Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br

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postado em 31/03/2015 00:00
A última do Oscar

Enquete do Correio online dá pistas da reação da cidade a mais essa intrusão: 81% são contrários à obra, segundo contagem das 18h de ontem.
Depois de ter tentado obstruir a paisagem arquitetônica da Esplanada com a Praça da Soberania, Oscar Niemeyer, que Deus o tenha, agora quer tirar do brasiliense o seu pôr do sol mais esplendoroso e mais importante. Trata-se do projeto do arquiteto para o memorial a João Goulart que se planeja construir em frente à Praça do Cruzeiro.

Essa é só uma das agressões, e a mais significativa, de várias outras que virão com a pretendida obra do arquiteto. Mesmo que se tratasse de um exemplar da boa arquitetura, ainda assim, seria injustificável. Faço meu o comentário do artista plástico Fernando Lopes: ;Isso não é arquitetura, é história em quadrinho;. Uma cúpula convexa, como a do Museu da República e de vários outros projetos de Niemeyer, atingida por um volume vermelho, em forma triangular, que parece flechar a cúpula. Nela, está escrito em letras monumentais: 1964.

Ou seja, no lugar do pôr do sol, teremos a lembrança do golpe militar.

Por que um memorial para Jango em Brasília se ele nem mesmo gostava da cidade? Pode-se alegar, com evidente razão, que ele foi presidente do Brasil e não da capital do país. Mas, em sendo assim, outros ocupantes do Palácio da Alvorada terão o direito a uma obra no Eixo Monumental. O que transformará o canteiro central num acampamento de arquiteturas sofríveis, a se levar em conta a qualidade do projeto do memorial a Jango.

Pode-se também argumentar que Jango merece uma reparação histórica pela perseguição da ditadura. Sem dúvida. Mas sem causar estragos tão irremediáveis à obra do fundador de Brasília, de quem o gaúcho foi vice-presidente.

Vale ressaltar que Silvestre Gorgulho, ex-secretário de Cultura do DF, diz ter ouvido de Niemeyer a recomendação: ;Não quero que (o projeto) seja construído em Brasília. Na capital, só o memorial do fundador;.

Sendo assim, a origem do estrago começou no governo passado, que cedeu os 3 mil metros quadrados de área para o Instituto João Goulart. O lugar era outro. Em 2006, a Terracap destinou ao memorial um espaço abaixo da Praça dos Três Poderes, ao lado do Mastro da Bandeira.

No projeto, Niemeyer inscreveu uma ;explicação necessária;, na qual detalha a razão da flechada na cúpula côncava: ;Quem conhece a história de João Goulart sabe como ele foi violentamente afastado do cargo com o golpe militar de 1964, que durante vinte anos pesou sobre o nosso país. E isso eu procurei marcar na minha arquitetura, da forma mais clara, com uma grande flecha vermelha a atingir a cúpula projetada.;

Especula-se um prazo de quatro anos para a execução do memorial. Os tapumes que estão sendo colocados no local, de muito boa qualidade, já são um ensaio do estrago que a obra causará a um dos mais belos patrimônios da cidade, o encontro do céu com o horizonte, a cada novo fim de tarde.


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