Acredite: isto é Brasília

Acredite: isto é Brasília

Dias seguidos de precipitações na área da Vila Cauhy, no Núcleo Bandeirante, fazem água de córrego subir 1,5m e atingir 60 imóveis. Em São Sebastião, residência desaba e outras duas têm estrutura comprometida. Um prédio acaba interditado em Sobradinho

» NATHÁLIA CARDIM » ISA STACCIARINI » LUIZ CALCAGNO » BERNARDO BITTAR » AMANDA CARVALHO Especial para o Correio
postado em 21/01/2016 00:00
 (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)









As fortes chuvas registradas no Distrito Federal desde o início do mês ameaçam milhares de moradores da capital. A Subsecretaria de Proteção e Defesa Civil calcula 36 áreas de risco em 19 regiões administrativas, incluindo a Asa Norte. Em São Sebastião, uma casa desabou e outra acabou com paredes e telhados ao chão. Ninguém se feriu. Ao todo, dez imóveis foram interditados no DF. Entre os endereços considerados perigosos, está a Vila Cauhy, no Núcleo Bandeirante, ocupada há pelo menos 45 anos. A precipitação da madrugada de ontem afetou 60 lotes depois que o nível do Córrego Riacho Fundo subiu cerca de 1,5m. O alagamento é tratado como o maior na história da região.


Os habitantes da localidade ficaram ilhados. Cerca de 300 pessoas passaram o dia desalojadas. Deixaram os seus lares ainda de madrugada e retornaram somente à tarde. Às 14h30, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), visitou o local com a secretária de Segurança Pública e da Paz Social, Márcia de Alencar, e prometeu assistência às famílias. Houve alagamento, também, no Recanto das Emas e nas proximidades do Núcleo Rural Ponte Alta, no Gama. Oito árvores caíram em regiões do DF. O Corpo de Bombeiros registrou 113 ocorrências relacionadas à chuva e atuou em sete salvamentos.


Em Sobradinho 2, um prédio de quitinetes, no Setor de Mansões, teve de ser evacuado pelo Corpo de Bombeiros. Por causa da inundação na Vila Cauhy, a Companhia Energética de Brasília (CEB) desligou a energia na região ; a luz foi restabelecida no fim da tarde. A maior parte das famílias perdeu tudo: sofás, geladeiras, mesas e camas. As ruas de terra batida ficaram tomadas pela lama, assim como o interior das casas. ;Estamos fazendo uma força-tarefa para limpar tudo;, disse a agricultora Jacilete Albino Medeiros, 34 anos. Ela dormia quando ouviu o desespero dos vizinhos. ;Eram por volta das 5h. Só sobrou o meu botijão de gás. Eu abri a porta, e a água invadiu toda a casa;, lamentou.


O serralheiro Jouber Teixeira Pinto, 52 anos, mora na região há mais de uma década e relatou que não para de chover no local desde a noite de terça-feira. ;Assustei-me quando o muro da minha casa caiu, e eu tive de sair correndo para pular a cerca com a minha mulher e a nossa filha. Nós perdemos tudo;, contou. Além das residências, um templo de religião de matriz africana, localizado à beira do córrego, foi inundado. Das 14 pessoas que estavam dentro do imóvel, cinco eram crianças. Os bombeiros usaram um barco para resgatar o grupo.
Ajuda

O subsecretário de Defesa Civil, coronel Sérgio Bezerra, atestou que não há risco de desabamentos estruturais, mas ele confirmou que, caso aconteçam chuvas com a mesma intensidade, existe risco de novo alagamento no Córrego Riacho Fundo. Para conter possíveis desastres, o GDF criou uma força-tarefa com 12 órgãos. Equipes da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros permanecerão de plantão na localidade.


Durante a visita à Vila Cauhy, Rollemberg informou que avaliará a situação de cada morador na Secretaria de Gestão do Território e Habitação (Segeth) e na Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF (Codhab). ;Neste momento, nós temos de atender, emergencialmente, as pessoas. Isso é garantir alimentação, auxílio-vulnerabilidade de R$ 408 e colchões para essas famílias;, explicou.


A Administração Regional do Núcleo Bandeirante serviu almoço para as famílias. No total, foram oferecidos 15kg de galinhada. A alimentação também está confirmada para os próximos dias, pois funcionários do órgão arrecadaram R$ 515 e compraram 30kg de arroz. Os desabrigados receberão, ainda, cestas básicas.

Mais água

Em 19 dias de janeiro, choveu cerca de 85% do volume esperado para todo o mês no Distrito Federal. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), foi registrada a média de 210 milímetros de água dos 247mm previstos para janeiro. Só na terça-feira, a capital acumulou 70mm. Na segunda-feira, 12,1mm. O órgão prevê que as precipitações continuem fortes pelo menos até 27 de janeiro. A meteorologista Ingrid Peixoto destacou que a instituição publicou aviso de severidade e perigo de cor laranja, indicando risco de alagamentos e desabamentos na capital federal. ;As chuvas podem chegar a 100mm por dia. Isso não é incomum;, avisou.


Para saber mais

Situações de urgência

No ano passado, a Defesa Civil desenvolveu um plano de contingência com a participação de 19 instituições para situações de emergência. O programa vai até março de 2017 e foi executado após a chuva de granizo que causou danos em 114 casas na Vila Basevi, em Sobradinho, e na Fercal, em 7 de outubro do ano passado. Segundo o plano, em casos de inundações e desastres, são montados pontos de atendimento da Defesa Civil. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também emite alertas de possíveis temporais. A Secretaria de Desenvolvimento Humano e Social (Sedhs) presta assistência às vítimas. E os órgãos de segurança e de trânsito fazem o monitoramento. A ação também prevê reuniões mensais de avaliações das áreas de riscos e dos trabalhos realizados.

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