Itamaraty lamenta crise com a Turquia

Itamaraty lamenta crise com a Turquia

Em retaliação a moção aprovada pelo Senado brasileiro reconhecendo o genocídio armênio, Ancara convoca embaixador em Brasília e classifica decisão de "exemplo de irresponsabilidade"

» RODRIGO CRAVEIRO » GABRIELA WALKER
postado em 10/06/2015 00:00
 (foto: Yasin Akgul/AFP - 24/4/15)
(foto: Yasin Akgul/AFP - 24/4/15)




As relações diplomáticas entre Brasil e Turquia, estabelecidas 157 anos atrás, sofreram abalo depois de o Senado brasileiro aprovar por unanimidade a ;Moção de solidariedade ao povo armênio pelo transcurso do centenário da campanha de extermínio de sua população;. Por meio do comunicado n; 171, o Ministério de Assuntos Externos da Turquia sustenta que a resolução do Senado brasileiro sobre os eventos de 1915 ;distorce as verdades históricas e ignora a lei;. ;Nós a consideramos um exemplo de irresponsabilidade. Decisões políticas dessa natureza, tomadas sob a influência de lobbies armênios, não podem mudar os fatos históricos nem as normas legais;, diz a nota, segundo a qual o embaixador do Brasil em Ancara foi convocado pelo Ministério em 3 de junho. ;O embaixador turco em Brasília, senhor Hüseyin Diri;z, também foi reconvocado a Ancara para consultas;, acrescenta. O Itamaraty ;lamentou; ontem a decisão do governo do premiê Ahmet Davutoglu e os termos da nota.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores brasileiro, Diri;z foi chamado ao Itamaraty, em 1; de junho, e recebeu explicações sobre o requerimento. ;O Senado Federal agiu dentro de suas prerrogativas constitucionais e em consonância com o princípio da independência de poderes consagrada pela Constituição brasileira;, afirma o comunicado. O Brasil mantém a expectativa de que as relações bilaterais com a Turquia ;sejam retomadas em breve à plena normalidade;. A moção avalizada pelo Senado reconhece como genocídio a ação do Império Turco-Otomano contra os armênios durante a Primeira Guerra Mundial ; o massacre de 1,5 milhão de pessoas teve início em 24 de abril de 1915.

Em entrevista ao Correio, por telefone, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), coautor do requerimento, chamou de ;inaceitáveis; os termos da declaração da chancelaria turca. ;A nota classifica a moção aprovada pelo Senado de ;irresponsável;. Quem são eles para nos dar lições nessa matéria? Talvez desconheçam a velha separação de poderes que vigora no Brasil;, comentou. Outro ideólogo da moção, o senador José Serra (PSDB-SP) considerou ;muito ruim; a reação de Ancara. ;O governo turco não pode querer impor a sua vontade de negar esse genocídio a todos os países nem a todos os poderes legislativos do mundo;, declarou Serra, em comunicado enviado à reportagem.

Deslealdade

Especialista do Centro para Estudos do Oriente Médio da Universidade da Califórnia, Berkeley, Sherifa Zuhur disse que o governo turco está furioso com os países que reconheceram o massacre e a deportação forçada dos armênios como genocídio. ;Ancara trata isso como deslealdade diplomática, um ataque sobre a posição turca de que o actus reus (a intenção de destruir uma população), presente na Convenção sobre Genocídio, não encontra parâmetro no caso armênio;, afirmou, por e-mail. De acordo com ela, 43 Estados norte-americanos e 27 nações admitiram o genocídio.

Por sua vez, Gül Berna ;zcan, analista turca da Universidade de Londres, explicou que a Turquia considera as moções aprovadas por parlamentos como ;imperiais;. ;Ancara mantém a visão de que as deportações ocorreram sob condições de guerra e da ocupação de forças estrangeiras. A posição oficial é de que esses eventos, apesar de tristes, não foram assassinatos sistemáticos e não constituem um genocídio;, comentou. ;zcan adverte, no entanto, que escrever a história por meio de parlamentos é um antigo estilo hostil de formulação de políticas. ;Mesmo aquelas pessoas que possam concordar com a alegação de genocídio interpretariam a decisão do Brasil como um ato de imitação de um poder imperial;, concluiu.



Eu acho


;A moção foi um repúdio a um fato histórico. A memória desse fato não pode se perder. Quem conduz a política externa do Brasil é a presidente. A opinião do Senado foi referendada pela unanimidade dos senadores. O requerimento contou com a assinatura de 55 senadores, incluindo a do líder do governo. A presidente deve levar em conta a opinião do Senado.;

Aloysio Nunes Ferreira, senador (PSDB-SP) e coautor da Moção de Solidariedade ao Povo Armênio

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação