Todos os exageros de um ídolo do rock

Todos os exageros de um ídolo do rock

Com três horas de duração, musical sobre a vida do cantor seduz pelas atuações marcantes e pelo setlist abarrotado de hits

Gabriel de Sá Luiz Prisco
postado em 10/05/2014 00:00



Logo de cara, o público é apresentado a um Cazuza jovem e saudável. Sentado, ele bate alguns versos em uma máquina de escrever. Na primeira fala, uma pequena poesia sobre a mãe, Lucinha, o choque é inevitável. A voz chiada e o estilo carioca de um dos mais polêmicos artistas brasileiros são materializados no palco. Porém, não é somente a atuação de Emílio Dantas que torna o musical inesquecível: a energia envolvente do elenco e os principais hits do cantor emocionam e empolgam a plateia.

Ao longo das quase três horas de espetáculo, o público é inserido no mundo do astro. Ao contrário do filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho, o musical não tem medo de mostrar quem era Cazuza. Palavrões, beijo gay, bebidas, drogas e cenas sensuais aparecem a todo tempo, sem papas na língua, com total ausência do ;puritanismo careta; tão combatido pelo cantor. Assim, o relacionamento com Ney Matogrosso, a depressão e o desapego amoroso que marcaram a vida de Agenor de Miranda Araújo Neto surgem de forma natural.

Se Emílio Dantas encanta pela fidelidade da atuação, Susana Ribeiro, a intérprete de Lucinha Araújo, seduz pela força demonstrada no palco. Além das interpretações musicais, a atriz cumpre com louvor a importante missão de ser o fio condutor do show. É ela quem mostra à plateia as várias fases de Cazuza, além de descrever, com um olhar materno, as peripécias e aventuras do filho rebelde.

A química entre os atores deixa a relação familiar emocionante. Sobretudo nos momentos mais tensos do espetáculo, como na cena em que Lucinha precisa lidar com a orientação sexual do filho. Sem vergonha, ela dispara: ;Cazuza, você é viado?;. A resposta é carregada do estilo do artista. ;Digamos apenas que eu sou livre;. É, sobre esses diálogos (ora emocionantes, ora engraçados), que a trama se desenvolve e, em um dos maiores acertos do diretor João Fonseca, as músicas se encaixam de forma orgânica.

As canções acompanham o desenvolvimento de Cazuza. No começo, um jovem roqueiro e contestador. Depois, um poeta intimista e reflexivo (sempre acompanhado de boas doses de rebeldia). Em todas as fases, Emílio se sai muito bem. O ator consegue imprimir a energia necessária à primeira fase do cantor. E, surpreendentemente, muda completamente, com caracterização impecável, ao voltar como um paciente terminal, vítima da Aids.

Fabiano Medeiros também merece destaque: a interpretação de Ney Matogrosso é eficiente e cativante. O ator soube captar o jeito paternal do cantor e, em um dos momentos mais enérgicos do espetáculo, conquistou aplausos com a performance de Pro dia nascer feliz. No entanto, Dezo Mota faz um Caetano Veloso caricatural e confuso, que arranca risadas, mas não convence o público.

Uma vida em músicas
Começam a soar os primeiros acordes da melancólica Codinome beija-flor. Cazuza, já bastante debilitado pela doença que o mataria, de cama, não consegue cantar. A tarefa é passada, então, aos pais, Lucinha e João Araújo (Susana Ribeiro e Marcelo Várzea, respectivamente), em um dos momentos mais emocionantes do espetáculo. O tratamento dado ao repertório de Cazuza em Pro dia nascer feliz é um dos maiores acertos da produção. As canções mudam de feição em favor do texto, e o público, conhecedor de quase todas elas, torna-se personagem importante no processo.

Há uma clara divisão entre antes e depois da descoberta da Aids. O jovem e explosivo Cazuza, com sua turma, faz um estratégico retorno aos anos 1980 nas explosivas Bete Balanço e Pro dia nascer feliz (pano de fundo para um cena de sexo entre Ney e o protagonista). Os rapazes do Barão Vermelho têm a oportunidade de mostrar os dotes vocais em diversos momentos, e não fazem feio.

Inéditas na voz do criador, Malandragem (imortalizada por Cássia Eller) e Mais feliz (gravada por Adriana Calcanhoto) dão sopro de novidade em um setlist que, aparentemente, poderia cair no clichê (não que isso, neste caso, seja um problema). Emílio Dantas é visceral como Cazuza e dá a impressão, por vezes, que tem qualidades vocais ainda mais evidentes que as do artista de verdade. Difícil não se impressionar com a versão de Cry baby (da safra de Janis Joplin) e contundência de Eu queria ter uma bomba e Blues da piedade.

Arrebata também o momento em que Lucinha, sozinha, canta Poema, de Cazuza e Frejat, desconhecida na voz dos autores. ;Eu hoje tive um pesadelo/E levantei atento, a tempo;. Foi Ney quem imortalizou a canção, e a interpretação dela reitera o destaque do cantor mato-grossense na vida do protagonista (fato suprimido na cinebiografia O tempo não para, de 2004). E o que dizer do esquelético Cazuza cantando Brasil, de bandana branca na cabeça e cuspindo na bandeira do país? Para quem não assistiu à cena à época, poder vê-la reproduzida com tamanha dignidade é um privilégio.



10

Total de discos gravados por Cazuza em carreira solo e com a banda Barão Vermelho


Destaques


Encanto
Emílio Dantas como Cazuza
Susana Ribeiro como Lucinha


Decepção
Dezo Mota como Caetano Veloso
Marcelo Várzea como João Araújo

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