ONU teme piora da crise de refugiados

ONU teme piora da crise de refugiados

Agência prevê que número de imigrantes deve dobrar neste ano e alerta para impacto sobre a Grécia. França prossegue com a derrubada de acampamento em Calais

postado em 02/03/2016 00:00
 (foto: Philippe Huguen/AFP)
(foto: Philippe Huguen/AFP)



A Europa não apenas vive a pior crise migratória desde a Segunda Guerra Mundial, como a situação deve piorar nos próximos meses. De acordo com dados divulgados ontem pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), o fluxo de migrantes pode dobrar em 2016. Desde janeiro passado, 131.724 pessoas entraram no continente por meio do Mediterrâneo, alertou a ONU ; o número é superior ao total registrado em 2014 e durante os cinco primeiros meses de 2015. Para a ONU, o maior foco de preocupação está na Grécia, porta de entrada na Europa pelo mar. O país enfrenta uma situação de ;crise humanitária iminente; e sofre com as barreiras impostas por Estados vizinhos, os quais buscam impedir a passagem e a redistribuição de estrangeiros pelo bloco europeu.

;A Europa está à beira de uma crise humanitária em grande parte autoinduzida;, declarou o porta-voz do Acnur, Adrian Edwards. ;As condições de superlotação estão causando falta de alimento, abrigos, água e saneamento. Como todos nós vimos ontem (segunda-feira), as tensões vêm se acumulando, alimentando a violência e favorecendo os traficantes de pessoas;, acrescentou. Do total que desembarcou na Europa neste ano, 122.637 entraram pela Grécia.

O governo grego apresentou ontem um plano de emergência à União Europeia (UE) para acolher 100 mil refugiados. Muitos deles ficaram retidos no país, no início desta semana, depois que Áustria, Macedônia e outras nações decidiram limitar a passagem, ao impor restrições nas fronteiras. ;Não podemos fazer frente a todos os refugiados que chegam;, defendeu a porta-voz do governo grego, Olga Gerovassili. A Grécia prevê que até 70 mil pessoas possam ficar bloqueadas em seu território neste mês e estima precisar de ajuda de 480 milhões de euros para lidar com a crise.

O Acnur pediu ontem aos vizinhos que se mobilizem, porque ;a Grécia não consegue lidar com esta situação sozinha;. Edwards lembrou que a UE se comprometeu em realocar 66,4 mil refugiados que estavam na região, mas aprovou somente 1.539 vagas e transferiu apenas 325 pessoas. Com o objetivo de impedir que o número de pessoas que acessam a Europa continue aumentando, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, anunciou que voltará a pressionar a Turquia, de onde sai grande parte dos migrantes que viajam à Grécia. Tusk será recebido amanhã pelo primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, em Ancara, e pelo presidente Recep Tayyip Erdogan no dia seguinte, em Istambul.

;Como ficou demonstrado, a Europa está pronta para acordar uma ajuda financeira substancial aos países vizinhos das áreas em guerra;, declarou Tusk à imprensa. O presidente do Conselho ressaltou que, ;ao mesmo tempo, esperamos que nossos sócios se envolvam mais, o que é condição indispensável para evitar um desastre humanitário;. Na segunda-feira, líderes europeus voltarão a se encontrar para discutir o tema, em cúpula em Bruxelas.

Desmantelamento
Autoridades francesas retomaram ontem o desmantelamento do acampamento de refugiados de Calais, no norte da França, conhecido como ;Selva;, após os confrontos registrados no dia anterior. Pelo menos 150 migrantes, alguns armados com paus e barras de ferro, interditaram o acesso ao porto de Calais, que liga o país ao Reino Unido, em protesto contra a destruição do acampamento, mas foram dispersados pela polícia. Os migrantes desalojados devem ser distribuídos entre centros de acolhida ao redor da França.


Otan ;ataca;
Rússia e Síria


O general de mais alta patente da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Philip Breedlove, advertiu os legisladores norte-americanos de que a Rússia está ajudando o presidente sírio, Bashar Al-Assad, a transformar a crise dos refugiados em uma ;arma; contra o Ocidente. ;Juntos, Rússia e o regime de Al-Assad estão deliberadamente transformando (a crise de) os refugiados em uma arma para tentar perturbar a Europa e quebrar a determinação europeia;, disse Breedlove ante a comissão das Forças Armadas do Senado em Washington. O comandante supremo da aliança militar de 28 países, que também dirige o comando europeu das Forças Armadas americanas, disse que o fluxo maciço de migrantes da devastada Síria tem efeito desestabilizador sobre os países europeus para onde fogem, e que isso beneficia Moscou.


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