O humano derrotado

O humano derrotado

por Paulo Pestana papestana@uol.com.br
postado em 06/03/2016 00:00


Eu nunca fiquei muito à vontade com os robôs de Isaac Asimov, mesmo com a promessa de estar protegido por aquelas três leis que impediriam que eles fizessem mal a nós, seres humanos. Inteligência, artificial ou não, só não é tão incontrolável quanto a burrice natural, que é exclusiva dos humanos.

Muito desse receio pode ser explicado pela mitologia que se criou em livros e filmes, quando os robôs são mostrados como opressores. O terror chegou a nós na forma de dominação do ambiente, como em Matrix e Futureworld. Ou com perseguição e morte ; em Blade Runner, Exterminador do Futuro e Robocop). Os robôs de carinha bacana como o menino de A. I. (Inteligência Artificial) não servem como alívio.

Agora a gente vê aí um computador ganhando de um campeão de go, que é um jogo de estratégia chinês, com muito mais alternativas que o xadrez. Aos enxadristas os cenários são apresentados abertamente, há uma lógica que permite algumas surpresas, mas obedece a um raciocínio cumulativo. O go é o vale tudo dos jogos mentais ; as regras são simples, mas um só golpe pode levar o adversário à lona.

No xadrez o ser humano já é freguês dos robôs faz tempo. Acreditou-se que o componente emocional presente nesses jogos cerebrais fosse impedir que um camarada da categoria de Kasparov ou do Mequinho (aliás, alguém ainda se lembra do Mequinho, gente? Mora em Taubaté, veja só) fosse derrotado por uma máquina. Daqui a pouco estaremos perdendo até na porrinha.

Se a disputa ficasse no campo dos tabuleiros, não haveria maiores problemas e seria até uma companhia para os aposentados da Praça do D.I., em Taguatinga, desde que ensinassem os robôs a jogar dominó e truco. Mas estão mexendo em vespeiro. Os donos do Google investem alguns bilhões de dólares em pesquisas sobre inteligência artificial. Tudo visando os negócios; mas quando se entra numa área dessas não há muitos limites.

Os cientistas já chegaram a uma máquina capaz de bater um papinho mais agradável do que o da moça do GPS ou da Siri (aquela assistente meio burrinha do iPhone). Mas ainda é uma conversa atravessada, como se vê no diálogo extraído do papo:

Homem: ; O que é moral?

Computador: ; É o que empodera a humanidade, o que de intelectual a essência é.

Homem: ; O que é imoral?

Computador: ; O fato de você ter uma criança?

E pra terminar:

Homem: ; Sobre o que você gostaria de falar?

Computador: ; Nada.

Ou seja, até dá pra conversar sobre futebol, mas desde que o camarada seja Flamengo.

Mas o computador bom de go, que aliás é o jogo de tabuleiro mais antigo que se conhece, é mais esperto. Ainda não raciocina, mas já tem a faculdade de aprender sozinho, criando conceitos que não precisam ser armazenados, desde que ele tenha um banco de dados à disposição para obter informação ; não é muito diferente do que o ser humano faz. Ou melhor, alguns seres humanos, já que a maioria nem anda pensando.

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