Herdeira de JK

Herdeira de JK

Entrevista / Anna Christina Kubitschek
postado em 08/09/2019 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Anna Christina Kubitschek conhece como poucos a história de Brasília, pois faz parte dela. Neta de Juscelino e dona Sarah, administra um museu com o nome do avô, o Memorial JK, e apoia o hospital com o nome da avó, o Sarah, referência no país. Em entrevista à coluna, a empresária fala sobre o envolvimento da família com a política, o uso das redes sociais e a importância da educação e da cultura na agenda prioritária do governo.
Brasília faz 60 anos em 2020. Como será o calendário do Memorial JK?
Este mês, teremos o lançamento do primeiro livro com os discursos proferidos por JK na Presidência da República, todos de 1956. A obra está sendo impressa pelo Senado, e o lançamento ocorrerá na sessão solene de 12 de setembro, às 14h. E adianto que o segundo livro, com os discursos de 1957, será lançado em 21 de abril do próximo ano, no aniversário de 60 anos da cidade que ele construiu no coração do Brasil.

Qual a sensação de preservar um espaço histórico que, ao mesmo tempo, tem uma forte ligação familiar?
É uma imensa responsabilidade, à qual me dedico de corpo e alma. A vida do meu avô me orgulha bastante, pelo seu papel transformador da realidade nacional. Sua morte, como neta, me doeu e dói muito, até hoje, pelas circunstâncias e por toda a perseguição política que sofreu antes do acidente de 1976 ; lembre-se de que eu era uma menina de 10 anos. Ser a guardiã desta memória é um legado que pretendo defender até o fim da vida, para permitir que sua história seja preservada integralmente, sem nunca mais ser vilipendiada, como chegou a ser, em eras passadas, para que as futuras gerações nunca esqueçam da importância de JK para o Brasil moderno.

O memorial está sendo reformado? Qual o custo anual para o funcionamento do complexo?
Senti a necessidade de fazer algumas modificações. Para isso, contei com apoio de empresários. O custo anual de manutenção do Memorial JK gira em torno de R$ 3 milhões. É provenientes de três fontes: GDF, bilheteria e doações de empresas. Com o GDF, temos um convênio amplo, que permite desde a visitação de alunos da rede pública e professores, ao uso de nossas instalações para eventos de interesse do governo local. Com os recursos da bilheteria, conseguimos bancar despesas menores. Já as doações de empresas permitem equilibrar as finanças e manter o espaço aberto, com a qualidade atual de ser o maior museu privado do país e o mais bem avaliado de Brasília.

Seu avô, JK, foi presidente. O marido, Paulo Octávio, governador. O filho André pensou em concorrer a deputado. A política mudou muito entre as gerações?
São três momentos marcantes. Meu avô fez sua campanha à Presidência em 1955, época das cartas. Meu marido foi eleito a primeira vez em 1990, quando os telefones celulares estavam engatinhando. E hoje temos esta era digital, com seus avanços e problemas. A internet e as redes sociais mudaram completamente a linha lógica das eleições. Por um lado, facilitaram o acesso dos candidatos aos eleitores. Por outro, esfriaram as interações pessoais. Além disso, hoje há uma oferta imensa de informações e uma pressão exagerada pela rapidez ; e nem sempre essa combinação de variáveis tem se mostrado acertada e precisa. Estamos mais vulneráveis à dispersão e ao fenômeno das fake news ; que não é novo, pois meu avô sofreu muito com reportagens fabricadas para destruí-lo, que antes não tinham esse nome. Mas se antes as correções demoravam, eram mais perceptíveis quando ocorriam. Hoje, elas se perdem na quantidade gigantesca de canais disponíveis e de informações dispersas. Na minha opinião, o mundo não precisa de tanta pressa e imediatismo, mas sim de mais precisão na hora de noticiar.

As redes sociais aproximam os eleitores e os políticos, mas causam confusão quando o instrumento é mal utilizado. Imagina que JK teria feito bom uso das redes?
Meu avô era um homem à frente de seu tempo, usando as ferramentas políticas e de divulgação da época. Era um comunicador nato, pois falava com o homem mais simples, com a elite intelectual, com o capital econômico, com os militares e civis. Dominava método e discurso com qualidade. Basta ver seu imenso acervo de discursos e cartas escritas aos amigos. Isso me leva a crer que, nos dias atuais, teria sucesso da mesma forma, por ser racional e pensar muito antes de falar. Era um homem ponderado, com um discurso moderado, o que o transformava em um político equilibrado e conciliador. Faz muita falta alguém com estas qualidades no cenário político atual.

A participação das mulheres no mercado e na política fortaleceu o empoderamento feminino. Mas há polêmicas. O que pensa sobre a atuação das mulheres fora de casa? Poderia detalhar?
Comecei a trabalhar aos 18 anos, quando morava no Rio de Janeiro, e nunca mais parei. Fui uma das mais jovens superintendentes da Legião Brasileira de Assistência (LBA), assim que me formei. Para mim, não existe tabu nessa questão. O trabalho e a independência financeira das mulheres são naturais e fundamentais. Minha mãe, Márcia Kubitschek, foi deputada constituinte e vice-governadora do DF. Mas, antes mesmo de exercer cargos eletivos, já estava no mercado desde cedo, incentivada pelos meus avós. JK sempre acreditou ser necessária a participação feminina na política e na vida pública, tanto que incentivou minha mãe a seguir esse caminho. E minha avó, a inesquecível Sarah Kubitschek, tinha enorme apreço pela política, que sabia fazer muito bem, e pelas mulheres que começavam a empreender naquele tempo.

O Brasil está entre os países que menos leem (jornais, revistas e livros). O acesso aos museus também é pequeno. A desigualdade no país é gigantesca. A senhora é considerada parte da elite intelectual brasileira e uma apreciadora experiente de arte. Falta cultura e educação ao brasileiro?
Menor acesso à educação e à cultura, maior desigualdade. Isso é quase uma equação matemática. Por isso, é preciso incentivar fortemente a educação no país, pois ela é a única ferramenta para reduzir a gritante desigualdade nacional. Aqui no Memorial JK, graças aos convênios que temos, os estudantes que nos visitam conhecem melhor a história do Brasil, o que é de suma importância. Mas, internamente, também trabalhamos pela educação, e eu capacitei uma expressiva parcela dos funcionários, inclusive com o ensino de língua estrangeira, fundamental para receber bem nossos visitantes estrangeiros. Esses esforços pela educaç&

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