Rajoy se lança ao diálogo

Rajoy se lança ao diálogo

Sem conseguir maioria no parlamento, após as eleições de domingo, primeiro-ministro promete negociar com adversários para formar governo estável. Especialistas não descartam nova votação

Rodrigo Craveiro
postado em 22/12/2015 00:00
 (foto: César Manso/AFP)
(foto: César Manso/AFP)
Negociação ou morte política. O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, não terá escolha caso queria se manter no cargo, após o seu Partido Popular (PP) obter apenas 123 assentos do parlamento nas eleições de anteontem e ficar longe da maioria absoluta, de 176 cadeiras. O premiê prometeu conversar com o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) ; legenda da esquerda que conquistou 90 deputados ; e com os Ciudadanos, facção de centro-direita que soma 40. O objetivo é buscar um ;governo estável;. ;Independentemente do aumento da fragmentação política, a maioria dos eleitores inclinou os seus votos a formações que têm apoiado a defesa da ordem constitucional, a unidade da Espanha, a soberania nacional, a igualdade entre os espanhóis e a luta contra o terrorismo;, comentou Rajoy. Horas depois, ele descartou ter citado partidos específicos e disse que o novo parlamento ;não pode ser elemento de paralisação, bloqueio ou inação;.

Com o novo parlamento formado, o rei Felipe VI deve começar a negociar com os partidos para escolher um candidato para formar o governo, o qual deverá ser investido por maioria absoluta em primeiro turno ou, se não for possível, por maioria simples num segundo momento. As negociações do chefe de governo estão fadadas ao fracasso antes mesmo de começarem. O PSOE, liderado por Pedro Sánchez, descartou votar ;sim; na investidura de Rajoy e firmou posição como adversário político do PP. ;O PSOE atuará com prudência e responsabilidade, e é o PP que deve tentar formar o governo; mas votaremos ;não; à investidura de Mariano Rajoy;, declarou César Luena López, secretário-geral do partido. Os Ciudadanos sinalizaram uma abstenção, na intenção de Rajoy governar por minoria. Por sua vez, Pablo Iglesias, líder do Podemos, foi enigmático ao abordar as possíveis manobras do partido esquerdista, que fez 69 cadeiras. ;Nem de maneira ativa, nem de maneira passiva, o Podemos vai permitir o governo do Partido Popular, não com os votos a favor, nem com as abstenções;, disse.

Professor de ciência política da Universidad Rey Juan Carlos (URJC, em Madri), Manuel Villoria Mendieta afirma ao Correio que, sem o apoio do PSOE, o PP não terá condições de governabilidade. ;A opção mais plausível envolve um governo formado por uma coalizão com partidos de esquerda, avalizada pelos nacionalistas bascos ou catalães. Apesar de possível, é algo muito arriscado para o PSOE, que comandaria a aliança. Mas o governo seria temporário, duraria até as eleições antecipadas;, prevê. A terceira opção, segundo ele, seria um governo que concentraria todo o espectro de partidos políticos da Espanha. ;A função dele seria pactuar a reforma da Constituição e do regime eleitoral. É algo muito difícil, a não ser que Rajoy abandone o PP.;

Polarização
Para Juan Luis Paniagua Soto, cientista político da Universidad Complutense de Madrid (UCM), o recorte das eleições permite vislumbrar um parlamento muito fragmentado e bastante polarizado. ;A aritmética de pactos tende a ser bem complicada, ou mesmo impossível. Os atores políticos mantêm propostas díspares e terão que fazer renúncias importantes nos respectivos programas para chegar a acordos;, admite à reportagem. Ele crê em uma Legislatura curta, encerrada com a dissolução do parlamento e a convocação de eleições. ;O Congresso terá quatro partidos relevantes em números de eleitores (PP, PSOE, Podemos e Ciudadanos) e pequenas legendas independentistas catalãs e nacionalistas, importantes por suas políticas e relevantes pelos apoios ou rechaços. Por isso, a situação que se avizinha é complexa;, adverte.

O ex-primeiro-ministro José María Aznar recomendou a Rajoy que convoque um congresso aberto do PP ;para eleger a direção do partido;, ao reconhecer um ;momento difícil para a Espanha e para a legenda;. De acordo com a agência Europa Press, Rajoy defendeu que a estabilidade do país seja colocada acima dos interesses do PP.


Palavra de especialista
Governabilidade impossível

; Juan Luis Paniagua Soto

;Caberá ao premiê Mariano Rajoy tentar obter o voto da investidura. Não será uma tarefa fácil. Certamente, isso não vai ocorrer em uma primeira votação no parlamento, pois exige-se a maioria absoluta dos votos favoráveis. O primeiro-ministro precisará tentar em uma segunda votação por maioria simples. A situação é muito complicada. A governabilidade parece impossível. Agora, nós vamos comprovar a flexibilidade ou a rigidez dos partidos; a sua capacidade para dialogar, negociar e chegar a acordos.

Vamos comprovar quantos capítulos de seus programas políticos permanecem engavetados e sobre quais temas se centram os acordos. Mas tudo isso nos diz que será também, possivelmente, uma Legislatura com poucos avanços, e a recuperação econômica não espera. É preciso implementar ainda políticas satisfatórias para todos os atores. E isso é muito difícil. Por essa razão, temos que contemplar como possibilidade certa que haja eleições novamente.;

Professor de ciência política da Universidad Complutense de Madrid (UCM)



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