Ocupação cresce sem qualidade

Ocupação cresce sem qualidade

Taxa de desemprego cai para 11,8% do terceiro para o quarto trimestre de 2017. Empregos sem carteira assinada e por conta própria, além da contratação de domésticos, ajudaram a melhorar o índice. Especialistas acreditam que o pior já passou

» VERA BATISTA » BRUNO SANTA RITA*
postado em 01/02/2018 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A. Press)


Os trabalhadores sem carteira assinada e os domésticos puxaram para cima o nível de emprego e foram responsáveis pelo recuo de 0,6 ponto no desemprego, de 12,4% para 11,8%, entre o terceiro e o quarto trimestre de 2017, segundo a Pesquisa por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar da melhora na taxa de ocupação, entretanto, houve o fechamento de 685 mil postos com carteira assinada, um recuo de 2% na comparação com o mesmo trimestre de 2016.

Segundo Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, houve queda na qualidade do emprego. Não apenas pelo avanço dos sem carteira, para 11,1 milhões, mas também em consequência da quantidade de pessoas que trabalham por conta, que teve alta de 1,3% do terceiro para o quarto trimestre de 2017 e de 4,8% sobre o mesmo período do ano anterior, atingindo para 23,2 milhões de pessoas.

Autônomos

Outro fator para a melhora na ocupação foi o aumento do número de empregados domésticos ; 6,4 milhões a mais ;, incremento de 3,1%, entre os dois últimos trimestres do ano. Na comparação com 2016, alta de 4,3% (262 mil pessoas). De 2014 a 2017, cerca de 204 mil pessoas passaram a trabalhar como domésticos.

O ano de 2017 se encerrou com 34,31 milhões de pessoas trabalhando por conta própria ou sem carteira, contra 33,32 milhões ocupados em vagas formais. Em 2016, cerca de 34 milhões trabalhavam sob o regime de CLT, contra 32,6 milhões ocupados em vagas sem carteira assinada ou como autônomos.

Pelos cálculos de Azeredo, do IBGE, 2017 foi o pior ano para o mercado de trabalho, quando o desemprego chegou a 12,7%, maior nível da série histórica da Pnad Contínua, que começou a ser divulgada em 2012. De 2014, quando o desemprego registrou o mais baixo índice (6,8%), para cá, 6,5 milhões ficaram desocupados. ;Havia 36,6 milhões de empregados, em 2014. Agora, são 33,3 milhões. Perdemos 3,3 milhões de postos com carteira;, assinalou. De 2016 para 2017, os sem carteira no setor privado aumentaram 5,5% (560 mil pessoas). Em relação a 2014, o aumento médio foi de 3,2%, ou 330 mil.

Para especialistas, o pior já passou. O ano de 2017 foi ruim, porque refletiu a recessão de 2015 e de 2016. ;O desemprego é uma variável que demora a reagir. Mas já começa a acompanhar, ainda que lentamente, o desempenho da economia. A taxa do último trimestre, de 11,8%, foi inferior à do terceiro (12,4%) e à de período semelhante de 2016, de 12%;, destacou Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos. ;Em 2018, o desemprego ainda deve se manter nos dois dígitos, mas próximo a 10%, e o consumo das famílias vai sustentar o crescimento;.

Reflexo

Essa melhora foi sentida pela atendente Rayanne Jesus, 29 anos, e pela balconista Natália Nascimento, 24, que, depois de meses desempregadas, conseguiram vaga, no ano passado, em uma lanchonete. Rayanne já fez um ano no emprego e, segundo conta, só conseguiu a oportunidade por indicação de um conhecido. ;Fiquei dois meses buscando trabalho. Foi difícil, e ainda está para muita gente;, lamenta Natália.

Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, acredita em um 2018 melhor, com desemprego de 10,9%, inflação em 4% e os juros em 6,5%. ;A massa salarial cresceu depois de algum tempo estagnada e até mesmo o setor industrial, que precisa de mão de obra mais qualificada, vai começar a reagir. Creio que talvez tenha passado o fundo do poço;, assinalou. A economia só não deslanchou ainda, disse, por conta das reformas estruturais que não andaram e em consequência das indecisões do processo eleitoral. ;Os investimentos também dependem do contexto político;, reforçou Vieira.


  • Rendimento

    O rendimento médio real dos trabalhadores em 2017 foi de R$ 2.141, 2,4% mais alto do que em 2016, estável ante 2014 e superior 4,4%, em relação a 2012. Agricultura foi o setor que mais perdeu vagas em relação a 2016, foram 600 mil postos fechados, com uma queda de 6,5%. Na indústria geral, em seis anos, houve redução 1,4 milhão de postos. Fechou 2017 com 11,7 milhões de empregados. A construção encerrou o ano com 6,8 milhões de trabalhadores, quantidade inferior aos 7,3 milhões de 2016. Comércio manteve a estabilidade desde 2012, com 17,5 milhões de trabalhadores.

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