Correio Econômico

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Por mais que o Banco Central reforce que o sistema financeiro está superprotegido, a derrocada da economia e a dificuldade de empresas para rolar dívidas de R$ 500 bilhões podem acabar batendo feio em alguns bancos

Vicente Nunes / vicentenunes.df@dabr.com.br
postado em 10/12/2016 00:00

Risco dos bancos

O Banco Central garante que está tudo bem, que o sistema financeiro está sólido o suficiente para atravessar as graves crises econômica, política, ética e institucional sem se machucar, mas há gente no governo temendo que alguns bancos possam enfrentar problemas caso as empresas não consigam refinanciar dívidas que chegam a R$ 500 bilhões. Na avaliação da equipe econômica, nada poderia ser pior para o país neste momento do que uma instituição bancária quebrar.

O monitoramento do sistema financeiro feito em tempo real pelo BC mostra que há sobra de recursos, especialmente nos grandes bancos, que se prepararam para as turbulências que não dão trégua. A preocupação, porém, é com algumas pequenas instituições, que vêm sofrendo para captar recursos no mercado ; são obrigadas a pagar juros estratosférico ; e estão vendo o calote disparar. Muitas empresas acreditavam que teriam um fim de ano melhor para reforçar o caixa. Mas a situação da economia piorou e o dinheiro sumiu, a ponto de faltar recursos até para o pagamento da folha de salários.

O asfixiamento é tão forte, que o número de falências e de empresas pedindo reestruturação patrimonial vem batendo recorde. Se não vier nenhuma sinalização mais clara por parte do governo de medidas que possam destravar o crédito e reanimar a atividade, o quadro ficará dramático, com a blindagem do sistema financeiro começando a romper. Não se trata de falar de um risco sistêmico, do qual realmente estamos muito longe. Mas confiança é tudo em relação aos bancos. É preciso, portanto, que ela se mantenha intacta. Qualquer descuido será fatal.

Caixa vazio

Para Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a possibilidade de se chegar a uma crise bancária existe, é pequena, mas é real. Ele ressalta que a escassez de crédito está pegando todos, e seus efeitos, se disseminando. ;Até pouco tempo atrás, as grandes companhias conseguiam reforçar o caixa captando recursos no exterior. Com isso, conseguiam financiar seus fornecedores, principalmente pequenas e médias empresas. Agora, sem essa fonte de financiamento, já que as linhas externas também diminuíram, o sistema lincando essa cadeia desapareceu. Por isso, tanta necessidade de reestruturação de dívidas;, destaca.

Cagnin ressalta ainda que, além da restrição do crédito, as empresas vêm sendo afetadas pela forte volatilidade do dólar, que dificulta a recuperação da produção por meio das exportações. A instabilidade do câmbio também desestimula investidores estrangeiros que gostariam de participar do programa de concessões e privatização que será colocado em prática pelo governo. Certamente, só se sentirão motivados a entrar nesse barco se houver um fundo que os proteja do sobe e desce da moeda norte-americana.

Na opinião de Luciana de Sá, diretora de Desenvolvimento Econômico da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), não há, hoje, nenhum sinal de recuperação da economia. Muito pelo contrário. As perspectivas são cada vez piores. Nos cálculos dela, na melhor das hipóteses, a produção industrial crescerá 0,3% em 2017, mas há sérios indícios de que o setor poderá registrar o quarto ano seguido de retração. Parte importante do setor produtivo morreu e, mesmo em um contexto de recuperação, o tamanho da indústria certamente será menor do que quando começou a encolher.

Fim do mundo


As previsões pessimistas se agravam diante das últimas revelações da Lava-Jato. As delações de executivos da Odebrecht pegaram toda a cúpula do governo, incluindo o presidente Michel Temer, que teria pedido, em 2014, R$ 10 milhões à construtora. Segundo os delatores, essa quantia foi paga em dinheiro vivo a pessoas de extrema confiança do chefe do Executivo, como o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, o secretário executivo do Programa de Parceria e Investimento, Moreira Franco, e José Yunes, assessor especial do presidente, além dos senadores peemedebistas Renan Calheiros, Romero Jucá e Eunício Oliveira.

Um governo fragilizado por denúncias de corrupção, no entender dos especialistas, atrasa ainda mais a retomada da atividade. Quando Temer tomou posse, uma onda de otimismo levou boa parte do mercado e a equipe econômica a projetarem crescimento de até 2% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2017. Aos poucos, porém, a decepção foi tomando o lugar da euforia. Quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o resultado do PIB do terceiro trimestre deste ano, com tombo de 0,8%, constatou-se que, em vez de regredir, a recessão se aprofundou.

;Quando olhamos para a frente, não vemos nenhuma saída da crise;, afirma Cagnin, do Iedi. ;Neste momento, todos os sinais visíveis são de piora;, emenda Luciana de Sá. Essa percepção se deteriora ante a denúncias contra o governo e as cúpulas da Câmara dos Deputados e do Senado. Com diz um empresário com trânsito no Planalto, ;a delação do fim do mundo chegou e tem tudo para levar para o buraco gente muito graúda e para enterrar de vez a economia;.

Uma coisa é certa: de nada adiantará negativas vazias perante delações tão detalhadas de uma empresa que fez o que quis nos últimos anos. Tomou conta do governo, do Congresso e do Judiciário. Usou e abusou de propina para ver atendidos seus pleitos. O esquema de corrupção da Odebrecht está todo documentado. O que se viu ontem foi apenas o começo de um terremoto que está longe de acabar. A nós, pobres mortais, só restará assistir de camarote a ruína de pessoas que, ao longo de vida pública, só tiveram um objetivo: surrupiar os cofres públicos. Que, agora, sejam punidas com rigor.


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