Chance de vida desperdiçada

Chance de vida desperdiçada

Jovem de 25 anos morre em acidente de moto e mãe tenta realizar desejo da filha de doar órgãos. Mas suposta falha de comunicação do hospital com a Central de Captação de Órgãos do DF fez com que o ato não se concretizasse, em uma cidade recordista em transplantes

postado em 04/12/2014 00:00
 (foto: Paula Rafiza/Esp.CB/D.A Press)
(foto: Paula Rafiza/Esp.CB/D.A Press)

Hoje, o coração e outros órgãos de Ana Carolina Leão poderiam estar com outras pessoas. Mas a ausência de comunicação do hospital para onde ela foi encaminhada após um acidente de moto com a Central de Captação de Órgãos do DF fez com que a doação se tornasse impossível. Segundo a família da jovem de 25 anos, apesar do pedido feito a funcionários da unidade, nada ocorreu.


;Comunicamos aos enfermeiros do hospital que Ana Carolina era doadora de órgãos. Eles disseram que estavam providenciando tudo, só que não pudemos acompanhar de perto. Fiquei aguardando me chamarem para assinar os papéis. Após a morte, todos sabiam que ela era doadora;, lembra a mãe da moça, Inácia Freitas. Desde o início da semana, ela e parentes frequentam a 14; Delegacia de Polícia, no Gama, onde registraram um boletim de ocorrência sobre o caso.


No nervosismo de não poder atender o desejo da filha, Inácia chegou a acusar o Instituto Médico Legal (IML) pelo atraso na coleta do corpo. A vendedora de 25 anos morreu às 17h de domingo, depois de dar entrada no Hospital Maria Auxiliadora. Mas o corpo só foi retirado às 11h do dia seguinte porque o IML não recolhe cadáveres após as 18h. Assim, foram 14 horas de atraso na busca. ;Eles demoraram muito. Isso não pode ser assim;, reclama o tio de Ana, o policial militar José Rodrigues.


O IML confirma o procedimento por uma questão de logística ; a maioria dos hospitais não deixa funcionários no local para fazer a entrega. De qualquer forma, não é responsabilidade do IML o transporte dos órgãos para a Central de Captação. ;Os estabelecimentos de saúde estão obrigados a comunicar à Central de Captação de Órgãos no caso de os familiares manifestarem o desejo de fazer a doação. Portanto, a doação de órgãos independe do recolhimento do corpo pelo IML;, afirma o órgão, em nota.


A família conta que o Banco de Olhos do Distrito Federal entrou em contato durante a madrugada, mas já não havia como efetuar a doação. ;Ficaram abismados com o tratamento que minha filha teve. Disseram que poderia ter ajudado muitas pessoas;, diz Inácia. ;Quando a doação é espontânea, tem que haver um comunicado oficial. A família entra em contato com o hospital e o hospital é obrigado a repassar esse desejo. É tudo documentado com a assinatura dos parentes;, explica Washington Luís Santos, técnico de captação do Banco de Olhos.


Inácia está revoltada com a atitude do hospital. ;Lá não tem câmara fria para manter os corpos;, queixa-se. A unidade foi procurada pelo Correio, mas os responsáveis transferiram as ligações e ninguém respondeu de forma oficial. Inácia espera que outros casos não se repitam. ;Tomara que outras pessoas tenham a chance de ver vidas sendo salvas. Infelizmente, eu não tive essa graça;, afirma.

Números
Brasília foi recordista em transplantes de coração e córnea e ficou em segundo lugar em transplantes de pulmão, fígado e rim em 2013. Ao todo, foram feitos mais de 183 transplantes, sendo 28 de coração, 2 de pulmão, 48 de fígado e 105 de rins, além dos de córneas e de medula óssea. O DF também ofertou a Central de Captação Nacional de Órgãos um coração, um pulmão, 12 fígados e 21 rins para serem usados em transplantes em outras unidades da Federação.

Doadores aumentam

Em seis anos, o número de doadores de órgãos cresceu 90% no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde. Os dados apontam que foram 2.562 casos no ano passado, contra 1.350 em 2008. No fim de 2013, o Brasil chegou a 13,4 doadores por milhão. Entre 2008 e 2013, o número de pessoas na lista de espera teve redução de 42%, passando de 64.774 para 37.736. O Brasil é o país latino-americano com maior percentual de aceitação familiar para transplantes de órgãos, com 56% de consentimento.

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