O giro de Lula em Brasília

O giro de Lula em Brasília

PAULO DE TARSO LYRA JULIA CHAIB
postado em 30/06/2015 00:00
 (foto: Givaldo Barbosa/Agência O Globo
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(foto: Givaldo Barbosa/Agência O Globo )


Cansado de reclamar que o governo está no volume morto, que o PT precisa se reinventar e que é preciso reconstruir as pontes com o PMDB, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou ontem em Brasília para conversar com deputados e senadores petistas e preparar um contra-ataque à Operação Lava-Jato, da qual considera-se alvo preferencial. Lula marcou o encontro aproveitando a ausência da presidente Dilma Rousseff, que está nos Estados Unidos, para dar seu recado ao partido sem a necessidade de se encontrar com a titular do Palácio do Planalto. Na abertura da reunião, Lula afirmou que a ressurreição do PT parte da retomada do diálogo com os movimentos sociais para que a política econômica atinja o objetivo de atender as necessidades dos mais pobres.

Horas antes do encontro com os parlamentares, Lula reuniu-se com a direção petista e o marqueteiro João Santana, para acertar o tom da propaganda petista que vai ao ar em 6 de agosto. Acompanhado do presidente nacional do PT, Rui Falcão, e do secretário de Comunicação da legenda, José Américo Dias, Lula e Santana discutiram como reverter a imagem negativa do PT perante a sociedade, desgastada pelo escândalo da Petrobras e com uma presidente que ostenta pífios 10% de popularidade. ;O PT não pode mais apanhar calado;, defendeu o deputado Paulo Teixeira (PT-SP).

Hoje, Lula toma café da manhã com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Mais de uma vez, o líder petista tem dito que, com o governo nas cordas e o risco concreto dele ser preso com o aprofundamento das investigações, sobretudo após a homologação da delação do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, é fundamental recompor-se com o principal partido aliado e que vive uma fase de estranhamento com o PT.

Lula quer o PT mais incisivo nas críticas ao que considera absurdos das investigações. Segundo ele, por ter imunidade parlamentar, deputados e senadores têm a liberdade de subir à tribuna para criticar as ações do juiz Sérgio Moro. Lula considera que as prisões estão extrapolando os limites legais, ao deixar os investigados na cadeia até que eles aceitem fazer uma delação premiada. Ele também cobrou a mesma postura dos juristas ligados ao partido, o que explicaria a entrevista de Celso Antonio Bandeira de Melo à Folha de S.Paulo, ontem, dizendo que o juiz Sérgio Moro ;quer um palco;.

A bronca de Lula já começou a surtir efeito. Na semana passada, o vice-presidente do Senado, Jorge Viana (PT-AC), foi à tribuna da Casa avisar que vai ao Supremo Tribunal Federal (STF) reclamar do vazamento seletivo dos depoimentos. ;Eu desisto de ir ao ministro da Justiça (José Eduardo Cardozo) protestar. Ele sempre diz que esse é um assunto do Ministério Público;, criticou Viana.

Cardozo, inclusive, é um capítulo à parte nessa história. Os petistas consideram que o titular da Justiça é omisso e que está deixando a Polícia Federal, principalmente alguns ;delegados tucanos;, agindo de maneira política e panfletária. A Executiva nacional petista decidiu, então, convocar Cardozo e o secretário-geral da presidência, Miguel Rosseto, para dar explicações ao partido, ainda sem data definida.

Lula está ressentido com a presidente, e reclama dos argumentos dela de que a Lava-Jato ;não tem relação com seu governo;. O argumento caiu por terra após a delação de Ricardo Pessoa, já que o empreiteiro envolveu Mercadante e o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, no caso, ao dizer que doou R$ 250 mil para o chefe da Casa Civil durante a campanha ao governo de São Paulo, em 2010. E R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma Rousseff, em 2014 ; da qual Edinho era tesoureiro. No fim da tarde, Lula ligou para Mercadante e falou que governo e PT precisam trabalhar, juntos, para reconstruir as respectivas imagens.

Para evitar constrangimentos, nenhum integrante do governo foi convidado para o encontro de ontem à noite. O ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, que presidiu o PT durante a crise do mensalão, minimizou a vinda de Lula a Brasília. ;É sempre importante o diálogo político como o nosso ex-presidente. Essas críticas são recorrentes na história do PT, que vive de momentos críticos, onde ele se alimenta para continuar se renovando e construindo sua trajetória;, afirmou Berzoini.


Eu desisto de ir ao ministro da Justiça protestar. Ele sempre diz que esse é um assunto do MP;
Jorge Viana (PT-AC), senador


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