Crime revolta cidade

Crime revolta cidade

Cerca de 2 mil pessoas participaram do velório e enterro da menina de 16 anos morta com 11 tiros dentro da sala de aula, em Alexânia (GO). População cercou o fórum do município, quando o assassino confesso prestava depoimento

» OTÁVIO AUGUSTO » RICARDO FARIA Especial para o Correio
postado em 08/11/2017 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

;Onze tiros fizeram a avaria;. A frase faz parte da canção Onze Fitas, interpretada pela cantora Elis Regina. O mesmo número pôs em choque e desencadeou uma onda de revolta em Alexânia, a 91km de Brasília. Um dia após a barbárie contra a estudante Raphaella Noviski, 16 anos, morta no Colégio Estadual 13 de Maio com 11 disparos no rosto, amigos e familiares se mobilizaram para o sepultamento da jovem e para a audiência de custódia do assassino confesso Misael Pereira Olair, 19 anos.

À tarde, na calçada do Fórum da Comarca de Alexânia, dezenas de pessoas cobraram punição exemplar, em um protesto com cartazes e palavras de ódio. Elas chegaram a cercar o carro da polícia que trouxe e levou Misael. Algumas gritaram ;lincha;, lincha;.

Ele chegou ao fórum usando um colete a prova de balas, camiseta, bermuda e chinelos. ;Vou olhar na cara dele e quero que ele me responda por que fez isso com ela;, disse, com os olhos marejados, Rosângela Pereira da Silva, mãe de Raphaella. ;Eu não perdoo;, ressaltou.


O juiz Leonardo Lopes dos Santos Bordini ouviu Misael por cerca de 30 minutos. Ele ficará preso na Cadeia Municipal de Alexânia enquanto aguarda julgamento, sob a acusação de feminicídio, assim como motorista Davi José de Souza, 49, que também prestou depoimento.

Davi é acusado de ter dado cobertura ao assassino confesso, que alegou ter planejado a morte de algoz de Raphaella após ser rejeitado pela menina. Davi dirigiu o carro que levou Misael à escola. Policiais militares detiveram ambos em flagrante, a cerca de 300m do colégio, após a execução de Raphaella.

O atirador respondeu todas as perguntas do juiz. Um detalhe chamou atenção do magistrado: o ferimento extenso no olho esquerdo. O machucado estava roxo e inchado. Misael disse não ter sofrido violência desde a prisão e que recebeu visita de advogado e familiares. Desconversou sobre o hematoma. ;Escorreguei no banheiro;, resumiu.

Rosângela ficou cara a cara com o algoz da filha durante a audiência. Muito abalada, a mulher desabafou: ;Ele destruiu a minha vida, a vida da minha família.; Misael não encarou Rosângela em momento algum.


Cortejo
O corpo de Raphaella saiu em cortejo pelas ruas de Alexânia. Amigos, parentes e moradores comovidos com o brutal assassinato caminharam cerca de 3km até o Cemitério Campo da Saudade. Muito abalado, o pai da vítima, o agente penitenciário Leandro Márcio Romano, 40 anos, também clamou por Justiça. Ele mora em Belo Horizonte, mas chegou em Alexânia, na manhã do domingo, para passar férias. O pai iria se encontrar com Raphaella no dia do crime, após a aula. ;É uma mistura de sentimentos. Raiva e tristeza caminham juntos. Espero que ele (o assassino) fique bastante tempo preso;, afirmou.

Mais de 2 mil pessoas passaram pelo velório realizado na Igreja Assembleia de Deus Madureira. A cerimônia começou na noite de segunda-feira, dia do assassinato. Parentes e amigos soltaram balões para simbolizar a partida da jovem. Centenas de coroas de flores foram deixadas no local. ;Ele (Misael) destruiu um sonho num ato frio e covarde. Espero que ele pague pelo que fez;, lamentou Alex dos Santos, 26 anos, amigo da jovem.


Amigos e familiares diziam não entender por que o assassino matou simplesmente pelo fato de ter sido rejeitado pela jovem. Segundo relato de uma prima de Raphaella, o rapaz chegou a ameaçar a estudante, por telefone, horas antes do assassinato. ;Ele já a ameaçava desde o ano passado. Quando foi hoje cedo (ontem), ela recebeu uma ligação e ouviu: ;Está preparada?;. Aí, logo em seguida, ele desligou;, contou a jovem, que preferiu não se identificar.

Raphaella morava com a avó e, em outra ocasião, Misael ameaçou entrar na casa da menina com uma faca. ;Ela não procurou a delegacia porque pensou que isso fosse acabar. No ano passado, ele foi à casa da minha avó ameaçando entrar com faca. Minha avó, cadeirante, ficou desesperada. E o meu tio ameaçou ligar para a polícia se ele continuasse indo para lá;, contou a prima da vítima.


Escola vai ser reaberta amanhã

As aulas no Colégio Estadual 13 de Maio, palco do assassinato, continuarão suspensas até amanhã. Professores, coordenadores e demais profissionais da instituição de ensino estão sob acompanhamento psicológico. A Secretaria Municipal de Educação acompanha o caso. Os alunos do 9; ano, período em que Raphaella estava, serão os primeiros a retomarem os estudos.




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