GDF tira secretário para estancar crise na Saúde

GDF tira secretário para estancar crise na Saúde

Sem apresentar soluções para uma das áreas mais críticas do governo Rollemberg, João Batista de Sousa deixa a pasta. Vazamento de áudio de uma reunião sobre superbactéria funcionou como instrumento de pressão para a queda

» HELENA MADER
postado em 23/07/2015 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 28/4/15 )
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 28/4/15 )





O Governo do Distrito Federal sofreu ontem a terceira baixa no primeiro escalão. Depois de receber duras críticas de deputados distritais e de denúncias sobre a proliferação da KPC nos hospitais da rede, o secretário de Saúde, João Batista de Sousa, pediu exoneração do cargo. O governador Rodrigo Rollemberg vai anunciar o novo nome hoje à tarde (leia mais na coluna Eixo Capital). A saída de Batista ocorre no momento em que o governo sofre grande pressão para ampliar o espaço de aliados no primeiro escalão. Apesar da ofensiva de deputados interessados em cargos na cúpula do Executivo, o governador procurou o ministro da Saúde, Arthur Chioro, em busca de uma indicação técnica para a área.

João Batista de Sousa é proctologista, professor da Universidade de Brasília, comandou o Hospital Universitário e foi vice-reitor da instituição de ensino superior. O nome dele foi um plano B de Rollemberg, que chegou a anunciar a indicação do médico Ivan Castelli.

Desde o início do mandato, área da saúde foi uma das mais sensíveis. Rollemberg cogitou substituir o secretário em diversas situações. Uma das principais opositoras da presença do médico foi a presidente da Câmara Legislativa, Celina Leão (PDT). ;A situação do secretário de Saúde é insustentável, pela demora e pela falta de transparência em resolver a contaminação dos hospitais por KPC, sem um protocolo eficiente para combatê-lo. Tem gente morrendo;, afirmou a distrital pedetista na semana passada.

Em abril, ela participou de um jantar com outros parlamentares para debater os problemas da rede, mas o encontro se transformou em instrumento de pressão para a saída de Batista. Na ocasião, o grupo de distritais levantou o nome do médico do Hospital Regional da Asa Norte Renato Lima como opção para o posto.

Superbactérias

O caos instalado na saúde ameaçava o secretário João Batista desde o início do ano. Além da falta de medicamentos, profissionais e insumos de limpeza, a crise foi agravada com o surgimento de dezenas de casos de infecção por superbactérias em hospitais da rede pública. Órgãos federais passaram a acompanhar os passos do GDF. Na última semana, relatório do Ministério da Saúde indicava problemas como o desabastecimento de remédios. Atualmente, faltam 73 itens nas prateleiras.

Um dos desafios do futuro secretário será reduzir as despesas sem licitação. A pasta é uma das mais problemáticas, graças aos sucessivos contratos emergenciais firmados para a compra de produtos hospitalares ou para a contratação de prestadoras de serviço. Na semana passada, João Batista se reuniu com o presidente do Tribunal de Contas do Distrito Federal, Renato Rainha, para tratar do assunto. Na ocasião, prometeu reduzir as despesas sem licitação até o fim de agosto.

Saia-justa

A última saia justa do chefe da pasta foi a divulgação do áudio de uma conversa em que João Batista revelou que a superbactéria Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase (KPC) afetaria pelo menos oito hospitais entre públicos e privados no DF. Os dados foram desmentidos pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além disso, um relatório do TCDF revelou a farra do ponto eletrônico na secretaria. O governo justificou as falhas, mas não deu previsão para regularizar o controle de frequência de 4,5 mil funcionários.

Em nota, o governador Rodrigo Rollemberg elogiou o trabalho de João Batista e agradeceu a colaboração do secretário. ;Ele teve a capacidade e a coragem de assumir a Saúde com todas as dificuldades existentes. Sempre demonstrou espírito público e compromisso com a nossa cidade;, afirmou o chefe do Executivo. Rollemberg citou o reabastecimento de medicamentos e insumos, a reabertura de parte dos leitos de UTI, a contratação de profissionais e a redução dos casos de dengue como avanços na área registrados desde o início do ano.

Também por meio de nota, Batista diz que aguardou o desfecho da 9; Conferência de Saúde do Distrito Federal, encerrada na última terça-feira, para deixar a pasta. ;Cumpri uma etapa importante para o desenvolvimento da saúde, que se encerrou com essa conferência. Sou muito grato ao governador pela confiança.;

Antes de João Batista de Sousa, o primeiro secretário a deixar o governo foi Hélio Doyle, um dos nomes mais fortes do governo e chefe da Casa Civil. Assim como Batista, ele saiu do GDF no mês passado depois de suscitar duras críticas públicas da presidente da Câmara Legislativa. Na terça-feira, o secretário de Gestão Administrativa e Desburocratização, Antônio Paulo Vogel, deixou a pasta para reassumir um cargo no governo federal. Ele foi substituído por Alexandre Ribeiro Pereira Lopes, que era secretário-adjunto da Segad.

Memória

29 de dezembro de 2014
A dois dias do começo do mandato, Rodrigo Rollemberg (PSB) mudou a escolha do titular da Saúde: saiu Ivan Castelli e entrou João Batista de Sousa. Logo após o anúncio, Batista citou Atenção Básica, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e emergências como problemas que deveria enfrentar na pasta. O deficit de profissionais em algumas especialidades, como a de pediatria, também foi lembrado. Herdou dívidas da gestão anterior com servidores e assumiu a pasta já em meio a uma crise.

20 de janeiro de 2015
O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) decretou situação de emergência na saúde do DF por 180 dias. O socialista tomou a decisão por diversos fatores: uma greve dos médicos iniciada quatro dias antes, fechamento de leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) devido à falta de profissionais e falta de medicamentos e materiais na rede pública. Em 17 de julho, o GDF anunciou que o Distrito Federal permaneceria nesse estado por outros seis meses.
28 de maio de 2015

A data marca o início da endemia das superbactérias, quando ocorreu a primeira morte registrada na rede pública do DF este ano. A Secretaria de Saúde negou recorrentemente que houvesse um surto. Ao todo, sete pessoas perderam a vida contaminadas com os microorganismos em unidades de saúde do DF em 2015. No começo de julho, a Anvisa cobrou dados e ;ações mais enérgicas; da pasta para combater o avanço das superbactérias.

14 de julho de 2015
Um áudio vazado de dentro de um órgão do Executivo revelou comentário de João Batista de Souza sobre a incidência de superbactérias nos hospitais particulares do DF. ;Tem um paciente que está lá (HRC) desde setembro do ano passado com KPC. No HUB, tive oito casos só em outubro de 2014

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