Homem-Pássaro

Homem-Pássaro

Humberto Rezende
postado em 07/10/2017 00:00
As crianças que comemorarão o próximo 12 de Outubro no Parquinho Ana Lídia nem imaginam, mas, nos imprudentes anos 1970, o Foguetinho tinha um escorregador acoplado. Era muito massa. Depois de passar pela ponte bamba ; que me dava muito medo ; e escalar o interior da nave espacial, dava para descer a toda.

Isso até o dia em que o Ju, meu irmão, resolveu despencar lá de cima. Minha mãe contou inúmeras vezes o episódio em almoços de família, mas ele permanece sem explicação satisfatória. Diz ela que olhou e o filho estava no alto do escorregador. Piscou os olhos e, paf, o moleque estava com a cabeça espetada na areia. Santa areia fofa que amaciou a queda de mais ou menos mil metros, segundo os cálculos que fiz à época.

Graças ao anjo da guarda dos meninos desastrados, o acidente rendeu apenas um galo, muito choro e o fim do passeio de fim de semana. Outra consequência parece ter sido o cancelamento do escorregador. Passado um tempo, a rampa tinha sido retirada. Garotada dos anos 1970, meu irmão admite a responsabilidade e pede desculpas, por meio deste cronista, pelo fim da diversão.

O estranho é que, contrariando algumas teorias psicológicas, o trauma na infância não tornou o Ju cuidadoso com lugares altos. Já crescido, ele passou no vestibular em uma faculdade particular e chegou para a primeira semana de aula ostentando, orgulhoso, uma cabeleira que ia até a metade das costas.

Na primeira tentativa de trote, conseguiu escapar da sala enquanto o resto de seus colegas tinha o cabelo raspado. Ficou marcado pelos veteranos, que, no dia seguinte, se juntaram na porta da sala à sua espera. Ele olhou para a janela e acreditou que podia escapar por ali, mesmo estando no segundo andar. Tentou e caiu, mas foi salvo pelo anjo da guarda dos adolescentes irresponsáveis, que o direcionou a uma cobertura de telha que ficava no primeiro andar.

A segunda queda rendeu um baita susto e um pé dolorido. Outra consequência foi o centro de ensino finalmente perceber que passava da hora de proibir trotes, uma prática de violência inaceitável que, absurdamente, persiste em universidades do país. Verifiquei dia desses que a proibição continua naquela instituição. Calouros, agradeçam ao Ju, ou ao Homem-Pássaro, como o chamamos às vezes lá em casa.

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PS: um abraço à família Montenegro, que compartilhou a crônica da semana passada, sobre a professora Elvira, e me atualizou sobre a querida mestra. Ela hoje não mora mais no Rio, como escrevi, mas em São Paulo. E sempre vem a Brasília ver filha, netos e bisnetos.

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