"Demitidos" por Trump

"Demitidos" por Trump

Presidente avisa que 195 mil salvadorenhos terão até setembro de 2019 para deixar o país ou enfrentar a deportação. Comunidade de imigrantes reage com fúria

Rodrigo Craveiro
postado em 09/01/2018 00:00
 (foto: Jim Watson/AFP)
(foto: Jim Watson/AFP)





Está longe de ser um episódio do programa O aprendiz, que foi apresentado pelo magnata Donald Trump em 2004. A realidade é mais cruel. Na condição de presidente dos Estados Unidos, o mesmo Trump decidiu, ontem, cancelar a permissão para que 195 mil salvadorenhos morem e trabalhem no país ; o programa de Status Protegido Temporário (TPS, pela sigla em inglês), concedido após o terremoto de 2001, que matou 944 e feriu mais de 5.500. Os imigrantes terão até setembro de 2019 para tentarem regularizar a situação ou abandonar os EUA, sob pena de deportação sumária. O governo Trump já havia cancelado a salvaguarda do TPS para 59 mil haitianos e 5.300 nicaraguenses, no fim do ano passado. Até o fechamento desta edição, o mandatário não tinha feito qualquer menção à resolução.

A medida surge na esteira de uma controversa política migratória da atual administração republicana. No ano passado, Trump assinou uma ordem executiva que restringia a entrada no país a estrangeiros de países islâmicos. Os salvadorenhos receberam a notícia com indignação e incredulidade. Grupos em defesa dos direitos dos imigrantes chegaram a protestar diante da Casa Branca. Em El Salvador, ativistas não escondiam o temor de uma catástrofe humanitária, ante uma possível onda de deportação ou o retorno em massa de cidadãos.

Em páginas do site de relacionamentos Facebook, salvadorenhos residentes nos Estados Unidos ameaçavam boicotar as eleições de meio de mandato, em novembro deste ano, e acusavam os políticos de seu país natal de se curvarem ante Washington. A resposta do governo do presidente Salvador Sánchez Cerén foi considerada tímida e polêmica, ao focar-se menos na ameaça de deportação e mais na prorrogação de 18 meses. Cerén agradeceu aos Estados Unidos ;por este anúncio, que reafirma os fortes laços de amizade e de cooperação que os mantêm como parceiros históricos;.

;Depois de 18 anos de permanência nos Estados Unidos, como um benefício de permanência temporária, o governo Trump asnunciou que dará 18 meses para que os salvadorenhos encontrem alternativas. Os beneficiários do TPS são pessoas que demonstraram o suficiente respeito às leis norte-americanas, têm cumprido com todos os compromissos e trabalhado. Muitos deles são empresários e estabeleceram suas famílias nos EUA, após quase duas décadas;, lembrou ao Correio, por telefone, Cesar Rios, diretor-executivo do Instituto Salvadoreño del Migrante (Insami), em San Salvador. De acordo com ele, em El Salvador, não existe suficiente estabilidade social ou econômica para o acolhimento de quase 200 mil salvadorenhos.

Apelo
Rios fez um apelo aos compatriotas que vivem nos Estados Unidos. ;Um chamado que nós, como sociedade civil organizada, fazemos a toda a população beneficiária do TPS é para que, por favor, se documentem, leiem sobre o assunto e se informem, para evitarem cair nas mãos de falsos advogados, que começam a se mobilizar nos EUA, e aproveitam a dor das famílias. Aproximem-se dos consulados de El Salvador e de organizações pró-migrantes;, recomendou. O diretor do Insami também pediu aos salvadorenhos que não se desesperem. Ele garante que o fim da permissão temporária não implica em deportação massiva. ;As autoridades nos deram 18 meses para buscarmos alternativas.;

Em Los Angeles, Salvador Sanabria ; diretor-executivo da fundação El Rescate, que presta assessoria jurídica aos imigrantes ; disse à reportagem lamentar a decisão. ;Em 19 meses, esses salvadorenhos perderão a estabilidade no emprego, pois não terão permissão de trabalho. Isso afetará a economia de suas famílias nos EUA e de parentes que dependem de remessas dos familiares.;

O ativista explicou que alguns dos imigrantes podem se qualificar para o benefício de ajuste à residência permanente, por meio de petição apresentada por filhos, desde que cidadãos dos EUA maiores de 21 anos, ou de cônjuges americanos. Em 2016, os salvadorenhos baseados nos EUA enviaram US$ 4,5 bilhões para familiares em El Salvador ; 17,1% do Produto Interno Bruto do país.



Benefício humanitário

O programa de Status Protegido Temporário (TPS, pela sigla em inglês) foi criado em 1990 e autoriza imigrantes de vários países a viverem e a trabalharem legalmente nos Estados Unidos. O benefício é concedido a nações afetadas por conflitos armados e desastres naturais ou epidêmicos. De acordo com o governo norte-americano, as cinco procedências de imigrantes contemplados pelo TPS são El Salvador (195 mil), Honduras (86 mil), Haiti (46 mil), Nepal (8.950) e Síria (5.800). Ao longo dos últimos 15 anos, o TPS tinha sido reautorizado por presidentes dos EUA por várias vezes.



Povo fala

Cesar Rios, diretor-executivo
do Instituto Salvadoreño del Migrante, em San Salvador




;Os beneficiários do TPS são pessoas que demonstraram
o suficiente respeito às
leis norte-americanas, que têm cumprido com todos os seus compromissos e têm trabalhado. Muitos deles são empresários e estabeleceram famílias nos Estados Unidos, depois de quase 20 anos.;

Salvador Sanabria,
diretor executivo da fundação
El Rescate, em Los Angeles




;Muitos desses salvadorenhos têm 19 meses para decidir como levarão suas vidas
sem o status temporário de proteção. El Salvador não lhes oferece condições de terem um emprego, nem uma segurança pública que garanta a integridade física deles. Acreditamos que a maioria dos 200 mil ficarão nos EUA de maneira irregular.;

Elmer Leonel Alarcón Liñares, 47 anos, agricultor, morador de Texistepeque,
em El Salvador




;Fui deportado dos Estados Unidos em 2012, depois e viver por 8 anos lá.
A decisão de Trump é muito ruim, pois todas as essas pessoas construíram uma vida nova nos EUA. Aqui, em El Salvador, nós vivemos de dinheiro enviado por nossos familiares que estão no território norte-americano.;


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