A última fronteira

A última fronteira

Na terra do Rei Pelé, treinador negro ainda é preterido pelos clubes das principais divisões. No Dia da Consciência Negra, saiba quantos lideraram um time da elite nesta década e quem é a exceção em 2014

Vítor de Moraes Braitner Moreira
postado em 20/11/2014 00:00

No Dia da Consciência Negra, o futebol brasileiro não pode se orgulhar. Mesmo com tantos jogadores da raça em atividade e aposentados ; entre eles o Rei Pelé ;, a participação deles como técnico é ínfima nesta década. Desde 2010, só cinco comandaram equipes da Série A. Ainda assim, Cristóvão Borges, Givanildo Oliveira, Hélio dos Anjos, Jayme de Almeida e Sérgio Soares não completaram um ano no cargo. Em 2014, a elite tem apenas um negro. Cristóvão Borges está no Fluminense desde fevereiro.

Na quarta divisão, ou até em times fora de série, encontrar um negro com a prancheta é menos raro. O ex-centroavante Cláudio Adão, por exemplo, dirigiu o Mixto-MT até meados deste ano. Luciano Reis, que revelou jogadores como David Luiz, Dida e Vampeta, passou pelo Distrito Federal. Na capital do país, dirigiu o modesto Ceilandense. A Série A está muito longe deles, e não é por falta de competência.

Protagonista de trabalhos consistentes nas bases de Bahia e Vitória, Luciano Reis fez cursos e treinou equipes nos EUA. Mesmo nas categorias menores, enfrentou problemas. ;Há preconceito principalmente na base. A prioridade é sempre para pessoas de pele branca;, testemunha. ;As de pele escura têm de ser muito acima da média;, lamenta Reis.

Chegar à primeira divisão do Campeonato Brasileiro tornou-se missão quase impossível, mesmo em um país em que 51% da população é negra, segundo dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos do Governo Federal. Ex-centroavante do Corinthians e do Internacional, Nilson não esconde: sonha treinar times da elite. Ele tentou dar um passo menos largo, como auxiliar técnico. Mas nem assim. O motivo, ele sabe. ;Dizem que não, mas é claro que negros são rejeitados, principalmente no futebol. O jogador pode ser negro. Quem manda nele, não;, lamenta.

Rodízio

Um caso de bom trabalhos mal recompensados é o de Andrade. Em 2009, o treinador substituiu Cuca como interino do Flamengo na 14; rodada do Brasileirão. O clube estava na 11; posição. No fim, tirou o rubro-negro da fila de 17 anos. Em abril do ano seguinte, soube da demissão pela imprensa. ;Ele fez um belíssimo campeonato. Sem mais nem menos, foi dispensado. Pele escura, só em time de segunda ou terceira divisão;, indigna-se Paulo Isidoro, ídolo do Atlético-MG, hoje dono de uma escolinha de futebol.

O rodízio de velhos conhecidos impede uma renovação. Os nomes que saem e voltam para os clube são os mesmos. ;É um círculo vicioso. Pode ver, sai o Felipão, vem o Mano Menezes, depois o Abel Braga;, exemplifica Paulo Isidoro. Mesmo sem títulos expressivos, esses técnicos flutuam pela Série A. ;Os negros sempre serão mais cobrados do que os brancos;, protesta Nilson.

O racismo apontado pelos ex-jogadores negros nem sempre é pensado. Pode estar no subconsciente, mas quem sofre com isso sabe que não é bem assim. ;Se é consciente ou não, é difícil dizer. No entanto, a partir do momento que não houver mais essa diferença, é porque acabou a preferência;, espera Luciano Reis. Desgostoso, Paulo Isidoro não ouviu comentários depreciativos em relação a negros no comando. E nem é necessário. ;Não precisamos ouvir, estamos vendo.;

Saiba mais

Combate gravado
na camisa
Nesta semana, a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado sugeriu
aos clubes brasileiros que escrevam mensagens
contra o racismo em seus uniformes. Na audiência, a quase ausência de negros
na Série A também foi lembrada pelos convidados.

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