O freio de Obama

O freio de Obama

A decisão do presidente de adiar qualquer medida a favor dos imigrantes ilegais para depois das eleições legislativas de novembro deixa claro que a oposição continua eficiente em atrapalhar os planos da Casa Branca

GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 08/09/2014 00:00
 (foto: Kevin Lamarque/Reuters)
(foto: Kevin Lamarque/Reuters)

Frustrado pela relutância da oposição republicana em permitir a reforma do sistema de imigração dos Estados Unidos, Barack Obama sugeriu, na semana passada, que estava prestes a avançar nas medidas por conta própria, lançando mão de uma série de ordens executivas, um mecanismo que permite ao presidente americano tomar algumas decisões independentemente do Congresso. No último sábado, porém, veio da Casa Branca a notícia de que os 11 milhões de imigrantes que esperam por regularização no país precisarão aguardar pelo menos mais alguns meses até verem a promessa do mandatário cumprida. Obama adiou qualquer ação para depois das eleições legislativas, a serem realizadas em novembro.
O recuo é uma prova de que livrar-se do freio que o Congresso tem representado para a administração Obama não é algo tão simples. A decisão de sábado é, na verdade, uma tentativa de evitar que o Partido Democrata sofra ataques durante a campanha e veja ameaçada a maioria que mantém no Senado (55 das 100 cadeiras). Em outras palavras, a estratégia da oposição de acusar o governo de atentar contra a democracia ao apelar para as ordens executivas colhe frutos.


Desde que a Casa Branca deu sinais de que agiria por conta própria, o Partido Republicano passou a dizer que Obama estava desrespeitando o sistema representativo do país. Antes de entrarem em recesso parlamentar, no mês de agosto, os opositores insistiram para que Obama não agisse ;ilegalmente; e alertaram que o plano do presidente abriria as fronteiras do país. Além disso, o presidente da Câmara dos Deputados, John Boehner (republicano), foi autorizado a abrir uma ação judicial contra Obama, por suposto abuso de poder.


Mesmo com o adiamento de qualquer medida, o assunto deve ser explorado pelos republicanos durante a campanha legislativa. A oposição controla a Câmara e reúne condições favoráveis para manter a maioria. E busca uma posição mais sólida no Senado. Gary Gerstle, cientista político e especialista em imigração da Universidade Vanderbilt, no Tennessee, avalia que a estratégia dos opositores é utilizar as acusações contra o presidente para motivar a participação do próprio eleitorado, uma vez que o voto não é obrigatório nos EUA. ;Poucas pessoas votam nas legislativas, e as que comparecem são muito ativas politicamente. No campo republicano, esses eleitores são muito conservadores.;


Gerstle avalia, contudo, que intenções do presidente em prol dos imigrantes ilegais podem incentivar o voto de cidadãos americanos de origem latina. ;Os republicanos tentam apresentar Obama como um infrator da lei (ao emitir ordens executivas). O presidente pode usar uma estratégia similar, mas pelo lado oposto;, observa. O estudioso pondera que, além de os decretos atenderem a uma questão importante para esse eleitorado, o ataque republicano aos decretos da Casa Branca pode atrair mais votos latinos para os democratas.

Orçamento
Nada indica que a queda de braço entre Obama e o Congresso vá ter fim. Também na semana passada, o senador republicano Marco Rubio indicou à imprensa americana que seu partido tentaria impedir medidas unilaterais do presidente levantando bloqueios à proposta de orçamento para o próximo ano fiscal, que deve ser votada até o fim do mês. No ano passado, o impasse no Congresso para aprovar a pauta orçamentária levou ao fechamento parcial do governo federal e custou US$ 24 bilhões à economia americana.


Timothy Hagle, cientista político da Universidade de Iowa, recorda que os republicanos têm uma lembrança negativa da política executada pelo correligionário Ronald Reagan, presidente entre 1981 e 1989, que anistiou imigrantes ilegais sem tomar medidas para conter a entrada de estrangeiros. Ele pondera que a adoção de iniciativas vistas como um perdão generalizado pode gerar uma reação adversa a Obama. ;Não está claro quem sairá vitorioso dessa batalha política, e algumas pesquisas indicam que os latinos que estão no país legalmente apoiam o atual processo de imigração;, ressalta.


O argumento de Obama contra as acusações e ameaças da oposição é afirmar que o impasse no Congresso é provocado pela obstrução republicana. Além de impedirem há mais de um ano que a reforma imigratória seja votada na Câmara, os adversários atrapalharam a aprovação de recursos emergenciais solicitados pelo Executivo para atender aos milhares de menores desacompanhados que chegaram à fronteira sul do país nos últimos meses. Um novo impasse sobre o orçamento do governo federal deve fortalecer as críticas do presidente.


James Thurber, diretor do Centro para Estudos sobre Congresso e Presidência da American University, observa que o impasse no Legislativo não tem repercutido bem entre a opinião pública. ;Os americanos estão cansados. Quanto mais os republicamos impedirem a aprovação de leis, mais serão acusados de serem frívolos e se aterem a questões abstratas;, opina. Thurber acredita que a estratégia opositora é complicada e que ;o tiro pode sair pela culatra;, mas aposta que a pressão republicana deve aumentar à medida que o dia da eleição se aproxima. ;A questão de um processo contra o presidente pode ter resultados mais eficazes para os republicanos na disputa pelo Senado do que em âmbito nacional, e eles estão calculando isso;, ressalta.

Conflito interno
A tentativa oposicionista de motivar seus eleitores com o controverso debate sobre a imigração pode ainda alimentar um conflito interno no partido. Gerstle menciona sondagens que indicam vantagem para os candidatos republicanos conservadores, e observa que isso pode atrapalhar os planos do partido na corrida pela Casa Branca, em 2016. ;Os republicanos não vão vencer uma disputa presidencial enquanto mantiverem a atual postura em relação à imigração;, avalia.
O estudioso explica que há uma enorme pressão sobre o partido para que atraia o voto dos americanos de origem latina, que tiveram um papel importante na reeleição de Obama, em 2012. No entanto, pondera, a ala conservadora do Partido Republicano considera que os princípios da legenda já foram muito comprometidos e, por isso, se coloca contra maiores avanços, ;mesmo que isso custe a Presidência;. ;Se eles conseguirem controlar o Senado e a Câmara, como algumas pesquisas indicam, o conflito interno crescerá;, avisa.

Sondagem
Uma pesquisa encomendada pela agência de notícias Reuters à consultoria Ipsos aponta que 70% dos americanos em geral e 86% dos que se dizem simpatizantes do Partido Republicano acreditam que imigrantes ilegais ameaçam os valores e os costumes dos EUA. Segundo o estudo, o debate sobre imigração deve se unir às discussões sobre o Medicare (programa de seguro de saúde

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