Espaço de resistência

Espaço de resistência

Nahima Maciel
postado em 18/10/2018 00:00
 (foto: Carol Caminha/Divulgação)
(foto: Carol Caminha/Divulgação)

Vera Lúcia Oliveira levou um susto quando recebeu um e-mail dos amigos com a notícia de que havia sido indicada para a Academia de Letras do Brasil e fora aceita. Ela estava em uma viagem fora do país e sequer sabia da indicação. ;Fiquei muito tímida, nunca me achei capaz de fazer parte dessa academia;, conta a escritora e professora.

Ela sempre encarou as academias como algo para literatos e ficou surpresa com a proposta dos amigos. ;Eu falei para eles que só tinha um livro publicado e eles falaram que era isso mesmo, que a academia precisava de renovação e que fui indicada porque escrevo o tempo todo, participo e eles querem pessoas que gostam de ler, de participar e movimentar a cena.;

Nascida na fazenda do avô próximo a Luziânia (GO), Vera foi para a cidade aos 4,5 anos e, ainda menina, contratou uma professora para ensiná-la a ler e escrever. Fez tudo escondida da família. Quando chegou a hora de ir para a escola, ela já estava familiarizada com os livros. ;É uma paixão que vem da infância;, garante. Em Brasília, estudou na Escola Normal e cursou letras na Universidade de Brasília (UnB). O ensino sempre foi uma vocação. Vera deu aulas de português e, sobretudo, de literatura durante 37 anos. Quando se aposentou, começou a escrever. ;Eu sempre gostei muito do aluno vibrante, que gosta de ler;, conta.

Ela também sempre preferiu o ensino da literatura ao da língua formal. E o conhecimento aos diplomas. Vera brinca que, assim como não é boa marqueteira de si mesma, também não tem muito apreço pela formalidade do canudo. ;O que sempre me atraiu foi o conhecimento;, garante. Ela chegou a fazer um mestrado em Literatura Brasileira na UnB, mas como perdeu o prazo da defesa da dissertação, recebeu um diploma de pós-graduação.

O primeiro livro, publicado em agosto de 2017, trouxe uma reunião de contos que associam duas coisas fundamentais para a autora: literatura e psicanálise. O beijo da mãe & outros ensaios de literatura e psicanálise veio para suprir uma necessidade que a autora sempre teve: a de se aprofundar na análise literária. Além dos ensaios, ela também passou a se dedicar a escrever críticas. Essa combinação de atividades foi decisiva para incluir o nome da escritora e professora de 67 anos no quadro da academia.

Quando jovem, lá pelos 20 anos, Vera costumava encarar as academias como locais sérios, sisudos e muito distantes de sua própria experiência. ;Hoje compreendo a academia como um lugar que pode ser de resistência da literatura e de preservação da boa língua portuguesa e que pode deixar um testemunho para os mais jovens;, diz. Fundada em 2001, a Academia de Letras do Brasil é formada por integrantes de todo o país.








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