O avatar que trata a depressão

O avatar que trata a depressão

Personagens criados por realidade virtual são usados para amenizar os sintomas da doença psiquiátrica em veteranos de guerra. Segundo cientistas britânicos, a técnica de personificação permite aos pacientes serem menos rígidos com as próprias fraquezas

» Paloma Oliveto
postado em 02/03/2016 00:00

Quando o mundo real torna-se um fardo pesado demais para carregar, o virtual pode entrar em cena para ajudar a repartir o peso. Pesquisadores investem na tecnologia para complementar o tratamento de pessoas com distúrbios psiquiátricos, como ansiedade, transtorno bipolar, fobias e depressão. Os resultados, embora preliminares, mostram que a ferramenta melhora os sintomas, ajudando os pacientes a enfrentarem diretamente os males que os incomodam. Especialistas alertam, porém, que poucos profissionais da saúde mental têm familiaridade com plataformas virtuais, o que dificulta a difusão da metodologia.

Cientistas da Universidade College London, na Inglaterra, apresentaram mais evidências de que a realidade virtual pode auxiliar indivíduos com depressão. Chris Brewin, pesquisador da instituição e principal autor do trabalho, publicado na edição de fevereiro do British Journal of Psychiatry Open, explica que pessoas que sofrem do problema geralmente são muito críticas com elas mesmas, o que influencia negativamente o tratamento. ;Essa é uma característica importante da depressão. Os pacientes são relutantes em ter autocompaixão, sentem que não merecem isso, chegam a ter aversão, e nós sabemos que a autocrítica elevada bloqueia as emoções positivas, afetando o humor, a conectividade com o mundo e a autoestima;, observa.

Para superar o comportamento aversivo em relação à autocompaixão, os pesquisadores apostaram na personificação virtual, uma estratégia que tem surtido bons efeitos em experimentos com veteranos de guerra. A criação e a identificação com avatares ; os personagens que representam os pacientes na plataforma computadorizada ; está ajudando ex-soldados a lidarem com ansiedade e transtorno pós-traumático nos Estados Unidos. ;Quando o avatar substitui o corpo real em experiências de imersão na realidade virtual, geralmente gera uma ilusão de pertencimento desse corpo virtual. Algumas pessoas chegam a mudar a percepção de tamanho, sentindo-se mais altas ou mais baixas, por exemplo, ou mesmo com uma cor de pele diferente da que realmente tem;, exemplifica.

Devido a essa possibilidade de identificação, os cientistas desenvolveram, durante um mês, um teste de imersão virtual, aplicado em 15 voluntários de 23 a 61 anos e diagnosticados com depressão. Os participantes usaram um capacete especial para enxergar sob a perspectiva de um avatar de tamanho real. Ao olhar no espelho, em vez da própria imagem, viam a do personagem. ;Assistir a esse corpo virtual se movendo da mesma forma que o próprio corpo produz a ilusão de que aquele é o corpo do paciente. Isso é o que chamamos de personificação;, explica Brewin.

Autocrítica
As sessões duravam oito minutos e eram realizadas três vezes por semana. No início, os voluntários foram treinados para, no corpo de um avatar adulto, interagir com uma criança virtual em desespero. À medida que o paciente conversava com a criança, ela parava de chorar, respondendo positivamente à atitude de compaixão. Minutos depois, era a vez de o participante ocupar o corpo virtual dessa criança e interagir com o avatar adulto, que o consolava com palavras e gestos gentis.

Os resultados foram medidos por meio de três estratégias de avaliação, inclusive uma escala de autocompaixão e autocrítica, na qual o participante tinha de imaginar alguns cenários, como ;Você chega em casa e percebe que esqueceu as chaves no trabalho;, e dizer como se comportariam. Os pesquisadores também avaliaram o bem-estar em geral dos pacientes e o nível de aceitação com a compaixão alheia ; um dos questionários, por exemplo, perguntava se a pessoa se sentia envergonhada quando era alvo de comiseração.

Esses testes foram aplicados duas semanas antes e depois da intervenção virtual. No fim, nove dos 15 participantes reportaram redução da depressão um mês depois do tratamento. Desses, quatro tiveram diminuição significa dos sintomas. ;Entre essas pessoas, houve um aumento substancial da autocompaixão, com consequente redução de autocrítica;, conta Chris Brewin. ;Alguns pacientes disseram notar benefícios muito positivos sobre o humor. Uma participante disse que a experiência permitiu que ela percebesse e aceitasse que todos somos humanos e vulneráveis, e que está tudo bem em se sentir vulnerável quando adulto. Isso demonstra que ela compreendeu a compaixão e que sofrer é parte da condição humana;, exemplifica o pesquisador.

Brewin conta que esse impacto da realidade virtual sobre pessoas com problemas psicológicos foi detectado outras vezes. ;Em outros estudos, pacientes de diversas condições apresentaram resultados semelhantes, o que nos leva a crer que o cenário virtual poderá ajudar no tratamento de uma variedade de distúrbios, como alucinação, paranoia e até dor. Essas técnicas são extremamente promissoras;, observa.

Fobias
Para Elias Aboujaoude, psiquiatra da Universidade de Stanford (EUA) e não participante do estudo, a realidade virtual pode revolucionar o tratamento de alguns tipos de transtorno, especialmente as fobias. ;Muitas pessoas têm medo de cobra, de viajar de avião e de cachorro, por exemplo. Essa tecnologia pode ser usada para simular essas situações, o que pode ser bem difícil ou até impossível de se fazer na vida real. Ao confrontar suas fobias no mundo virtual, os pacientes podem se livrar delas;, diz.

O pesquisador afirma que outra aplicação promissora é para o estresse pós-traumático, em que as vítimas de eventos estressantes são colocadas diante da situação desencadeadora do trauma, contudo em um ambiente seguro. Vice-presidente do Departamento de Psiquiatria da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles (EUA), o psiquiatra David A. Baron lembra que, em uma época na qual a realidade virtual faz parte da vida de todos, em maior ou menor grau, os especialistas não podem desprezá-la como ferramenta no tratamento de diversas condições psiquiátricas e psicológicas.

Contudo, ele afirma que, no meio médico, ainda há preconceito em relação a essa tecnologia. ;As novas gerações de psiquiatras e de outros profissionais da área de saúde que cresceram com entretenimento interativo se sentem muito bem com novidades, mas reportam não ter tempo para conhecer e testar novas técnicas. Era importante que a realidade virtual fosse abordada nos cursos de graduação;, diz. ;Essas tecnologias estão aqui para ficar. Os psiquiatras precisam se sentir confortáveis com elas, inclusive para ajudar a testá-las nos consultórios;, avalia.

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