Anemia falciforme: danos da escravização

Anemia falciforme: danos da escravização

VIRIDIANO CUSTÓDIO DE BRITO Secretário da Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial do Distrito Federal, é formado em história e pós-graduado em história da África e dos afro-brasileiros e em ciências políticas e análises de políticas públicas
postado em 19/11/2014 00:00



A celebração do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, em 20 de novembro, é uma forma de lembrar o sofrimento dos negros ao longo da história. A sociedade deve refletir e reparar os danos causados aos africanos que foram capturados e trazidos para o Brasil em porões de navios, em ambientes insalubres.

Os sobreviventes eram encaminhados às fazendas e forçados a trabalhar por até 15 horas por dia, moravam em senzalas em condições precárias e sofriam violências físicas e psicológicas.

A barbárie cometida contra os africanos no processo de escravização reflete na atual sociedade. A desigualdade entre o não negro e o negro (preto e pardo) está expressa e revela o racismo no campo da educação, da Justiça, do mercado de trabalho e da saúde.

Dados estatísticos demonstram que a mortalidade no Brasil tem cor: é negra. Fatores determinantes, como uma tímida Política Nacional de Saúde da População Negra, reforçam as desigualdades historicamente determinadas. Entre elas, pouco investimento em pesquisas de doenças e agravos que são prevalentes nessa população, como a doença falciforme.

A anemia falciforme é genética, originou-se na África e foi trazida às Américas pela imigração forçada dos escravos. A doença afeta, principalmente, a etnia negra ; cerca de um a cada oito afro-brasileiros têm traço falcêmico.

O diagnóstico nos primeiros meses de vida, com teste do pezinho, e nas pessoas afrodescendentes, por meio de testes hematológicos, como o de afoiçamento e estudo da hemoglobina, é determinante para o tratamento precoce, que pode salvar e manter a qualidade de vida dos pacientes com falciforme.

No Distrito Federal, os negros representam 57,5% do total da população, conforme pesquisa distrital por amostra de domicílios realizada pela Companhia de Planejamento do DF (Codeplan) em 2011. Nesse contexto social, é necessário que o Sistema Único de Saúde (SUS) inclua e monitore a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), aprovada em 2009 e instituída como lei, no Estatuto da Igualdade Racial.

A Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial do Distrito Federal (Sepir-DF) prioriza a promoção da saúde dessa população e trabalhou para a aprovação do Decreto n; 34.213, de 14 de março de 2013, que instituiu o Comitê Técnico de Saúde da População Negra.

O comitê tem integrado ações e esforços para fomentar melhorias, além de apresentado sugestões de investimentos, ações preventivas e contínuas às políticas de atenção à saúde da população negra, bem como contribuído para o esclarecimento e a redução do racismo institucional nos atendimentos nas unidades de saúde.

A parceria entre a Sepir-DF, a Associação Brasiliense de Pessoas com Doença Falciforme (Abradfal), a Universidade de Brasília (UnB) e a Fundação Hemocentro de Brasília colocou em prática a formação do primeiro cadastro de pacientes com doença falciforme no Distrito Federal.

Em andamento, o cadastro vai subsidiar histórico dos pacientes para oferecer atendimento médico direcionado e programado, como a compra de medicamentos conforme as necessidades das pessoas com anemia falciforme.

Outra conquista da assistência à saúde das negras e negros do DF foi a implementação da Portaria n; 292 SES/DF, de 31 de outubro de 2013, que define o modelo de atenção e cuidado à saúde integral dos pacientes com hemoglobinopatias hereditárias.

A portaria é regulamentada e coordenada pelo Hemocentro. Em vigor há um ano, coloca o Distrito Federal como pioneiro no tratamento de pacientes de até 100 anos com doença falciforme. Também estende de 12 para 18 anos o atendimento pediátrico aos portadores da doença.

O Distrito Federal está avançando no atendimento de saúde na perspectiva étnico-racial. A Sepir-DF quer progredir e pretende articular com o Ministério da Saúde a publicação da portaria que incluirá a doença falciforme no rol de terapias passíveis de transplantes realizados pelo SUS, com a utilização da medula óssea, procedimento único para a cura definitiva das pessoas que convivem com a patologia.



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