A energia de João Donato

A energia de João Donato

Instrumentista lança disco em que abandona o clássico piano e utiliza sintetizadores e órgãos elétricos

Irlam Rocha Lima
postado em 06/03/2016 00:00
 (foto: Agogô Cultural/Reprodução)
(foto: Agogô Cultural/Reprodução)






Muito à vontade e A bad Donato estão entre os discos mais cultuados de João Donato. Gravados nas décadas de 1960 e 1970, respectivamente, eles têm em comum o fato de reunirem temas criados em estúdio, processo que o compositor e pianista acriano voltou a utilizar em seu novo álbum.

Aos 82 anos, quase 70 de carreira, esse mestre da MPB está lançando Donato Elétrico, CD com 10 faixas instrumentais ; todas inéditas. Registradas em estúdios paulistanos, com produção de Ronaldo Evangelista, tem a participação de músicos da nova geração, alguns deles integrantes das bandas Bixiga 70 e Metá Metá.

Parceiro musical de Tom Jobim, João Gilberto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chet Baker e Mongo Santamaria, precursor da bossa nova e figura fundamental da história do jazz latino, ele embarcou em nova viagem sonora, na criação do Donato Elétrico, no qual momentaneamente deixou de lado o velho piano Goldmann, que ganhou do pai na adolescência.

Nas gravações, praticamente ao vivo, Donato chegou à sonoridade sugerida por Evangelista, utilizando sintetizadores, órgãos e pianos elétricos em solos por vezes lentos e em outras com velocidade frenética. Mas, segundo ele, a base de tudo continua sendo os ritmos brasileiros, embora devidamente reprocessados.

Donato Elétrico, o 35; título da discografia do autor de A paz, apresenta temas como Heres;s J.D (que abre o repertório), Urbano, Tartaruga, Soneca do marreco, Combustão espontânea e Xaxado de Hércules. Praticamente todos os títulos surgiram em meio aos ensaios, nas conversas com o produtor e os músicos, e remetem ideias vinculadas a cada composição.

Com lançamento nos dias 11 e 12 próximos no Sesc Pompeia, em São Paulo, há planos para que Donato Elétrico seja levado em turnê a outras capitais brasileiras, inclusive Brasília. Aqui na capital, o músico se apresentou por último, em março de 2014, dando início às comemorações dos 80 anos, na abertura do projeto com o qual o Clube do Choro o homenageou.



Como surgiu a ideia de gravar o Donato Elétrico?
Fui convidado pelo jornalista Ronaldo Evangelista para fazer um disco no qual tocaria diversos teclados, desde os modernos até os mais antigos. Esse convite surgiu em 2014, quando fui lançar no Sesc Pompeia, em São Paulo, o Quem é quem, recriado em detalhes 40 anos depois, a partir de arranjos e sonoridades originais, somados a novas ideias e intenções.

O Quem é quem, outro clássico de sua obra, tem uma história engraçada, não é mesmo?
Aconteceu o seguinte: o disco ficou pronto, mas a gravador não se interessou em lançá-lo. Aí, fui até a Igreja da Glória, no Centro do Rio de Janeiro e lancei literalmente, arremessando no ar cópias do bolachão. A televiso filmou e aquilo causou uma certa repercussão. Quarenta anos depois, finalmente, o lancei com um show, no qual tive o acompanhamento dos músicos do Bexiga 70. Depois nos apresentamos nos festivais Mimo, em Tiradentes (MG), e RecBeat, no carnaval de Recife.

A proposta do Evangelista era a de um disco de inéditas?
Sim. Recebi bem a sugestão dele, até porque havia 15 anos que não lançava um disco de inéditas. Algumas das músicas foram criadas durante os ensaios, entre 2014 e 2015, enquanto outras surgiram de reminiscências da infância, que ficaram armazenadas na memória. São lembranças singelas do Acre, dos rios, das matas e dos bichinhos. Nós que lidamos com diferentes formas de expressões artísticas, seja música, poesia seja, pintura, nos inspiramos nas primeiras emoções, nas primeiras paixões, nas primeiras alegrias, nas primeiras saudades. São as mais caras recordações dos seres humanos.

No Donato Elétrico, o velho piano que o acompanha há tanto tempo foi deixado de lado. Ele não lhe fez falta?
Nesse projeto, não cabia a sonoridade do velho piano que ganhei do meu pai, quando tinha 16 anos. Ao pilotar teclados de diversos tipos, estilos e marcas, me senti num parque de diversão. Mas teclado é sempre teclado, desde os do acordeon, até os do sintetizador. É o mesmo dedilhado, o mesmo princípio matemático da escala musical: do, re, mi, fa, sol, la, si.

Quando os músicos foram convidados para as gravações, eles já sabiam que iriam participariam da criação de temas inéditos?
Deixei claro que não voltaríamos à músicas consagradas como Amazonas, A rã, Até quem sabe, Bananeira e Emoriô. Nos ensaios, procuramos escolher situações que não levassem a elas, a nada que já havia sido gravado; e sim a músicas novas.

Mas, pelo visto e ouvido, sem se abster dos ritmos brasileiros?
Nos meus trabalhos, nas minhas gravações, nunca vão faltar os ritmos brasileiros, que representam minha origem. Tenho estado aqui, ali, acolá; no jazz norte-americano, no afro-cubano, no samba carioca e nos ritmos nordestinos. Mas meu sotaque é acriano. A base da minha música é o Acre e a música nativa brasileira. Tudo isso misturado num liquidificador sonoro.

Sempre com muito improviso em cima?
Isso não pode faltar. A gente improvisa, mesmo na repetição dos compassos. Em outros tempos, isso era chamado de riff. Hoje, o DJ e o pessoal que trabalham com música eletrônica chamam de loop. É a coisa que o avião faz também no ar, ao dar uma volta em torno de sim mesmo e voltar ao começo. Com o loop, a mesma frase musical vai se repetindo várias vezes. Essa é uma característica da minha música. É meu estilo característico.

Qual a relação do Donato Elétrico com o A bad Donato e o Muito à vontade?
Os três são da mesma família, têm as mesmas origens. Eu vou para o estúdio e, na maioria das vezes, crio os temas ali na hora. No Muito à vontade, foi assim; e no Bad Donato e no disco que fiz com o Eumir Deodato, também. Com raras exceções, vou para o estúdio já com algumas ideias preconcebidas, com algo preparado. Geralmente, nos ensaios, descobrimos temas inéditos, criados naquele momento.

Há cinco anos, você gravou um CD em Brasília, com músicos locais. Esse projeto vai ser lançado?
Gostei muito de vivenciar aquela experiência, com músicos brasilienses no Zen Studio, mas a mixagem não ficou boa. À época, morava em Brasília e depois voltei para o Rio, mas não me esqueci daquelas gravações. Quero retomar o projeto, fazer nova mixagem e remasterização com aparelhagens modernas, e finalizá-lo. Foi muito bom dividir o estúdio com músicos como Marcão, Faleiros, Ademir Júnior, Moisés Paraíba e os outros. Aquele trabalho não pode ficar guardado numa gaveta, sem que as pessoas tomem conhecimento. Será um marco da minha passagem por

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