Paulo Pestana

Paulo Pestana

por Paulo Pestana papestana@uol.com.br
postado em 30/04/2017 00:00



Besta é tu

A Operação Lava-Jato já desmoralizou políticos e a numerosa classe de agregados, aproveitadores e proxenetas do poder. Mas os delatores se esforçam também para humilhar os humoristas.

Na hora em que o presidente da empresa que pôs o Brasil no bolso diz que se sentia como um bobo da corte, esculhamba a estirpe que vem revelando a alma dos poderosos desde a idade média. E chega até nossos dias com a reputação intacta ; até agora.

Os bobos da corte foram os precursores do humorismo no mundo. Imagino que devem ter chegado logo depois dos gaiatos, turma que seguramente apareceu junto com a primeira taberna.

A eles ; e só a eles ; era permitido falar mal de todo mundo, até dos soberanos, desde que os fizessem rir. Ou seja: de bobo não tinham nada.

Mas é esta a única semelhança entre a categoria e o esperto senhor delator sem graça. O Sindicato dos Piadistas ; num país que tem até sindicato de aposentados, certamente tem um para os engraçados ; deveria meter-lhe um processo por exercício ilegal da profissão.

Durante muito tempo, bobos da corte foram tidos como loucos, como ainda hoje mostram as cartas do tarô, na qualidade de representante da busca e do amor. E se a carta do bobo aparece no início do jogo é prenúncio de que algo importante está para acontecer.

Mas é fato que a nobreza também se divertia com loucos, corcundas e criaturas de circos de horror; a maior atração, no entanto, eram as piadas ácidas dos bobos, que versejavam, faziam imitações e malabarismos, muitas vezes com críticas aos poderosos.

Os bobos foram tão importantes que ganharam papel de destaque em peças de Shakespeare, como Rei Lear e Otelo ; nas duas a esperteza do personagem fica bem clara; dizem o que ninguém mais ousaria. Verdi fez de um bufão o personagem-título de uma de suas óperas, Rigoletto, o corcunda amaldiçoado, o bobo trágico.

Há também o bobo herói, caso de Dom Bibas, da corte do conde D. Henrique, que chegou a ser açoitado quando exagerou na sátira, mas que foi o responsável pela vitória das forças de D. Afonso Henriques contra o exército da mãe, D. Tereza, no final do século XI. Dom Bibas, como escreveu Alexandrino Herculano em O Bobo, teria revelado uma passagem subterrânea por onde passaram os soldados.

De herói, o delator-chefe não tem nada. De trágico, talvez. E pode ser que seja esta a categoria de bobo que o empreiteiro tenta assumir, ao expor, cínica e despudoradamente, as entranhas da safadeza da corte.

É preciso reconhecer que sem as delações, as investigações não chegariam onde estão; só não dá para esquecer que eles ; todos eles ; também são bandidos que nos fizeram de bobo ; ou de besta ; durante muito tempo.

Há um agravante no caso do empreiteiro: além de não ser nenhum pouco bobo e nada engraçado, é um espertalhão que também acabou com a fama do baiano, aquela que Dorival Caymmi levou décadas para esculpir. Como cantavam os Novos Baianos: ;Besta é tu;.

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