Convite em aberto

Convite em aberto

Trump não descarta receber Kim Jong-un na Casa Branca, sob a condição de sucesso da cúpula do dia 12. Relator especial da ONU sobre direitos humanos no país pede que Pyongyang anistie prisioneiros. Líder teria prometido desnuclearização

Rodrigo Craveiro
postado em 08/06/2018 00:00
 (foto: Nicholas Kamm/AFP)
(foto: Nicholas Kamm/AFP)


Está quase tudo pronto para a histórica cúpula entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un. A julgar pelas declarações do líder americano, ao receber em Washington o premiê japonês, Shinzo Abe, o encontro do próximo dia 12, na Ilha de Sentosa (Cingapura), será bem mais do que uma sessão de fotografias. Apesar de reafirmar a possibilidade de abandonar a mesa de diálogo se os rumos da reunião forem indesejáveis, Trump admitiu que ;certamente; convidará Kim aos EUA, ;se (a cúpula) correr bem;. ;Está tudo pronto. Tudo está indo muito bem. Espero que continue nesse caminho;, disse o magnata republicano. Ele não descartou a assinatura de um acordo para colocar fim à Guerra da Coreia ; os dois países travaram uma batalha sangrenta, entre 1950 e 1953, e jamais firmaram um pacto de paz definitivo. ;Nós poderíamos assinar um acordo. Como você sabe, isso seria um primeiro passo. O grande ponto é o que ocorrerá após o acordo;, acrescentou Trump.

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, anunciou ontem que Kim o informou pessoalmente sobre o comprometimento da Coreia do Norte com o desmantelamento do arsenal nuclear. ;Ele me disse pessoalmente que está preparado para a desnuclearização, que entende que o modelo atual não funciona;, comentou, em entrevista coletiva na Casa Branca. ;Ele entende que isto tem que ser grande e audacioso e que temos que acordar fazer mudanças importantes.; O chefe da diplomacia de Washington pretende viajar à Coreia do Sul, ao Japão e à China, depois da reunião entre Kim e Trump. ;Eu fornecerei aos meus homólogos uma atualização e sublinharei a importância da completa implementação de todas as sanções impostas à Coreia do Norte;, avisou Pompeo.

A quatro dias da cúpula, o argentino Tomás Ojea Quintana (leia o Três perguntas para) ; relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a situação dos direitos humanos na Coreia do Norte ; instou Pyongyang a demonstrar boa vontade e liberar prisioneiros. ;Seria importante que a Coreia do Norte mostre um gesto sobre seu compromisso com a ONU e a comunidade internacional, utilizando os instrumentos das anistias para liberar, de forma gradual, os detidos no país;, disse ao Correio. ;Estou conclamando o governo norte-coreano a se abrir ao sistema de verificação de direitos humanos da ONU, por meio do diálogo e da criação de confiança.;

De acordo com Quintana, a situação dos direitos humanos na Coreia do Norte permanece grave. ;Tive muito pouco acesso às informações sobre os chamados campos de presos políticos, mas sabemos que eles existem. A população norte-coreana continua intimidada e sujeita ao controle, por meio do medo e do temor de que, sob quaisquer circunstâncias, as pessoas possam ser acusadas de crimes contra o Estado e enviadas a esses lugares;, afirmou. Em 2014, uma comissão de investigação da ONU determinou que haveria entre 80 mil e 100 mil pessoas nesses campos de detenção.

Expectativas
Scott Snyder, especialista de Estudos da Coreia pelo Conselho de Relações Exteriores (CFR, pela sigla em inglês) e autor de South Korea at crossroads: Autonomy and alliance in an era of rival powers (;Coreia do Sul na encruzilhada: Autonomia e aliança em uma era de poderes rivais;), explicou ao Correio que Trump tenta encorajar Kim e aumentar as expectativas em torno do evento. ;No entanto, ele também intensifica os custos do fracasso o suficiente para que Kim receba incentivos para um bom desempenho. Ele está praticamente dando ao norte-coreano o que ele sempre quis. A dúvida é se Kim adotará a recirprocidade e abandonará o programa nuclear.;

Segundo Snyder, a Coreia do Norte tem a reputação de não oferecer concessões unilaterais. ;Ao dar a Kim o respeito com uma interação em ;pé de igualdade;, Trump tenta melhorar as relações com o país, pôr fim à Guerra da Coreia e reduzir as tensões militares na Península Coreana;, comentou. Ele não descarta que a cúpula em Cingapura produza uma ;façanha histórica;. ;A reunião pode surtir efeitos com dramáticas ramificações para a segurança do nordeste da Ásia: o derretimento da última geleira da Guerra Fria, o conflito coreano.;






Três perguntas para

Tomás Ojea Quintana, relator especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos na Coreia do Norte


Como o senhor analisa as condições para a realização da cúpula entre Kim Jong-un e Donald Trump, na próxima semana?
Creio que a iniciativa dos países envolvidos na realização dessa cúpula em Cingapura, em 12 de junho, é muito importante. Eu a vejo com muitos bons olhos e creio que ela contribui para uma solução pacífica da situação na Península Coreana. De minha parte, como observador de direitos humanos das Nações Unidas, sempre tenho chamado a um entendimento razoável do conflito e apelado ao diálogo. Por isso, apoio esse encontro e as reuniões anteriores entre os presidentes da Coreia do Sul (Moon Jae-in) e da Coreia do Norte (Kim Jong-un). Parece-me que isso trará benefícios para o povo coreano. Como especialista em direitos humanos sobre a situação na Coreia do Norte também estou chamando o governo norte-coreano a ter uma abertura com a ONU para abordar o tratamento dos direitos humanos neste país.

Na condição de relator especial da ONU, de que forma vê a situação dos direitos humanos na Coreia do Norte?
Eu devo dizer que, de acordo com a informação que pude apurar, a situação continua muito séria, em relação aos abusos cometidos, tanto nos aspectos dos direitos civis e políticos (a situação dos presos políticos), quanto dos direitos sociais e econômicos. Sobretudo, a população da Coreia do Norte que vive no campo, nas províncias, enfrenta sérias dificuldades para sua própria subsistência, como o acesso à comida, à saúde adequada, aos serviços e às necessidades básicas de qualquer pessoa para poder levar uma vida digna. É preciso dizer que, sobre a situação social, no tocante aos serviços básicos, a origem da responsabilidade está no governo da Coreia do Norte. No entanto, temos de considerar fatores, como o impacto das sanções econômicas sobre a sociedade civil. A situação, neste momento, é muito séria. Eu insisto que esta é uma oportunidade, para o governo da Coreia do Norte, de abertura para um diálogo também na agenda dos direitos humanos, a fim de que as Nações Unidas possam trabalhar para a melhoria dessa situação.

O senhor tem infor

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