A escolha de servir a Deus

A escolha de servir a Deus

Em função da própria vontade, mulheres de várias idades dedicam-se à vida religiosa. São centenas de freiras no DF

» CAMILA COSTA
postado em 13/09/2015 00:00
 (foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)

Houve um tempo em que mulheres nasciam com trajetória quase sempre determinada: casavam-se e cuidavam dos filhos e da casa, sem perspectivas de almejar algo fora do padrão. A religiosidade costumava ser imposta mais frequentemente. O mundo evoluiu e hoje busca-se, além da igualdade de direitos entre os gêneros, liberdade para desenhar o próprio destino, no qual a mulher possa ter visão mais ampla de suas capacidades. Elas são cada vez mais livres para escolher. Entre as opções, há quem decida dedicar a própria vida a Cristo e se entregar integralmente a Deus.

A trajetória dessas mulheres em nada lembra a história das mocinhas de novela enviadas aos conventos pela família por obrigação ou para serem punidas. Atualmente, na maioria das vezes, elas tomam a decisão por conta própria. Enfrentam a família e ;se casam com Deus;, para viver uma vida de oração. No Distrito Federal, existem 59 congregações femininas ; 25 a mais do que em São Paulo, por exemplo ;, com diferentes carismas. Elas desejam mostrar ao mundo que a vida religiosa pode ser uma rotina de paz, amor e fraternidade.

Elas garantem ser felizes. Estão realizadas com o caminho que escolheram. Isso inclui as irmãs de clausura, que escolheram viver exclusivamente para Deus, em constante oração, afastadas do mundo externo. Na Espanha, onde a prática é mais comum, os Carmelos, onde elas vivem, são lugares de paz e alegria. O sorriso das freiras enclausuradas nos conventos passa a mensagem de que não há tristeza. ;Não somos solteironas infelizes. Somos mulheres que dedicam a vida a uma causa, a Deus. Como tudo na vida, quando dizemos sim a uma coisa, consequentemente, dizemos não a outras tantas. Não somos frustradas ou deprimidas;, afirmou a integrante da consagração Irmãs Paulinas, irmã Maria Eliene Pereira de Oliveira, 48 anos. A Irmãs Paulinas são do carisma da comunicação. A missão delas é anunciar e levar o evangelho ao maior número de pessoas possível.

Irmã Eliene foi doutrinada na religião pelos próprios pais, catequizada e crismada por eles, em casa. Mesmo assim, teve de esperar oito anos para que o pai aceitasse sua vocação. O primeiro chamado vocacional foi aos 16 anos. ;Morávamos em Tucuruí, no Pará, em uma vila residencial de pessoas que foram para lá construir uma hidroelétrica. Tínhamos de tudo. O apelido de lá era gaiola de ouro. Havia acesso à educação e à saúde, mas era uma ilusão. Do lado de fora, não era assim para todo mundo. Isso me incomodou. Queria saber quem levaria a palavra de Deus para aqueles que estavam do outro lado;, explicou irmã Eliene. Aos 16 anos, ela formou a primeira turma de crianças para catequizar. Apesar de fazer o que tanto desejava, irmã Eliene queria mais. ;Precisava dizer ao mundo que existia um Deus que os amava. Um padre chegou a dizer que era coisa de adolescente, que passaria, mas não passou até hoje. Só aumenta;, lembra a freira, em tom bem-humorado.

Formação
O estudo para virar freira pode começar a qualquer momento da vida de uma menina. Aconselha-se, entretanto, que já tenham terminado a educação formal. São quatro anos primários, que envolvem postulantado e noviciado. Depois dessa etapa, quem decide continuar tem mais seis anos de formação religiosa. Ao fim, os votos perpétuos são consagrados. Durante os 10 anos de aprendizado, 12 meses são dedicados a um tipo de retiro prolongado, um período de oração e de conhecimento interior. É um ano canônico. A jovem que aspira a ser freira deve se preocupar com a escolha do carisma, a sua área de vocação. Cada congregação tem um tipo de carisma e a religiosa deve permanecer no grupo em que se formar. A pressão é amenizada pela certeza de que se pode deixar a vida religiosa a qualquer momento, pois se trata de uma escolha. ;Deus quer ser servido com liberdade;, justifica irmã Francisca da Silva, 51. Ela faz parte da congregação das Irmãs Oblatas do Menino Jesus, dedicadas a seguir o exemplo do Menino Jesus. A congregação foi fundada para a educação e a catequese, sobretudo.

Irmã Francisca também não teve o apoio da família. Sempre foi apegada ao pai, que não queria se distanciar da filha. A família era do Maranhão, mas veio a Brasília em busca de tratamento para Francisca, que na época sofria de osteomielite ; infecção nos ossos. ;Sempre fomos católicos, eu via a vida das irmãs, achava bonito, mas não era pra mim. Mas na minha história tudo tem um motivo, até a minha vinda para Brasília tem algo. O que Deus quer está nas entrelinhas. Temos que perceber;, diz.

Lembranças
Na juventude, irmã Francisca namorou e não era muito festeira. Foi a alguns eventos sociais, sem grande empolgação. ;Tinha um namorado que, se estava perto, queria-o longe. E quando ele estava longe, queria-o perto. Desejava ser mãe, mas uma mãe espiritual, de oração. Não me via gerando um filho. Deixei tudo isso para trás, não me faz falta e a vida religiosa me preenche aos poucos. Faria tudo de novo;, afirmou. Algumas congregações se dedicam ao postulantado, o primeiro ano de estudo das noviças. Nas Irmãs Oblatas, atualmente, quatro meninas estudam para ser freiras. No ano passado, foram três e, para 2016, cinco já aguardam por uma vaga.

Bárbara Francilino de Sousa, 24, está há seis meses na congregação. Formou-se em sistema de informação, trabalhava com designer de softwares, em uma das maiores empresas do DF. Namorava e tinha uma família grande e feliz. Via as irmãs biológicas casadas e com filhos, mas aquele não parecia ser o seu futuro. ;Algo me inquietava. Sentia um vazio. Deus já falava comigo, mas eu não captava. De 2013 para 2014, decidi que seria um ano de revolução;, relata a jovem. Bárbara procurou a paróquia e falou sobre a vontade de ;mergulhar em águas mais profundas;. Ao conhecer as congregações da cidade, escolheu a das Irmãs Oblatas. ;Quando cheguei e a irmã abriu a porta, senti que era aqui que deveria estar. Era o melhor lugar do mundo;, lembra.

Além de Bárbara, outras três noviças cursam o aspirantado: Manuela Maia Marques, 27, Layane Pereira Moura, 21, e Jéssica Abadia Sales de Farias, 20. ;Não sabia o que queria da minha vida. A única coisa que passava pela minha cabeça era ser freira. Tinha vontade de ser irmã;, contou Jéssica. Para Layane, o que ficou lá fora não tem mais importância. ;Não sinto falta de nada. Isso aqui me preenche;, disse ela, que chegou a cursar pedagogia, mas deixou os estudos para dedicar-se somente à igreja. ;A saudade lá de fora existe, mas estamos aqui para algo melhor. Tenho certeza de que é isso

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