Brasileiro evita fazer dívida temendo 2015

Brasileiro evita fazer dívida temendo 2015

Inflação elevada, juro alto, crescimento baixo e mudança do governo deixam consumidor desconfiado. Especialistas recomendam quitar débito e não financiar

» DIEGO AMORIM
postado em 24/10/2014 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)





Os brasileiros não sabem quem vencerá as eleições neste domingo, mas estão certos de que 2015 deverá ser de atenção total às contas domésticas. Prevendo uma virada de ano nebulosa financeiramente, muitas famílias se convenceram da necessidade de serem mais cautelosas e disciplinadas nas decisões do dia a dia. As incertezas políticas e econômicas as levaram a adiar planos de consumo e fugir ao máximo dos financiamentos.

A inflação incomodando, os juros altos para contê-la e o crescimento pífio da economia deixam os consumidores desconfiados com o que estar por vir. ;Faço as compras e vejo que as coisas estão esquisitas. Quando levo R$ 50 ao mercado, trago tudo na mão. Não precisa nem mais de sacola;, comenta, assustada com a carestia, a pernambucana Geralda Macedo Gomes, 80 anos, sete filhos, 19 netos e 17 bisnetos. ;E ainda vou ver meus tataranetos;, avisa ela, com sorriso fácil.

Geralda saiu do interior de Pernambuco e desembarcou na capital federal em 1954, quando, nas palavras dela, a futura Brasília ainda era só ;mato, pulga e rato;. Chegou em um pau-de-arara e retornou à terra natal pela primeira vez 10 anos depois, de avião. Nesse tempo, a vida melhorou para ela e para o falecido marido, ambos funcionários do governo do Distrito Federal. Mas hoje, mesmo com a aposentadoria, a pensão e os herdeiros crescidos, ela anda assombrada com as finanças.

A única dívida de Geralda é a do carro financiado, comprado a pedido de um dos filhos. De resto, cada centavo que entra e sai tem sido rigorosamente monitorado. ;Não tenho mais idade para ficar endividada;, comenta ela, que diz ter ensinado a família a não se seduzir pelo consumismo. ;O povo gosta de trocar tudo toda hora. Se minha geladeira está funcionando, por exemplo, por que vou querer outra?;, questiona a aposentada, mostrando um rádio de pelo menos 30 anos.

Caminho
Os cuidados adotados pela matriarca são, no entender do consultor financeiro Mauro Calil, o único caminho para se manter ileso diante de um cenário de incertezas. ;Só terá coragem de empurrar as dívidas para 2015 quem não tem consciência do momento atual ou confia demais na estabilidade do emprego;, diz ele, reforçando a recomendação para que os consumidores evitem as prestações a perder de vista e priorizem a quitação dos débitos e a poupança.

O pouco de dinheiro que o servidor público Américo Pereira, 46, conseguiu juntar precisou ser resgatado nos últimos meses para salvar as contas. Após a reforma da casa em 2010, acompanhada da fase da bonança, chegou a hora de segurar os gastos no curto prazo e se preparar para um arrocho maior a partir de janeiro. ;Está tudo muito incerto. No momento, não dá para ter garantia de nada;, sublinha ele, com dois empréstimos pendurados no banco.

Faxina
Se não quiserem virar o ano com as contas tão incertas quanto o cenário, os brasileiros precisarão fazer uma faxina no orçamento doméstico, aconselha o educador financeiro Reinaldo Domingos. Vale questionar com firmeza a necessidade do consumo e, vencendo a tentação dos gastos, reservar boa parte do 13; salário para a poupança. ;Se existem dívidas, no entanto, quitá-las é a prioridade. Para os endividados, não faz o menor sentido encarar novos compromissos;, acrescenta.

Com o crédito mais caro e mais restrito, o comércio tende a oferecer parcelamentos mais tímidos neste fim de ano, com prazo de pagamento encurtado. Enquanto a economia não se acalmar, Domingos recomenda que os consumidores encararem prestações por, no máximo, três meses, no caso de bens duráveis. E o mais importante, completa ele, é levar a sério as ;reservas estratégicas;. ;As famílias terão de estar preparadas para situações de recessão;.

Francisco Johnes, 24, tira o próprio sustento dos bicos como pedreiro. Apesar de a demanda pelo serviço dele ter diminuído consideravelmente, as dívidas foram controladas. ;O dinheiro está escasso. Quem tem está preferindo guardar;, diz ele, que mora com mais nove pessoas da família em um terreno ocupado por dois barracos. ;Aqui, está tudo mundo apertado. Ninguém é doido de sair comprando mais;, emenda.

A mãe de Francisco, Regina Alves Barbosa, 42, sonha com geladeira e guarda-roupa novos. ;Mas sei que agora não dá. Não se pode fazer dívida sem certeza do futuro;, comenta ela, que sobrevive com a pensão do marido e ajuda dos filhos. As faturas de água e luz do terreno estão atrasadas. Já a televisão, comprada há um ano, foi finalmente quitada. Consciente da situação atual, Francisco torce para que a situação melhore em 2015. ;Espero que as pessoas voltem a construir;.

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