Peças para reparar o corpo

Peças para reparar o corpo

Avanços em pesquisas com células-tronco mostram que, no futuro, médicos poderão contar com estruturas fabricadas em laboratório para combater problemas como doenças cardíacas, mal de Alzheimer e infertilidade

postado em 19/06/2016 00:00

O impasse ético e religioso envolvendo pesquisas com células-tronco embrionárias foi contornado há aproximadamente nove anos, quando o médico Shinya Yamanaka mostrou ao mundo que quatro genes específicos podem fazer uma célula adulta extraída da pele retornar ao seu estado inicial. A simplicidade e a eficácia da descoberta renderam ao cientista japonês o Nobel de Medicina ou Fisiologia em 2012.

Da descoberta aos dias de hoje, diversas pesquisas replicaram o método de produção das chamadas células-tronco de pluripotência induzida e começaram a dar forma à tão sonhada medicina regenerativa, que promete, no futuro, substituir órgãos debilitados por novos em folha fabricados em laboratório, ou fornecer neurônios extras para pacientes que sofrem com demência, como o mal de Alzheimer. Obviamente, essas e outras maravilhas terapêuticas exigem mais algumas décadas de pesquisa, porém pesquisas recentes têm mostrado que é, sim, possível usar as células-tronco induzidas para criar os mais diversos tecidos humanos.

Em um estudo publicado recentemente na revista Science, a equipe de Sheng Ding, químico na Universidade da Califórnia em San Francisco, nos Estados Unidos, transformou estruturas da pele humana em células-tronco e, depois, as reconfigurou como células musculares cardíacas. Estas, por sua vez, foram transplantadas no coração de ratos, e 97% delas começaram a pulsar, indicando um desenvolvimento total e saudável. Além disso, uma análise molecular confirmou que as células tinham propriedades cardíacas, e não epiteliais. Em um outro trabalho, o mesmo time criou células cerebrais de ratos, como neurônios oligodendrócitos e astrócitos, a partir da pele dos animais. Esse último trabalho foi publicado na revista Cell Stem Cell.

Pílula

Além dos resultados, o trabalho de Ding chama a atenção também por modificar o processo de obtenção das células-tronco. Enquanto a técnica de Yamanaka prevê a ativação de quatro genes específicos (veja infografia), o professor da Universidade da Califórnia reprograma as células adultas gradualmente, ao expô-las a um coquetel com nove compostos químicos. Depois, um outro composto é usado para criar os neurônios e células cardíacas. ;Estivemos trabalhando nisso durante anos e identificamos pequenas moléculas específicas que podem substituir genes indutores na reprogramação celular;, diz ao Correio o cientista, que considera seu método mais seguro do que o da reprogramação genética (leia mais abaixo).

Ding vislumbra que as células criadas em laboratório poderão gerar formas revolucionárias de tratamento. ;Uma possibilidade oferecida por nossa abordagem é que, além de gerar células neurais ou cardíacas a partir de fibroblastos dos próprios pacientes, um dia esses pacientes poderão tomar uma pílula contendo o coquetel químico que age nas células localizadas no cérebro ou no coração para estimular a regeneração do tecido;, vislumbra Ding, que em seguida observa a necessidade de mais estudos para desenvolver drogas específicas para cada órgão.

Especialistas familiarizados com a área garantem que a aposta de Ding não é nenhum delírio. Stevens Rehen, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que o princípio da regeneração existe no mundo animal, como em alguns anfíbios. ;Esses pesquisadores observaram algo que já acontece na natureza. A lagartixa, por exemplo, regenera parte de seu corpo com suas próprias células;, diz o pesquisador, que recententemente conduziu um estudo publicado na Science sobre a forma como o vírus zika ataca o cérebro.

O próprio trabalho de Rehen é um exemplo do quanto as células-tronco pluripotentes induzidas têm ajudado a medicina. Para testar os efeitos do vírus no cérebro humano, o pesquisador conta com miniórgãos criados em laboratório a partir de células da pele. Esses organoides não são um cérebro completo, mas possuem as principais estruturas que permitem estudos impossíveis de serem realizados em pessoas. O método de Yamanaka tem levado ainda a pesquisas que já conseguiram criar células do olho e ósseas. Essas últimas foram desenvolvidas em 2014 e ajudaram macacos com câncer nos ossos a recuperar a locomoção perdida.

Infertilidade

Mais recentemente, foi alcançada a produção dos primeiros espermatozoides humanos em laboratório, um feito que abre caminho para que, um dia, homens inférteis gerem filhos geneticamente próprios, sem precisar recorrer a material doado. A pesquisa foi anunciada em abril passado por pesquisadores do Instituto de Infertilidade de Valência (IVI), na Espanha, que depois de aplicarem sobre células da pele o método do ganhador do Nobel, as expuseram a uma solução química que deu a elas as características desejadas após um mês.

O diretor do centro de pesquisa, Carlos Simón, explica que foi dado apenas um primeiro passo, pois os gametas masculinos gerados ainda não são capazes de fertilizar um óvulo. ;É um espermatozoide, mas precisa de uma fase de maior maturidade para se tornar um gameta competente. É apenas o começo;, disse o cientista quando os resultados foram publicados. A produção de espermatozoides totalmente funcionais foi alcançada até hoje apenas com células não humanas. No começo deste ano, pesquisadores chineses anunciaram, em testes com animais, espermatozoides artificialmente criados e injetados em um óvulo implantado em uma fêmea.

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