Mais perto do público

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Projetos de artes cênicas entram nas escolas e levam novas possibilidades ao cotidiano dos alunos

Isabella de Andrade Especial para o Correio
postado em 13/03/2018 00:00
 (foto: Júnior Ribeiro/Divulgação)
(foto: Júnior Ribeiro/Divulgação)


Impulsionados pela vontade de compartilhar a criação artística em espaços de aprendizado, grupos de Brasília se reúnem para levar projetos de arte e educação às escolas. Além do desejo de formar um público mais diverso e consciente entre os teatros do Distrito Federal, a ideia é fomentar um ambiente mais participativo e convidativo nas casas de cultura. A vivência cênica aparece como ponto de partida para que crianças e adolescentes experimentem a criação artística de maneira mais coletiva, lúdica e criativa.

As ações se dividem em diferentes tipos de trabalho, como montagem de espetáculos com alunos, estudo literário dos textos, pesquisa de temas atuais que envolvem as narrativas, mediação das histórias e apresentações. No projeto Mediato ; Diálogo com espectadores, por exemplo, a ideia é trabalhar com foco na formação de público. Ao longo de uma semana, professores e estudantes são envolvidos nas mediações antes e depois de assistir a um espetáculo teatral, com transporte e ingressos gratuitos. A ideia é sensibilizar os espectadores antes do contato com a obra e provocar um desdobramento poético, reflexivo e criativo depois.

;Gosto de dizer que a mediação é uma espécie de educação estética, de educação dos sentidos. Logo, não exercitamos o sensível, e com ele o senso crítico, apenas para ver arte; exercitamos para ver o mundo;, destaca Arlene von Sohsten, coordenadora do projeto. Para ela, esse tipo de trabalho possibilita à criança encontro, desde cedo, diferentes maneiras de enxergar e experimentar o mundo. Além disso, os diálogos e reflexões criados a partir do palco proporcionam que cada aluno conheça melhor a saída mesmo através do outro, da obra e do artista.



;Recepção teatral é a minha paixão como pesquisadora. Hoje, muitos pesquisadores e artistas questionam-se quanto ao esvaziamento das salas de espetáculo;, lembra a produtora. Araci acredita que o projeto dialoga com essa preocupação e direciona todas as suas ações para adolescentes e jovens que não são frequentadores de espaços de arte.

Essa formação é trabalhada para além da gratuidade de ingressos, possibilitando que o espectador tenha prazer em debates relacionados à criação e, quem sabe, o desejo por novas experiências a partir do teatro. O Mediato já passou por escolas públicas do Gama, São Sebastião, Ceilândia, Riacho Fundo, entre outras regiões. ;Minha experiência como artista começou no ensino médio em uma escola pública do Gama (a mesma que está recebendo o projeto agora) e o que me fez escolher esta área como profissão foi um projeto de teatro que houve na escola. Por isso, acredito no poder transformador da educação informal, sobretudo projetos de teatro;, destaca.

Teoria e prática

A partir de uma abordagem diferente, o projeto Vidas Secas trabalha com a montagem da obra de Graciliano Ramos com participação dos próprios alunos em uma escola de Planaltina. A ideia é estabelecer a conexão do teatro com a literatura e refletir, através da obra, sobre temas comuns ao cotidiano atual, como fome, miséria e relações de poder. ;Isso faz com que os alunos compreendam a obra não só na parte literária, mas também na social. Enquanto isso, a prática teatral permite que eles desenvolvam disciplina e senso crítico;, destaca Júnior Ribeiro, diretor do projeto.



Para ele, quando uma montagem profissional adentra a escola, a perspectiva do aluno em relação a espetáculos teatrais é alterada. O aluno tem contato com todas as demandas executadas dentro e fora de cena, e aprende a valorizar cada etapa do trabalho. Eles aprendem sobre direção, atuação, sonoplastia, figurino, maquiagem. A presença no palco ainda colabora com a valorização pessoal de cada um.

;Cada aluno conhecerá o espetáculo desde o seu roteiro até o produto final, e serão protagonistas em cada área de atuação;, conta Júnior. Assim, eles valorizam a sua própria produção e aprendem a valorizar produções externas ao ambiente escolar. Os alunos se dividem entre os que cantam, dançam, atuam, operam luz, som, desenham cenários e figurinos, maquiam e escrevem.

O trabalho é essencial e o diretor conta que os alunos dessa escola, não têm o costume de frequentar teatros e assistir a espetáculos. A ausência ocorre pela distância da periferia ao centro, onde estão localizados os teatros, e onde há maior circulação de espetáculos culturais.

;Essas experiências podem incentivar os estudantes a seguir por outros caminhos. O protagonismo juvenil é a chave para que espíritos de liderança surjam dentro do ambiente escolar e alcancem outros espaços;, destaca. Para ele, a falta de vivência artística no ambiente escolar nos coloca num lugar de comodismo, gerando a falta de interesse pelos espaços teatrais.



Diversidade criativa

Enquanto isso, o Pulsada Popular investe nas danças populares para trabalhar expressão popular e a importância das tradições com alunos de Samambaia Norte. Entram em cena frevo, maracatu, coco, ciranda, xaxado, bumba meu boi e cavalo marinho, além de criação de adereços. A ideia é trabalhar de maneira conjunta a interpretação teatral, o ritmo e a musicalidade dos adolescentes, colaborando com o fortalecimento das relações sociais.

;Muitos alunos têm uma ideia de distanciamento em relação à arte, como se não fosse algo acessível. Tentamos trabalhar com o cotidiano para mostrar que esse espaço também é deles;, destaca Alan Mariano, um dos criadores do projeto. Alan lembra que muitos dos alunos nunca assistiram a nenhum espetáculo, tampouco conhecem as expressões culturais brasileiras. É nesse ponto que o trabalho nas escolas ganha ainda mais força.

O trabalho de arte-educação nas escolas cria um espaço importante de reflexão e fortalecimento de novas ideias. Alunos, artistas e professores compartilham experiências, entendem melhor o cotidiano e suas relações sociais. Os projetos se destacam ao mostrar a esses jovens que os espaços culturais estão de portas abertas para a ocupação. Uma cidade viva permite que seus habitantes se valorizem a partir de sua própria produção criativa.



;A mediação quer proporcionar um espaço propício para que o diálogo aconte

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