Injustiça nossa de cada dia

Injustiça nossa de cada dia

Documentário que abre a mostra competitiva do Festival de Brasília aprofunda a discussão sobre a justiça criminal brasileira

» Ricardo Daehn
postado em 17/09/2014 00:00
 (foto: Guilherme Freitas/Divulgação)
(foto: Guilherme Freitas/Divulgação)



Sensibilizar a sociedade para uma realidade brutal e grave na esfera de tribunais e crimes é um dos objetivos do longa Sem pena, com direção de Eugênio Puppo, o primeiro concorrente do mais tradicional festival de cinema do Brasil. ;O filme não é sobre sistema carcecário. É uma produção que faz uma reflexão sobre sistema da justiça criminal. Tivemos a pretensão de fazer uma espécie de 360 graus em torno do tema. Dados do âmbito prisional entram, claro. Mas não se trata de um filme institucional;, esclarece Puppo, à frente do quinto longa documental.

Alinhado à torrente de críticas propaladas na ONU e em análises da Human Rights Watch, Sem pena promete expor situações de abuso constatadas nos mutirões comunitários do Conselho Nacional de Justiça.

Em parceria com a Heco Produções, o documentário tomou corpo pela idealização da advogada Marina Dias, com base em pesquisas conduzidas ao longo de cinco anos, relacionadas a nomes destacados como o de Hugo Leonardo, diretor do Instituto de Defesa do Direito de Defesa. ;Tivemos a ideia de juntar uma ONG extremamente reconhecida e com trabalho muito ativo, em busca de profundidade no projeto;, comenta o diretor Eugênio Puppo.

;Queremos trazer aos espectadores todo o debate, mostrar, de forma ampla e transparente, as entranhas do sistema da justiça criminal. Mostramos o que não é noticiado, no dia a dia. Como se dá um processo de acusação? Qual a influência desse processo na vida das pessoas? Como a acusação é tratada pelos atores da Justiça ; juízes, promotores, delegados, policiais? Debatemos o que a justiça criminal está fazendo com um problema social, hoje em dia;, sublinha Hugo Leonardo.

Marina Dias destaca algo impresso em Sem pena: os descaminhos apontados pela cultura do medo. ;Não pegamos casos emblemáticos da Justiça ou que fujam do padrão. Cercamos pessoas que sofrem arbitrariedades, todos os dias, por parte de policiais, e que têm casas invadidas nas periferias, sem mandado de prisão. Não chegamos a conclusões, estamos lançando questionamentos de uma situação que vejo como bomba-relógio;, diz.

O fato de adotar experimentalismo em parte de Sem pena, não levou Puppo a se aplicar num cinema hermético ou que não se comunique. ;Na fita, temos um lado sensorial e que toca as pessoas. Com os dados, os espectadores percebem que estão chafurdados num mar de lama e como eles têm sido desinformados;, observa o cineasta que, desde 2009, acalenta o projeto que teve aberta uma linha de captação de investimentos (ainda em andamento) da ordem de R$ 940 mil.

Curiosamente, o longa ; filmado entre Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre ; chega ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro com exibição assegurada, a partir de 2 de outubro (no circuito Espaço Itaú). Em quesitos como montagem e concepção, a grande preocupação da equipe foi a de nunca enveredar por um caminho sensacionalista.

;Não quisemos tratar o crime como entretenimento. Fugimos da linguagem televisiva e do levantar de bandeiras fosse as dos direitos humanos ou as dos bandidos. Temos uma questão maior, e foi imprescindível, o equilíbrio. Temos acusados ou ex-acusados anônimos. Não fomos atrás da Suzane von Richtofen. A gente quis fugir desses casos, até pelo fato de o buraco ser mais embaixo. Quisemos mostrar o jogo desproporcional de acusados em termos de sistema. Vemos a máquina ; o sistema ; atuando contra uma pessoa;, analisa Puppo. Na trilha sonora, destaque para quatro obras de John Cage, notável criador da vanguarda músical norte-americana.

Barreiras e má gestão

No propósito de afirmar uma interlocução com a sociedade, saltou aos olhos, na incursão do grupo, traços de um sistema criminal hermético, fechado, e que impede a construção de ponte para a discussão. ;Isso, enquanto a sociedade sofre a violência das ruas, todos os dias. Mesmo uma sociedade alijada do funcionamento de um sistema de Três Poderes, há sofrimento das consequências de um sistema mal gerido;, aponta Hugo Leonardo. Sem pena parte para formatar corpo iamgético para dados já conhecidos: entre os quais o de que o Brasil tenha a terceira população carcerária do mundo, além de ela apresentar vertiginoso crescimento, o maior do mundo.

;Vivemos uma realidade do aprisionamento de quase metade dos presos provisórios. A prisão cautelar, no nosso país, ao invés de exceção, se prova, na prática, como regra;, analisa o Hugo Leonardo que avança por questões como o do imediatismo da população justiceira, alimentada por preconceitos e violências de painel excludente.


Filmografia de Eugênio Puppo

; Bocadolixocinema (2014)
; Ozualdo Candeias e o cinema (2013)
; República (2012)
; São Miguel do Gvostoso (2011)
; Carlos Reichenbach: relatório
; confidencial (2011)


47; Festival de Brasília do Cinema Brasileiro ;
No Cine Brasília (EQS 106/107), às 20h30, com exibição do longa Sem pena (SP), de Eugênio Puppo, que, simultaneamente, será mostrado no Sesc (Ceilândia), Teatro de Sobradinho, CG do Gama e Teatro da Praça (Taguatinga). Não recomendado para menores de 12 anos. Os curtas da noite não são recomendados para menores de 16 anos.



; Glauber Polanski
Cinema com pipoca é um clássico, mas não só delas vivem as pessoas cinéfilas durante um festival! É difícil conter minhas expectativas no que diz respeito à praça de alimentação do festival de cinema. Será que ela receberá, este ano, as influências dos food trucks? Ou dos queridinhos do slow food, cerrado fusion, raw cuisine? Podemos esperar coxinhas gourmet com pequi? Ou vai terminar tudo em pizza?

Glauber Polanski é crítico de cinema, agitador cultural e de batidas de abacaxi, entrepeunuer do cerrado, comentarista das redes sociais, comedor de coxinha com pequi e jornalista nas horas vagas


Confira!
De hoje a 23 de setembro, competição de filmes brasileiros no Cine Brasília (EQS 106/107; 3244-1660) , Colégio do Gama (Área especial SLE, Q. 18; 3484 9142), Teatro da Praça de Taguatinga (QNE 02 s/n; 3451- 9150), Teatro de Sobradinho (Q. 12 AE 4; 3901 6798) e Sesc Ceilândia (QNN 27, Lt. B; 3379-9586). Ingressos: R$ 12 e R$ 6. As classificações indicativas variam para cada filme.



CURTAS


Bashar
(São Paulo, 2014, 18 min). De Diogo Faggiano.
Com o cur

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