Enfim, saiu um acordo

Enfim, saiu um acordo

Teerã e seis grandes potências firmam compromisso preliminar para reduzir em até 98% as reservas de urânio enriquecido do país islâmico e remover centrífugas. Inspeções devem durar 25 anos. Pacto prevê o alívio gradual das sanções internacionais

GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 03/04/2015 00:00
 (foto: Fabrice Coffrini/AFP)
(foto: Fabrice Coffrini/AFP)

Autoridades internacionais celebraram ontem a conclusão de um acordo preliminar para impor duros limites ao polêmico programa nuclear iraniano. Depois de uma maratona de oito dias de negociações, chanceleres de seis potências (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha) e do Irã finalmente chegaram a um consenso sobre os alicerces do tratado final (leia o quadro abaixo), que deve ser concluído até 30 de junho. O objetivo das negociações é impedir que o país islâmico tenha condições de construir armas nucleares, plano que Teerã nega. Antes mesmo que comentários céticos pudessem ressoar, o presidente norte-americano, Barack Obama, declarou que as negociações culminaram em um ;acordo histórico; e ;bom;. Em Washington, ele salientou que os termos estabelecidos preveem inspeções ;robustas e intrusivas;, que devem durar 25 anos, a fim de garantir o cumprimento do compromisso iraniano. ;Se o Irã tentar trapacear, o mundo saberá. Se desconfiarmos de algo, vamos inspecionar;, assegurou.


Apesar de insistir no direito de explorar a tecnologia nuclear, a diplomacia iraniana, comandada pelo chanceler Mohammad Javad Zarif, aceitou que o projeto atômico sofra restrições a longo prazo em troca da queda das sanções internacionais que castigam a economia local. Com as bases definidas, as delegações do P5+1 ; como é chamado o grupo das protências ; e da República Islâmica vão trabalhar na redação do tratado final e em seus detalhes até 30 de junho. Até lá, nada do que foi definido entrará em vigor. O governo brasileiro, que chegou a articular um acordo com o Irã em parceria com a Turquia, em 2010, manifestou satisfação com o anúncio e reiterou que as tratativas são uma ;oportunidade que deve ser plenamente aproveitada para se chegar a uma solução duradoura;.


Embora alguns desconfiem da disposição de Teerã ; onde o detentor da palavra final é o líder supremo da teocracia iraniana, o aiatolá Ali Khamenei ; em fechar e em respeitar o acordo, Obama lembrou que o país cumpriu sua parte do pacto provisório firmado em novembro passado e que a fiscalização intensa dará condições de controlar suas atividades. ;Esse acordo não é baseado em confiança. Ele é baseado em verificações sem precedentes;, destacou. O presidente norte-americano considerou que, mesmo que Teerã venha a violar o tratado, as restrições impostas pelo possível acordo eliminarão as condições de produção de uma arma atômica por pelo menos um ano.


Além de ter reservas de urânio enriquecido reduzidas em 98% nos próximos 15 anos, os iranianos se comprometeriam a construir novas instalações nucleares e a não enriquecer urânio a mais de 3,67% pelos próximos 15 anos. A porcentagem está longe do enriquecimento a 90% necessário para a construção de uma bomba atômica. A redução do estoque de urânio a 20% dificulta que o material seja processado para os patamares bélicos.


Embora tivessem exigido o fim imediato das sanções internacionais, os iranianos aceitaram que as sanções fossem levantadas em fases, à medida que Teerã cumpra sua parte no pacto. Caso a República Islâmica viole o acordo, as punições seriam retomadas.

Sem alívio
A questão das sanções era um dos pontos de divergência que levaram à prorrogação do prazo para a apresentação do tratado, inicialmente marcado para a última terça-feira. Segundo a agência de notícias France-Presse, Zarif e o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, passaram a madrugada de ontem em claro e só concluíram as negociações às 6h. Para Federica Mogherini, chefe da diplomacia europeia e responsável por anunciar formalmente o resultado da maratona, a conclusão dessa etapa só foi possível graças à ;determinação possível e à boa vontade de todas as partes;.


Após mais de uma década de tensões sobre o projeto atômico do Irã, os diálogos entre o P5+1 e o Irã foram retomados em 2013, logo após a eleição do presidente iraniano Hassan Rouhani. Considerado um moderado, ele adotou o levantamento das sanções internacionais como promessa de campanha e acabou por obter o aval de Khamenei para negociar.


As articulações tinham sido prorrogadas em novembro passado, quando as partes não conseguiram chegar a um acordo. Zarif não escondeu o ar de satisfação em seu pronunciamento ao lado de Mogherini e demonstrou otimismo. ;Faremos algo muito novo. O Irã será um ator no mercado internacional de combustível nuclear;, contou. O chanceler, porém, lembrou que o país está longe do que deseja. ;Chegar a um acordo até o fim de junho será uma tarefa imensa.;


Segundo Mogherini, o Conselho de Segurança da ONU respaldará um pacto definitivo. Antes de concluir a próxima etapa, os negociadores terão de lidar com pontos complexos, como a possibilidade de levantar o embargo de armas imposto pela ONU e a modernização das instalações de Arak e de Fordo, que serão transformadas em centros de pesquisa.

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