Socorro a montadoras precisa exigir inovação tecnológica

Socorro a montadoras precisa exigir inovação tecnológica

SÉRGIO LEITÃO Diretor de Políticas Públicas do Greenpeace FABIANA ALVES Coordenadora da campanha de Clima e Energia do Greenpeace
postado em 18/06/2014 00:00



O governo federal estuda conceder, mais uma vez, ajuda para a indústria automobilística, que teve queda de vendas. Férias coletivas e paralisações tornaram-se o coquetel de pressão perfeito para as montadoras. Importante setor para o PIB brasileiro, as empresas pressionam por mais subsídios e o governo, novamente, corre ao socorro. Contudo, créditos pontuais e sem planejamento em médio prazo não modificarão a estrutura industrial do país, que necessita de competitividade global para se desenvolver gerando ganhos para toda a sociedade. Está na hora de o governo deixar de cuidar da indústria nacional como a um filho que não saiu de casa e exigir contrapartidas.

Atualmente, o setor automobilístico do Brasil tem como principal mercado externo a Argentina. O recuo nas vendas do país vizinho foi um dos motivos da queda em 32,7% das exportações brasileiras comparadas ao primeiro trimestre de 2013, de acordo com dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). Contar com a exportação para apenas um país é arriscado. A crise do setor automotivo argentino foi facilmente transferida para o Brasil. No mercado interno brasileiro, há previsão de retração de vendas, devido ao tardio carnaval, à Copa do Mundo e às eleições, trio fatal para o PIB. Contudo, segundo dados da Anfavea, no primeiro trimestre, as vendas caíram apenas 3%. Até agora, recaem sobre a exportação as baixas vendas de início do ano, mas há más expectativas para 2014.

Em 2012, o governo federal lançou, dentro do Plano Brasil Maior, de fortalecimento da indústria, o Programa Inovar-Auto, voltado para o setor automotivo. O programa prevê desconto de até 30% do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para quem cumprir metas de conteúdo local e investimentos tecnológicos no setor, como eficiência energética. Seria o embrião de uma política de redução do consumo de energia para o setor que mais cresce o número de emissões de gases de efeito estufa. Puxadas principalmente por transportes, as emissões do setor de energia cresceram mais de 40% entre 1995 e 2005, contra 23% do setor industrial e do agrícola.

O atraso tecnológico dos carros brasileiros em comparação ao restante do mundo é comprovado, e o fato de não haver metas compulsórias de eficiência energética no Brasil, como na Europa, faz com que a indústria automobilística produza, aqui, carros tecnologicamente defasados e com pouca competitividade no mercado internacional. Para se ter ideia, se o Brasil adotasse a meta de eficiência energética vigente na Europa, haveria redução do consumo de combustível em 24,5%, de acordo com estudo da Coppe-UFRJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia), feito em parceria com o Greenpeace.

As maiores montadoras anunciaram estratégia de aumento de produção em mercados em crescimento, como o Brasil, para prosseguirem com metas de vendas crescentes em meio a uma Europa em crise ; dinheiro que será remetido para a matriz. Ao conceder créditos pontuais ao setor para evitar demissões, sem qualquer contrapartida das montadoras, o governo brasileiro, mais uma vez, se rende à divisão internacional do trabalho, conceito que infelizmente continua vivo no mercado global.

O setor necessita de tecnologia para se fortificar e gerar postos de trabalho, de forma que esses empregos não sejam colocados em risco devido a flutuações internacionais. O relatório Global Innovation Index 2013 mostra a diminuição dos investimentos das empresas brasileiras em pesquisa e desenvolvimento, com decréscimo de seis pontos em 2013, comparado a 2012, e 17 pontos se usarmos o ano base de 2011, o que demonstra em números as falhas de políticas de incentivo industrial.

Finalmente, os investimentos que o governo vem concedendo a montadoras não são repassados para toda a cadeia automobilística. O setor de autopeças, importante gerador de empregos, é estrangulado por não ter a força que têm as montadoras, já que competem com produtos importados a menores preços ; o que o sustenta é o conteúdo nacional obrigatório dos veículos, já que não possuem competitividade tecnológica. Portanto, o que suporta toda a cadeia industrial brasileira são remendos pontuais, aqui e ali, que não a torna mais competitiva. A indústria brasileira é socorrida por intervenções governamentais que não modificam a base do problema e, sim, dão fôlegos temporários e desestruturados.

As montadoras justificam que investimentos federais são necessários para evitar demissões em massa. Contudo, créditos pontuais e sem contrapartida das empresas não trarão para o país a tecnologia necessária para fortificar a indústria e gerar postos de trabalho. Deve haver um retorno para a população do dinheiro que lhe pertence, e a única maneira de fazer com que isso aconteça é com uma política industrial completa, que traga benefícios tecnológicos, empregos e eficiência energética. Essa é a única equação possível para que a indústria do país deixe de ser tratada de forma paternalista pelo governo brasileiro.

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