Fiscalização falha para arte marcial

Fiscalização falha para arte marcial

Nem o Conselho Regional de Educação Física da 7ª Região nem as federações de lutas têm autorização para aplicar sanções às academias. A atribuição é da Vigilância Sanitária, que conta só com dois profissionais para realizar o trabalho

» MANOELA ALCÂNTARA » KELLY ALMEIDA
postado em 13/12/2014 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

A prática do muay thai no Distrito Federal reúne cerca de 800 alunos credenciados na federação da modalidade. Número que pode crescer se considerados os iniciantes e os que não fizeram o registro. Mesmo assim, a fiscalização sobre a qualidade e a formação dos professores que ministram as aulas é ineficaz. O Conselho Regional de Educação Física da 7; Região (Cref-7) não tem atribuição sobre dança e arte marcial. A Federação de Muay Thai do DF pode denunciar irregularidades, mas não é responsável por punir o comportamento fora do código de ética. A atribuição de fechar estabelecimentos irregulares é da Vigilância Sanitária, mas os profissionais do setor não percebem qualquer controle.

De acordo com o presidente da Liga Brasileira de Muay Thai Tradicional e da Federação de Muay Thai do DF, Sandro Luiz Marciano, a vigilância deveria multar as academias sem professores credenciados às entidades competentes de cada luta e, em alguns casos, até interditar o local que não se adequa às regras. ;Se tem um professor de jiu-jitsu, um de muay thai ou de qualquer outra área, deve ser credenciado à federação competente. Mas não é isso que acontece. Vemos tantos eventos clandestinos e professores com práticas irregulares, denunciamos e nada é feito;, lamenta.

Segundo ele, hoje, não há quem proíba uma pessoa de dar aula de arte marcial. Os critérios e as exigências precisam ser feitos pelos donos de academia e pelos alunos, que não devem entrar em uma modalidade sem pesquisar sobre o ambiente que frequentará. Sandro acredita ainda que mudanças seriam bem-vindas. ;O professor deveria ter um registro na Secretaria de Segurança Pública e na Polícia Civil, com fiscalização semestral sobre as práticas dele dentro da academia. Não podemos ter pessoas pregando a cultura da briga e da violência para alunos em formação;, defende o presidente.

Formação
O Cref-7 perdeu uma apelação civil feita à Justiça contra o Ministério Público Federal e o Ministério Público do DF e Territórios a fim de fiscalizar a prática de lutas e a atividade dos profissionais envolvidos. A decisão do juiz foi de que a entidade não teria o direito de fiscalizar o registro nem aplicar sanções aos trabalhadores das áreas de dança e de luta. ;Perdemos em última instância no ano passado. O principal argumento era de que a luta é uma arte milenar e não precisa ser praticada por um profissional de educação física. Hoje, quando fiscalizamos as academias, nem vamos aos locais de luta, não é nossa atribuição;, explica a presidente da entidade, Cristina Calegaro.

Por meio de nota, a Secretaria de Saúde informou que existem 728 academias registradas no DF e que a Concept Fit, em Sobradinho, onde Emerson Rafael levou o golpe fatal, ainda não foi vistoriada devido ao cronograma das atividades de inspeção ; a unidade está com o registro em dia no Cref-7. ;Em parceria com o conselho, a Subsecretaria de Vigilância à Saúde (SVS) conta com dois profissionais para realizar o trabalho. Até o momento, 350 academias foram vistoriadas e 5% dessas foram fechadas por alguma irregularidade;, descreve o documento. A previsão da pasta é de que até setembro de 2015 todas as academias passem pela vistoria.


Palavra de atleta

;É preciso se preparar;

;Quando um aluno novo chega à academia, o professor deve ter ciência de que ele nunca fez arte marcial e não está acostumado a receber golpes. É o professor que deve ter o cuidado de saber que o aluno não pode fazer um combate tão cedo. O aluno tem de aprender o conceito, a técnica e, devagar, começa a aplicar, mas nunca em confronto e, sim, em movimentação. Alguns chegam à academia e já querem lutar, mas é preciso se preparar fisicamente e psicologicamente. A arte marcial no Brasil foi difundida muito rápido. Hoje, muita gente chega ao shopping, compra um short, vai para a academia e vira professor. Às vezes, são organizados eventos de luta dentro de academias e do lado de fora não tem nem ambulância. Isso está errado. É preciso ter cuidado com a integridade de todos. Quando alguém é denominado professor é porque foi preparado para instruir uma pessoa com todo o conhecimento.;

Daniel Santos de Aquino, 22 anos, campeão sul-americano de muay thai tradicional



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