Homenagem ao céu da capital federal

Homenagem ao céu da capital federal

GABRIEL DE SÁ JULIANA ESPANHOL
postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

Engana-se quem pensa que foi apenas a Minas Gerais que Fernando Brant dedicou seu afeto em forma de poesia. O letrista mineiro é autor de uma das mais belas homenagens musicais feitas para a capital federal. A canção de Céu de Brasília, de Brant e Toninho Horta, engrandece um dos aspectos mais celebrados de nossa cidade, e traça também um perfil dos habitantes daqui sob a ótica de Brant. Naquela época, anos 1970, o compositor já constatara a calmaria que se abate sobre a cidade após as 22h, e que ainda hoje segue vigente. ;Na janela, a fria luz/Da televisão divertindo as famílias/Saio pela noite andando nas ruas...;

Lançada primeiramente pela cantora Simone, em 1977, Céu de Brasília ganhou registro de Toninho Horta em 1980, no disco Terra dos pássaros, com vocais de Milton Nascimento. Desde então, tornou-se obrigatória nos concertos do instrumentista mundo afora. A introdução, guiada por uma ensandecida guitarra distorcida, é uma das mais conhecidas de Horta. Em Brasília, claro, a canção é recebida com muita emoção pela geração de brasilienses que adotou a cidade e orgulha-se que cantem sobre ela.

;Nada existe como o azul sem manchas/Do céu do Planalto Central/E o horizonte imenso, aberto/ Sugerindo mil direções;, diz a letra de Brant. ;E eu nem quero saber/Se foi bebedeira louca/Ou lucidez;. O céu que virou patrimônio da capital federal também tirou o fôlego dos compositores mineiros, que embarcaram em um ;voo maluco; pelas asas do avião que os fazia esquecer a solidão da cidade grande. O agradecimento veio em forma de um clássico.

Boemia
Na capital federal, Brant era presença garantida nos aniversários do restaurante Feitiço Mineiro. Ele participou de pelo menos 20 das 25 comemorações da casa, inclusive a do ano passado, já sem Jorge Ferreira, fundador do reduto boêmio. ;Aqui é o quartel de resistência da música popular em Brasília. O Jorge era o comandante e o Fernando era o general;, resume o produtor cultural Jerson Alvim. ;Mesmo quando nossa estrutura era ainda bem precária, ele e Tavinho Moura sempre se dispuseram a vir a Brasília, com a humildade que só os grandes podem ter, e fizeram shows antológicos, que estão registrados na memória de nossa cidade;, diz Denise Pereira, dona do restaurante.

Todo início de outubro, o roteiro do artista em Brasília se repetia. ;Era um ritual. Eu o buscava no aeroporto, íamos direto para o bar do restaurante, abríamos um vinho e almoçávamos até umas 17h. Em seguida, ele ia para o hotel descansar e retornava ao restaurante à noite, para o show. Depois da apresentação, era uma loucura, pois todos os amigos queriam conversar com ele. Muitas vezes saímos do restaurante quando já estava claro;, relembra Mauro Calichman, diretor executivo do restaurante.

Entre os quitutes preferidos do artista, estavam costelinha e pão de queijo. ;Quando o chope dele chegava à metade, a gente já podia trocar, para não esquentar;, revela o garçom Paulo Lima, mais conhecido como Paulinho. Há 17 anos no restaurante, ele teve a oportunidade de conviver com o músico em diversas ocasiões. ;Atendê-lo era um imenso prazer. Sempre que podia eu parava um pouco para ouvir as canções, causos e poesias;, conta. A casa pretende homenagear Brant amanhã, no projeto Música Solidária. Artistas convidados tocarão composições do mineiro a partir das 21h.

Como os sucessos surgiram

Travessia
;Em 1967, Milton Nascimento me entregou uma melodia e pediu uma letra. Ele disse que aquela canção não se parecia com o Márcio Borges nem com as que ele fazia. Naquela época, não existia gravador. Memorizei tudo e fui colocando as palavras.;

Maria, Maria
;Surgiu a partir do roteiro que fiz para um balé que lançou o grupo Corpo. Lembrei-me das Marias negras que passaram por minha vida em Caldas (MG): babás, cozinheiras, trabalhadoras. No balé, só havia música, mas quando Milton gravou, ele pediu que eu escrevesse a letra. Para mim, foi muito fácil. Fiz no intervalo de um jogo da Seleção Brasileira.;

Canção da América
;Milton havia ido aos Estados Unidos em 1974 para gravar um disco. Se enturmou por lá e um dos amigos disse que as pessoas desistiam rápido e se mandavam e iam embora para seus respectivos países. Milton não falou nada porque no dia seguinte também retornaria ao Brasil. Quando voltou aos EUA, soube que o amigo havia ido embora. Escrevi sobre essa amizade, das pessoas que vão embora, mas transportei a letra para uma amizade maior.;

Saudade dos aviões da Panair (Conversando no bar)
;Nessa época, íamos a um bar em Belo Horizonte frequentado pelo pessoal da música, o pessoal do Suplemento Cultural Minas Gerais, o Sergio Santana, o Humberto Wenerck e o Adão Ventura. Tínhamos muitas conversas, em que falávamos das saudades dos aviões da Panair. Na música, evoco essas conversas e, ao mesmo tempo, falo da infância, do quintal, da primeira Coca-Cola. Os militares que vieram com o golpe de 1964 acabaram com ela. Mandamos a música para a Elis Regina, mas ela disse que não apresentaria a música com o título Saudades da Panair e sim Conversando no bar. Tinha uma lógica, a música passou pela censura com o segundo título.

Nos bailes da vida
;Já tinha feito um texto para o Milton Nascimento. Ele me contou muitas histórias dos tempos em que cantava em bailes pelo interior de Minas Gerais, viajando de Kombi. Me mostrou uma música pronta e eu me lembrei dessas histórias. Ele inclusive cantou no meu baile de formatura.;

San Vicente
;Essa canção expressa o que eu estava vivendo e o que estava acontecendo na década de 1970 em toda a América Latina. O Bituca tinha feito a música para a peça Os cavaleiros, de José Vicente, interpretada por Norma Benguel. A cidade da peça era San Vicente. Mas acabou que não teve a letra e resolvi usar o nome. San Vicente serve para todos os países da América Latina, que viviam uma situação de sufoco político provocado pelas ditaduras militares bravas. Por isso, falo no ;sabor de vidro e corte;;.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação