Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

(cartas: SIG, Quadra 2, Lote 340 / CEP 70.610-901)

Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 22/12/2019 00:00

Pomar do cerrado


Quando visitou Brasília na década de 1970, Clarice Lispector escreveu que as árvores da nova capital eram mirradinhas e pareciam de plástico. Mas se ela voltasse à cidade nos dias de hoje ficaria surpresa. As árvores floresceram, se tornaram frondosas, abrigam sombras, produzem flores e frutos. É possível fazer até um calendário floral.

A Novacap plantou muitas espécies ;estrangeiras; que se aclimataram à região e, por assim dizer, ganharam cidadania cerratense. Além disso, os brasilienses de outros estados também pontilharam Brasília de mangueiras, amoreiras, jaqueiras, pitangueiras, abacateiros, entre outros. Cada um introduziu a fruta preferida de sua região.

Então, é uma criação coletiva que contribuiu para consolidar a cidade-parque. Apanhei muitas frutas para os meus filhos quando eram pequenos. Era uma festa topar com as amoreiras do Eixão aos domingos. Esse é um dos aspectos mais singulares e agradáveis da cidade. O biólogo e pesquisador Marcelo Kuhlman é apaixonado por qualquer espécie de planta e nada tem contra o plantio de árvores exóticas em áreas urbanas. Mergulhou fundo no cerrado durante 10 anos em pesquisas para o mestrado e o doutorado na UnB, que convergiram para o livro Frutos e sementes do Cerrado, em dois volumes (Ed. UnB).

Kuhlman reverencia a cidade-parque, mas levanta uma questão importante: a maior ameaça ao cerrado é o desconhecimento e a desvalorização. Por isso, ele propõe que sejam plantadas árvores frutíferas nativas no Plano Piloto e nas cidades-satélites. Perguntei a ele: ainda há tempo e espaço? Kuhlman responde prontamente: ;Está passando da hora, mas ainda há tempo e espaço;.

Espécies nativas de frutos do cerrado possuem a vantagem de já estarem adaptadas ao clima e ao solo local, são riquíssimas em nutrientes e ainda servem de alimento para a fauna nativa, como diversas espécies de aves, argumenta Kuhlman. E continua: o plantio de espécies como pequi, mangaba, araticum, jatobá, cagaita, murici e bacupari em áreas urbanas também valorizaria a flora local, que é um patrimônio genético e cultural da nossa região. Se a população desconhece as plantas que estão no seu quintal, a tendência é de que essas espécies caiam no esquecimento.

Realmente, nos tempos de criança e adolescente, bastava dar um passo que eu estava em pleno cerrado. Catei muito pequi, cajuzinho, araticum e cagaita. Mas, agora, compro pequi à beira da estrada e, quando pergunto de onde vem, quase sempre a resposta é: de Minas Gerais. Com o crescimento urbano desordenado, essas espécies desapareceram das cercanias de Brasília.

Kuhlman não se intimida com o argumento de que as árvores nativas demoram mais a crescer ou exigem mais cuidados para o plantio e o florescimento. De fato, o cerrado é uma ;floresta invertida;. Isso porque essas plantas primeiro desenvolvem o sistema de raízes, em busca de água no solo profundo, para depois despontarem a parte aérea, que produz frutos e sombra, ensina Kuhlman. É preciso mais cuidados e paciência. No entanto, um pequizeiro é belo por completo, produz frutos e castanha comestíveis, flores maravilhosas e possui arquitetura fantástica.

Atualmente, só é possível uma imersão no cerrado em áreas restritas como o Jardim Botânico ou o Parque Nacional. Seria preciso estender o acesso a todos os brasilienses. É necessário haver envolvimento da população em geral para que se possa despertar o interesse das pessoas e reconhecermos que a conservação do cerrado e das suas espécies depende de todos nós, diz Kuhlman sobre a utopia de transformar Brasília em cidade-pomar.

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