Batucada tipo exportação

Batucada tipo exportação

No Dia Nacional do Samba, artistas de Brasília falam sobre o cenário local e comentam a projeção dos músicos no Rio de Janeiro

» ADRIANA IZEL » MÁIRA DE DEUS BRITO
postado em 02/12/2014 00:00
 (foto: João Paulo Barbosa/Divulgação)
(foto: João Paulo Barbosa/Divulgação)

;Não deixe o samba morrer/ não deixe o samba acabar/ O morro foi feito de samba/ De samba para gente sambar.; A canção composta por Edson Conceição e Aloísio Silva eternizada na voz de Alcione representa o que os sambistas da capital têm conseguido fazer nos últimos anos: manter o estilo musical em Brasília e, ainda, garantir o respeito dos músicos em uma das cidades natal do gênero, o Rio de Janeiro.

Mesmo sem a tradição, hoje, a capital é conhecida pela quantidade de artistas dedicados ao ritmo. Eles fazem um samba que movimenta o cenário da cidade e, ainda, conseguem transcender o Distrito Federal ganhando destaque no país. Recentemente, o brasiliense Breno Alves ganhou o concurso Novos Bambas do Velho Samba, um dos prêmios mais respeitados do estilo, promovido pela casa noturna Carioca da Gema, localizada na Lapa, no Rio de Janeiro.

São incentivos, como o conquistado por Breno Alves, que tornam o Dia Nacional do Samba mais uma data para celebrar o crescimento e o amadurecimento do gênero na capital, que, atualmente é abraçada pelos cariocas, os ;pais do samba;.





Samba da irmandade

Renata Jambeiro é uma das sambistas brasilienses que vem ganhando projeção no Rio de Janeiro, onde mora há dois anos. ;Apesar do Rio ser o grande berço, eles reconhecem os brasilienses como perpetuadores à altura. Gosto de dizer que Brasília faz o samba da irmandade, com todo mundo junto. Também acho que como a nossa cidade não tem mar, a gente costuma mergulhar mais na arte;, explica. A cantora defende que o samba conquistou força na capital quando o país voltou a ser democrata. ;Todo mundo conhece Brasília por ser a cidade do rock e foi um movimento forte na ditadura. Depois as pessoas voltaram a ter essa conversa de respeito e de tradição de uma forma moderna. Me incluo nessa geração que trouxe luz à cultura popular por meio do samba;, diz. Ela completa citando o exemplo de vários amigos que conheceram nomes clássicos, como Dona Ivone Lara e Clara Nunes devido aos shows dela. ;É um movimento que se comunica com todas as formas de cultura. Para ser politicamente ativo é preciso saber sua história;, observa.



Reconhecimento carioca

O último 19 de novembro entrou na história da carreira de Breno Alves. O brasiliense, integrante do grupo Adora-Roda, estava entre os 12 finalistas do 8; concurso Novos Bambas do Velho Samba, do Carioca da Gema. O repertório, com composições de Jorge Aragão e Luiz Carlos da Vila, teve como destaque o emblemático samba Heróis da liberdade, dos mestres Silas de Oliveira e Mano Décio. ;Era véspera de feriado, Dia da Consciência Negra, e eu precisava cantar uma música que fizesse referência à data;, explica Breno. A performance e o setlist encantaram os jurados, que, por unanimidade, consagraram o artista vencedor do concurso. ;Fiquei muito feliz com a vitória, ainda mais por ter tido, no palco, a companhia de músicos daqui. Agora, é batalhar por patrocínio para que eles possam me acompanhar nos shows que farei durante o mês de janeiro no Carioca da Gema;, diz Breno. ;Brasília está em um momento muito importante
de fortalecimento do samba. Sei que ganhar um prêmio como esse no Rio de Janeiro é uma vitrine importante, mas, por enquanto, não penso em ir embora. Ainda há muito o que ser feito por aqui.;



Cenário promissor

Aos 29 anos, Rafael dos Anjos é um dos principais nomes de Brasília no Rio de Janeiro. Morando há quase dois anos na capital fluminense, ele foi responsável pelo violão e pelos arranjos nos álbuns de Sombrinha e de Marcelinho Moreira. Quando perguntando se o samba de Brasília não deve nada ao do Rio de Janeiro, o músico alerta: ;Muitas pessoas costumam dizer isso, mas é preciso ter cuidado. Tudo que a gente ouve de samba, bossa nova e choro vem do Rio e devemos respeitá-lo por esse histórico. O Rio é a cidade do samba e tem uma prática de produção que ainda não temos.; Violonista e diretor musical da banda de Arlindo Cruz, e integrante do Baile do Almedinha ao lado de Hamilton de Holanda, Rafael destaca a qualidade dos músicos brasilienses. ;Acredito muito no mercado de Brasília. Temos excelentes músicos, como Sérgio Magalhães, Cacá Pereira e Déborah Vasconcellos, e o cenário do samba só cresce. Gente competente não falta, mas é preciso mais infraestrutura técnica e apoio do próprio governo para esses talentos,; conclui.



No caminho certo

Nascida em Nilópolis (RJ), criada em Salvador e radicada em Brasília, a cantora Dhi Ribeiro teve a oportunidade ao longo da carreira de fazer uma espécie de intercâmbio com o samba em vários estados. A partir dessa experiência, a artista diz acreditar que Brasília está no caminho certo para conseguir de vez o título de cidade do samba. ;Nós temos grandes músicos na capital, sempre ressalto isso. Há um trabalho e uma preocupação em valorizar o samba de raiz;, afirma. A intérprete destaca que a principal diferença entre as cidades está na proporção que o samba ganha. ;Temos poucos palcos em Brasília. Mas, hoje, temos vários artistas da cidade que estão se mantendo no Rio. Essa conexão é importante. Faço questão de ficar aqui, porque acho que se todo mundo sair não conseguimos fazer um campo. Os cariocas já têm tudo plantado, nós ainda estamos plantando;, define Dhi.



Semente germinada

O capixaba Makley Matos atualmente vive no Rio de Janeiro, porém, nos anos 1990, ele fez carreira como sambista na capital. Essa andanças pelo país fez com que o cantor percebesse que Brasília se tornou uma referência no samba. ;Estamos cultivando a semente que já germinou. Já passaram vários sambistas pela cidade e também têm muita gente nova chegando. O gênero é um patrimônio nacional e em alguns lugares ele passa despercebido. Agoniza, mas não morre;, comenta. Matos foi o primeiro vencedor do concurso Novos Bambas do Velho Samba, promovido pela casa noturna Carioca da Gema. Por isso, se diz orgulhoso de ver Breno Alves conquistar o mesmo título. ;Isso só mostra que a nova geração está chegando. Ele é mais um filho do samba e um soldado na militância. Esse prêmio foi importantíssimo na minha carreira e fico feliz de saber que o Breno está levando essa música cada vez mais longe;, completa.




Anote esses nomes

Cris Pereira
A cantora brasiliense está nas principais rodas de samba da cidade. Aos 35 anos, 20 deles dedicados à música, Cris tem um currículo extenso que passa por experiências pela música erudita e pelo grupo Batucada de Bamba, que tinha no repertório sucessos da música popular brasileira. Há quase 10 anos em carreira solo, a artista lançou, no ano passado, o primeiro disco, Folião de raça, com participa&

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