O zeitgeist dos anos 1970 em Brasília

O zeitgeist dos anos 1970 em Brasília

Olímpio Cruz Neto* Especial para o Correio
postado em 13/03/2018 00:00
Em junho de 1977, estudantes da Universidade de Brasília decidiram promover um ato para lembrar a morte do estudante Edson Luiz, assassinado por policiais militares em 28 de março de 1968 no restaurante estudantil do Calabouço, no Rio de Janeiro.

O reitor da UnB, o capitão de mar-e-guerra José Carlos Azevedo, literalmente a mão de ferro da ditadura militar no câmpus, não teve dúvidas. Acionou a polícia para reprimir de maneira hostil o protesto. Reza a lenda que uma estudante, agredida pela PM naquele momento, acabou sofrendo um aborto por conta da violência desmedida. A lenda serviria de pretexto para batizar a banda que é o zeitgeist desse período: o Aborto Elétrico.

O ambiente de brutos coturnos, batidas da polícia do Exército e repressão severa foi o caldeirão para a primeira manifestação artística genuína do cerrado: o rock brasiliense. À frente desse turbilhão sonoro e de ideias, Renato Russo nem sabia, mas já era o mais original autor do rock brasileiro.

Antena de sua geração, Renato escreveria, a partir de 1978, alguns dos versos mais contundentes da juventude pós-64, denunciando o ambiente de terror e saudando os novos tempos advindos com os estertores da ditadura.

Nascido no Rio, Renato Manfredini foi criado na 303 Sul, em Brasília, a partir de 1973, no auge da ditadura militar. Chegou justamente quando ;desaparecia; o líder estudantil Honestino Guimarães, assassinado nos porões dos quartéis.

O Aborto Elétrico é a mais perfeita síntese do espírito punk em terra tupiniquim, aliando a rebeldia e inquietude juvenis ao desespero para desvelar os olhos e ouvidos àqueles que nem sabiam, mas precisavam respirar novos ares.

Muitas das canções mais fortes da primeira geração do rock brasiliense a ganhar o país nos anos 1980 foram compostas entre 1978 e 1982. Renato fez nesse período Música urbana e Fátima, ambas gravadas pelo Capital Inicial, Tédio (Com um T bem grande para você), Geração Coca-Cola e Que país é este?, do repertório inicial da Legião Urbana, e outras pérolas. Todas realizadas quando o jovem Manfredini tinha entre 18 e 22 anos.

A canção mais impactante do Aborto, na minha opinião, nem está entre as mais tocadas, mas mostra um jovem absolutamente sagaz e genial. Trata-se de Conexão amazônica, cujos versos iniciais revelam um poeta conectado com o espírito do seu tempo: ;Estou cansado de ouvir falar/ Em Freud, Jung, Engels, Marx/ Intrigas intelectuais rodando em mesa de bar...; Entre gritos de ié-ié-ié e tambores tribais, o recado é direto: ;Uma peregrinação involuntária talvez fosse a solução/ Autoexílio nada mais é do que ter seu coração na solidão;.

Difícil encontrar alguém, mesmo agora, capaz de cometer poesia tão certeira e contundente, soando original e ao mesmo tempo tão sensível. As letras de Renato são uma aposta na inteligência da juventude, arriscando uma cumplicidade graciosa com o ouvinte. É isso que explica por que, 40 anos depois de realizadas, as canções do Aborto Elétrico não envelheceram e seguem ainda tão populares.

* Olímpio Cruz Neto é autor do livro Playlist ; Crônicas sentimentais de canções inesquecíveis, à venda na Amazon

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