Quando a crise se torna um incentivo

Quando a crise se torna um incentivo

Os momentos de adversidade podem ser um bom combustível para as empresas se reinventarem e investirem no alvo certo. O Sebrae lista os negócios mais promissores para 2017 - ano que, segundo especialistas, tende a ser melhor

» FLÁVIA MAIA
postado em 21/02/2017 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Se a crise econômica assusta, ela também representa foco de oportunidades. O empresário pode aproveitar o momento para revisitar práticas equivocadas na companhia, mexer em estruturas internas, criar negócios, estimular a criatividade na equipe ou aproveitar a concorrência para trazer inovação. No ambiente externo, a crise pode servir para que o setor produtivo faça pressão e para que o Estado invista em políticas públicas de estímulo aos pequenos negócios, consertando velhos erros, como os gerados pela burocracia ; tempo extenso para abertura de empresas, excesso de documentação exigida e dificuldade de implementar políticas de fomento, como crédito.

Mesmo diante do cenário desgastado pela crise, especialistas e entidades de classe acreditam que 2017 será um ano melhor do que 2016. O Sebrae divulgou um estudo com os segmentos de destaque. Entre as apostas do órgão estão aquelas relacionadas a serviços de reparação, como o de pequenas reformas, conserto de veículos usados e manutenção de computadores. Com a queda no consumo, os clientes devem conservar os bens já adquiridos. Outro caminho mostrado pelo Sebrae é o da praticidade no dia a dia, como a alimentação pronta e saudável. O setor de inovação também está entre os negócios promissores (veja quadro).


;Oportunidade tem em todo canto. O consumidor continua consumindo. O empresário precisa se adaptar ao que ele está consumindo;, acredita Antônio Valdir de Oliveira Filho, superintendente do Sebrae-DF. Ele aconselha ainda que o empreendedor leve em conta a sua vocação na hora de abrir um negócio e também estude o mercado. ;O pequeno empresário precisa lembrar que ele é um faz-tudo dentro da empresa, ele não é só investidor. Por isso, ele precisa entender e gostar do que faz.;

Um dos setores apontados pelo Sebrae como promissores é o de preparação de alimentos. São negócios como o de Evelyne Ofugi, 34 anos, proprietária da Bentô Kids. A empresa tem sete anos de existência e, durante esse tempo, Evelyne saiu de microempreendedora individual (receita bruta de até R$ 60 mil ao ano) para microempresa (receita bruta de até R$ 360 mil). A Bentô Kids prepara alimentos saudáveis e criativos para crianças. ;Há uma tradição oriental de enfeitar a comida e eu fazia isso com a comida do meu filho. De repente, esse carinho foi crescendo e interessando as pessoas;, comenta.

Evelyne conta que começou preparando pratos e postando em redes sociais. As mães que a seguiam pediam encomendas, por isso, passou a entregar as comidinhas e a ministrar cursos. Atualmente, ela ainda é sócia de uma cantina em uma escola na Asa Sul e pretende abrir outra loja na Asa Norte. Para começar o negócio, usou o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e o seguro-desemprego do trabalho como professora de biologia. ;Fui fazendo cursos e me aperfeiçoando. O diferencial da Bentô é que sempre fiz tudo com carinho.;

O empresário Lucas Camargo, 23 anos, também procurou um diferencial para se destacar no mercado. Ele é CEO da start-up Instabuy e apostou em oferecer soluções tecnológicas para pequenas empresas. Um dos clientes é uma hortifruti na Asa Sul. Eles montaram a página, o aplicativo e o e-commerce. ;Nosso diferencial é focar em negócios que existem no mundo físico, mas que precisam existir também no virtual.; A Instabuy já tem investidor e passou de ;early stage; para ;growth stage;, espécie de selo que mostra o nível de maturidade da empresa, em duas edições que participou da Campus Party ; principal evento tecnológico do Brasil.

O que falta melhorar
Qualificar mais as pequenas empresas e oferecer a elas um ambiente externo com mais oportunidades deve ser a receita para os pequenos negócios sobreviverem, garantem especialistas. Entretanto, mesmo com o cenário de 2017 mais otimista, ainda há muito o que ser melhorado. ;Em 2016, passamos por uma crise política intensa. Com a mudança de governo, a gente criou uma expectativa de melhora que não aconteceu;, comenta Adelmir Santana, presidente da Federação do Comércio do DF. Para ele, os pequenos empresários sentiram mais, o que atrapalha a economia local. ;São 24 meses de vendas negativas, isso nunca existiu. Não sei se os pequenos negócios resistirão.;

A dificuldade em mudar o ambiente interno da empresa é um problema. Na opinião de Kleber Pina, consultor e professor de gestão de marketing do Ibmec, o comportamento dos pequenos negócios em ambiente de crise é similar ao do consumidor. ;Esses perfis não se acostumam com a crise, apenas com a bonança, de crédito fácil. Dificilmente, ele está preparado para um período de crise.;

Para Valdir Oliveira, do Sebrae-DF, as empresas precisam aproveitar 2017 para olhar dentro da empresa e, em seguida, ver as oportunidades surgidas da crise. Ele defende ainda melhoria no ambiente competitivo, como mais acesso a crédito e a criação de um Na Hora empresarial, para que todas as questões burocráticas exigidas das empresas possam ser resolvidas em um só local. ;No DF, 57% dos pequenos negócios não tiveram acesso a nenhuma forma de financiamento nos últimos cinco anos. O crédito de fomento sumiu com a crise, sem ele é impossível o pequeno sair da crise.; Valdir defende que o Banco de Brasília crie, em parceria com a Terracap, uma agência de fomento e financiamento.

Mas nem tudo está travado. Especialistas comemoram a vitória da constitucionalidade da Lei de Desburocratização, decidida pela Justiça na semana passada. Com a nova norma, o licenciamento para empresas de baixa complexidade passa a ser automático e passível de vistoria posterior. Apenas negócios classificados como alto risco terão que fazer as inspeções antes da abertura.




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