mercado. Educar, afinal, é preparar os estudantes para a vida e o trabalho, uma parte importante da existência de cada um de nós.

No contexto da quarta revolução industrial, a diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas (Ceipe/FGV), Cláudia Costin, alerta que é preciso estar consciente de que a inteligência artificial substitui o trabalho humano, inclusive, o intelectual. ;Nos anos mais recentes, a preocupação sobre como formar pessoas empregáveis num cenário em que máquinas substituem seres humano ganhou importância. A escola precisa tratar disso desde a infância;, afirma.

Os novos paradigmas sugerem que os alunos devem ser empreendedores da própria vida, sustenta Costin. ;O estudante tem que estar capacitado para diferentes projetos de vida, não só porque máquinas vão fazer seu trabalho, mas também porque oportunidades podem não passar na frente dele. É papel da escola dar uma formação ampla para o jovem, sobretudo, ensinar o projeto de vida;, explica.

Segundo a especialista, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) incluiu a ideia de projeto de vida a partir de uma experiência bem-sucedida em Pernambuco, de formar o aluno para o protagonismo juvenil. ;O Ginásio Pernambucano fez um ensino médio integral com trabalho nessa linha, de desenvolvimento de projetos para a comunidade, com mentoria para fazer a conexão com aquilo que o aluno sonha ser. Isso vai ser incorporado nos currículos de todo o país a partir de 2021;, afirma.

Ensino técnico

Além dessa mudança estrutural que ainda está por vir, o ensino com olhos para o mercado de trabalho está presente desde a criação dos cursos técnicos profissionalizantes. ;Conceitualmente, isso surgiu como alternativa para o jovem pobre, que não terá condições de ir para a faculdade. No entanto, ficaram claras duas questões: há um mercado muito grande para quem tem ensino técnico; e isso não quer dizer que esses jovens não possam ir para a universidade depois;, destaca.

Costin afirma que os cursos técnicos e profissionalizantes são usados como trampolim para a universidade. ;Os melhores alunos das escolas públicas preferiam ir para escolas técnicas, porque eram uma porta de entrada, como um cursinho pré-vestibular, por conta do alto nível desses cursos. Mas esse não é o melhor caminho. O ideal é ter um bom ensino técnico, cujos créditos possam valer no futuro para uma faculdade, como ocorre hoje na Coreia;, defende.

A dimensão do projeto de vida é o ponto principal da educação com vistas ao mercado de trabalho, no entender de Luiz Gustavo Mendes, vice-diretor pedagógico do Colégio Marista João Paulo II. ;Durante muito tempo, as escolas focaram a orientação profissional no ensino médio. Não havia preocupação de se entender quem era o aluno, qual a vocação dele, para depois ele escolher uma profissão;, recorda.

Com foco na vocação e no projeto de vida, a chance de ter sucesso é maior, afirma o especialista. ;Nós trabalhamos desde a infância para o aluno se compreender como sujeito. Isso começa no Fundamental 2, quando os estudantes têm entre 11 e 15 anos;, destaca Mendes. A partir do autoconhecimento, o processo educacional passa a trabalhar a experiência. ;Isso ajuda a clarear tanto a vocação quanto a profissão;, diz.

Potencial

No sétimo ano, o Colégio Marista estimula, por exemplo, a produção de aplicativos. ;Os alunos identificam um problema e o solucionam com ferramentas digitais. Com isso, descobrem um potencial profissional futuro;, afirma. Houve um caso de uma estudante que desenvolveu um aplicativo de carona para ir à escola, conta o diretor. ;Tipo um Uber, mas com os pais cadastrados. Isso partiu da cabeça de uma criança de 12 anos;, contaa o diretor.

No ensino médio, o Colégio Marista desenvolve o empreendedorismo, com projetos de criação de empresa, de produto, de foco no mercado de trabalho. ;Fazemos simulações de organismos internacionais e os meninos colocam a mão na massa. Ali eles escolhem postos, há comitê de imprensa para quem curte escrever. Há tribunais para os que gostam de direito. E um comitê de organização do comércio para os estudantes voltados à administração;, enumera. Essas vivências estão no centro das atividades para preparação profissional e cabe aos professores levar isso para a sala de aula, explica Mendes.

Foram o apoio e a inspiração dos mestres de biologia do Colégio Ideal de Águas Claras que levaram o estudante Artur Nascimento, 16 anos, a escolher sua futura carreira profissional. ;A gente tem apoio nas conversas, aprende como funciona o mercado de trabalho e que tipo de inclinação tem para saber a vocação. Conversei bastante com dois pesquisadores de biologia, uma professora que atua em laboratório, outro, em trabalho de campo;, conta.

O que mais atraiu Artur foi o trabalho de campo. ;Sou escoteiro, sempre gostei de natureza e da questão ambiental. Por isso, procurei pelos professores de Biologia. Este ano de 2020 é o meu último na escola e, ainda na faculdade, quero começar a trabalhar;, revela.

Empreendedorismo

Além do apoio, os docentes implementam projetos dentro da escola para desenvolver o empreendedorismo nos alunos. William Pinheiro, diretor da unidade de Águas Claras do Sigma, explica que não é uma disciplina acadêmica, mas são ações que buscam despertar no aluno o espírito empreendedor. ;Desenvolvemos habilidades e competências desde o ensino fundamental, nos anos iniciais, com educação financeira para crianças de 6 a 11 anos;, destaca.

O colégio tem ainda o projeto Sigmakers, que pretende desenvolver a capacidade de criação de projetos. ;Vai na linha do ;faça você mesmo; para um aprendizado na base de projetos que incentivam a curiosidade e a inovação, competências para qualquer aluno do século 21. São projetos interdisciplinares, sobretudo, nas áreas científicas;, detalha.

No ensino médio, a escola desenvolve o projeto Sigma-Mundi, que simula a Organização das Nações Unidas (ONU) e no qualos alunos participam de debates nos comitês de direitos humanos, saúde e conselho de segurança.

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