Sessão de terapia

Sessão de terapia

O atleta que mais conquistou medalhas em diferentes edições do Pan-Americano não estará como jogador na competição pela primeira vez desde 1983. Mas o maior mesa-tenista brasileiro busca novos pódios, agora como treinador, e conta o que muda na preparação, mais mental do que física

postado em 27/06/2015 00:00
 (foto: Hugo Hoyama/Reprodução
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(foto: Hugo Hoyama/Reprodução )

Ele nasceu em São Bernardo do Campo, em 9 de maio de 1969, e aos 8 anos começou a treinar tênis de mesa. A paixão pelo esporte foi instantânea. Tanto que aos 12 anos já sabia que queria fazer isso pelo resto da vida. Até então, nada muito fora do comum, não fosse a quantidade de pódios que subiu ao longo da carreira: 55. Desde os 18, quando começou a competir profissionalmente, conquistou recordes em número de participações em Olimpíadas e Pan-Americanos, totalizando 13 jogos.

Não só de treinos e suor se construiu o maior nome do tênis de mesa do país. O ingrediente essencial para tantos primeiros lugares está na cabeça. Hugo Hoyama desenvolve a mente na psicologia esportiva. E ele não está só. A partir do momento em que se tornou treinador da Seleção Brasileira Feminina de Tênis de Mesa, em 2012, buscou passar isso para a aluna Lin Gui. De tal forma que, há quase um ano, ambos fazem terapia juntos: atleta e treinador.

A partir de julho, o hexacampeão Latino-Americano marcará presença pela 8; vez consecutiva em um Pan-Americano. Se continuar nesse ritmo, em 2019, ele terá ido a exatamente metade das edições já existentes do campeonato, que começou a ser disputado em 1951. A mudança, agora, se dá pelo fato de ser a primeira vez que Hugo irá à competição como técnico, não mais como atleta. O desejo pelo ouro, no entanto, permanece o mesmo desde 1987. Se conquistado, será um feito inédito para o tênis de mesa feminino.



A última vez que o Brasil embarcou para um Pan sem você como atleta foi em 1983. Como foi a transição de jogador para técnico?
Bem difícil no começo. Participei da minha última competição nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Foi quando recebi o convite. É lógico que eu tinha que terminar a competição para pensar. Não tinha mais motivação legal para lutar para um ciclo olímpico. Então, decidi ajudar o tênis de mesa como técnico. Confesso que foi estranho.

Na prática, o que muda?
Eu ainda disputo algumas competições pelo clube Palmeiras/São Bernardo. Hoje, tenho que estudar mais, pensar no jogo de cada atleta da Seleção e assistir a jogos do feminino. Antes, acompanhava como jogador. Agora, tenho que entender melhor a cabeça das mulheres, que é diferente.

É possível conciliar as duas atividades?
Sobra um pouquinho de tempo. Treino, no máximo, duas horas por dia, tempo suficiente para eu manter a forma. Estou mais preocupado com elas agora. Depois do Pan, porém, vou treinar para os Jogos Abertos do Interior (em outubro), uma competição muito tradicional.

A ideia de fazer um acompanhamento psicológico entre treinador e atleta foi sua?
Foi uma ideia minha e da coordenadora. A gente percebeu que as meninas precisavam do acompanhamento de um psicólogo esportivo para melhorar uma parte do jogo, a parte mental, o que é muito importante na competição de alto nível. Treinei com Nuno Cobra durante 8 ou 9 anos e percebi que a parte psicológica era muito importante. Então, quis aplicar isso a Lin. Já tem alguns meses que estamos trabalhando e dá para perceber uma melhora.

Você tem 15 medalhas em Pans, sendo 10 de ouro. Qual a expectativa para a Seleção feminina?
Estou bastante confiante nas meninas. Falo para elas não colocarem na cabeça que precisam ganhar o ouro, mas sim para se concentrarem o máximo possível. Temos o grande exemplo no Mundial do Japão no ano passado, quando fomos concentrados e acabamos campeões (na segunda divisão). Por conta disso, a Seleção feminina, pela primeira vez, vai jogar no campeonato mundial na primeira divisão. Então, a estratégia é essa.

Tem uma matemática nessa concentração?
Falo para as meninas que se elas colocarem 80% das primeiras bolas na mesa, as chances são grandes. Quando forem disputar com as chinesas, vai ser difícil, claro, porque o nível é mais alto, mas, ainda assim, elas não são imbatíveis.

É possível fazer alguma previsão para as Olimpíadas?
A equipe ainda não está definida. Geralmente, a campeã do Pan já garante vaga nas Olimpíadas. Com certeza, três atletas vão disputar o título.

Afinal, é realmente possível passar o conhecimento e a experiência de jogador para os atletas?
Acredito que sim. Como eu joguei muito tempo, também tive muitas decisões de campeonatos importantes, principalmente na parte mental. Acho que preciso melhorar na parte técnica e tática.

No campeonato Latino-Americano deste ano, você soube o momento exato de parar a partida para que as brasileiras virassem o jogo e conquistassem o ouro em cima das porto-riquenhas.
Isso é importante você ver, saber parar no momento certo para motivar, muitas vezes dar bronca, dar uma chamada para elas ;acordarem;. Mas, como eu falei, trabalhar com mulher é diferente. Eu estou aprendendo muita coisa ainda. Vejo técnicos como Bernardinho, Zé Roberto (Guimarães) e outros supercampeões, e busco acompanhar, sempre dou uma lida no que sai sobre eles.

Como você analisaria o próprio desempenho como técnico?
Elas estão subindo ao pódio, foram às quartas de finais em uma Copa do Mundo... Os resultados mostram que eu estou conseguindo realizar meu trabalho.

Você parece mais sério do que na época de jogador;
Sim, sou sério. Gostava muito de brincar quando era atleta. Agora, deixei um pouco mais de lado.

Preparação
Nuno Cobra foi treinador físico e mental do tricampeão mundial de Fórmula 1, Ayrton Senna. Mais tarde, trabalhou também com Christian Fittipaldi, Gil de Ferran e Mika Hakkinen, todos pilotos, além do tenista Jayme Oncins.

Naturalizada
Nascida na China, Lin Gui, 21 anos, chegou ao Brasil em 2004. ;Na verdade, para mim Hugo é mais um paizão, porque a gente se conheceu tem muito tempo. Ele me ajudou em muitas coisas além do tênis de mesa;, conta a atleta, que chegou ao Brasil sem conhecer o idioma nem a cultura. Lin foi naturalizada brasileira e, como o membro da seleção, irá ao Pan-Americano junto de Caroline Kumahara e Ligia Silva.

No comando
A Sele

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