Flexibilidade e resistência

Flexibilidade e resistência

Cia. Nós no Bambu comemora 15 anos com o primeiro solo do repertório e sobrevivendo à crise cultural pela qual o país passa

Vinicius Nader
postado em 02/10/2018 00:00
 (foto: Diego Bresani/Divulgação)
(foto: Diego Bresani/Divulgação)




;Nós somos debambutantes;, brinca Poema Mühlenberg, dançarina, acrobata e cofundadora da companhia Nós no Bambu, que comemora os 15 anos de atividade com o espetáculo O vazio é cheio de coisa. A coreografia estreia hoje no Sesc Paulo Gracindo, no Gama, onde fica em cartaz até amanhã. A partir de sexta-feira, a peça dirigida por Edson Beserra será apresentada até domingo no teatro Plínio Marcos, na Funarte.

O vazio é cheio de coisa é o primeiro espetáculo solo da Nós no Bambu e também da carreira de Poema. ;É nosso espetáculo mais minimalista. Isso reflete tanto um amadurecimento do trabalho da companhia quanto a adaptação a uma necessidade do mercado, pois a crise pela qual estamos passando dificulta a produção de espetáculos grandiosos como o que fizemos anteriormente;, afirma a dançarina.

Enfrentar e tentar superar a crise faz com que a comemoração pelos 15 anos da Nós no Bambu tenha um gostinho especial. ;É um exercício meu de sobrevivência. Das fundadoras da companhia, só eu continuo no palco;, conta Poema, ressaltando que na produção há outras cofundadoras. ;Estar no palco com o nosso trabalho exige muita dedicação e disciplina. Entendo perfeitamente quem não conseguiu;, completa.

Poema aponta que uma das principais dificuldades de se manter na ativa por esse tempo está na continuidade do trabalho proposto pela Cia., que vai além do estar em cartaz com algum espetáculo e chega ao estudo, à pesquisa de técnicas acrobáticas e coreográficas usando o bambu. ;Esse é nosso maior desafio. Se para espetáculos pontuais há poucos editais e patrocínio, para a pesquisa há menos ainda;, lamenta.

Experiências

A pesquisa proposta pela Nós no Bambu vem do método Integral Bambu, criado pelo professor Marcelo Rio Branco, a quem Poema conheceu na Universidade de Brasília (UnB) quando estudava desenho industrial. ;É um trabalho corporal completo, que vai da força à inteligência motora. A gente começou subindo em árvores na UnB até chegar às nossas próprias pesquisas sobre a força e a estética do bambu;, conta Poema. As integrantes da trupe já tinham experiência com teatro ou dança e juntaram a arte ao trabalho de Marcelo Rio Branco ao fundar a companhia ;em busca de profissionalização; assim que se formaram.

Em O vazio é cheio de coisa, Poema sobe ao palco com apenas um bambu. ;É um espetáculo muito imagético, de imagens arquetípicas sobre o embate entre o masculino e o feminino. O (diretor) Edson Beserra acentua a união entre a dança e a acrobacia e traz uma contemporaneidade muito grande ao espetáculo, que é lúdico e muito híbrido;.

Uma das características de O vazio é cheio de coisa é que, assim como em vários espetáculos da Nós no bambu, o público está livre para dar várias interpretações ao que é apresentado no palco. ;O espetáculo é rico em imagens e permite um alto grau de contemplação. A percepção de cada detalhe pelo público é que vai formando a interpretação de cada um;, explica Poema.

As múltiplas interpretações começam no título que, segundo Poema, pode referir-se ao vazio do próprio bambu, que é oco; ao princípio de fluxo de energia constante da física quântica; e ao conceito de vacuidade e não vacuidade, segundo o qual nada está nunca vazio.



O vazio está cheio de coisa
; Sesc Paulo Gracindo (Setor Leste, lts 620 a 680, Gama). Hoje e amanhã, às 20h. Entrada franca. Não recomendado para menores de 14 anos.

; Teatro Plínio Marcos (Funarte). Sexta e sábado, às 20h; domingo, às 19h. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Não recomendado para menores de 14 anos.



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