Paulo Pestana

Paulo Pestana

por Paulo Pestana Especial para o Correio papestana@uol.com.br
postado em 15/07/2018 00:00
Brincadeira no tapetão


Mané Garrincha não driblava apenas dentro de campo. Entortava o torcedor, encantava poetas ; Vinicius de Moraes dedicou a ele o poema Anjo das pernas tortas, de 1962 ; e desconcertava quem acreditava entender a mente humana.

Na Copa de 1958, primeira vitória brasileira, o escrete tinha até um psicólogo de plantão, João Carvalhaes, contratado para acabar com o tal ;complexo de vira-latas; diagnosticado por Nelson Rodrigues. Ele analisou cada um dos craques.

Carregado de preconceito, o laudo decisório levou o técnico Feola a escalar, nos dois primeiros jogos, um time só de brancos ; a exceção era Didi, até porque o reserva, Moacir, também era negro. Garrincha quase ficou de fora; tirou apenas 3 no exame psicológico.

O doutor se irritava especialmente com uma brincadeira do craque, quando encostava o dedo nas costas de quem aparecia e dizia: ;Teje preso!”. Em seguida, tirava o dedo: ;Teje solto!”. Ninguém sabia qual era a graça daquilo, mas ele caia na gargalhada e logo estava repetindo o ritual com outra vítima.

Fazia 60 anos que ninguém brincava de ;teje preso, teje solto;, até que recentemente o Brasil inteiro ; já fora da Copa da Rússia ; ficou apreciando a diversão dos homens de toga, brincando de Garrincha sem a menor graça e no tapetão. No estica-e-puxa, ficamos na dúvida se o brasileiro passaria no exame do Dr. Carvalhaes.

Provavelmente não. Ainda mais se formos levar em conta as discussões nas redes sociais, que voltaram a acirrar ânimos contrários num debate sem pé nem cabeça. Todos aqueles que estendiam tanto de futebol até o meio-dia de domingo, se mostraram especialistas no direito. É um povo eclético, o brasileiro.

As cadeias nacionais sempre foram notícia. Antes era Pedrinhas, Alcaçuz e outras filiais do inferno com tratamento subumano, superlotação, decapitações e golpes de sequestros fictícios. Recentemente, o cárcere foi invadido por uma classe social mais abastada, que introduziu queijos chiques e biscoitos finos na dieta intramuros.

Há muito sabia-se que apenados estão mais próximos da sociedade do que o exigido pela Lei, seja usando telefones celulares, seja por meio de terceiros ; visitas, advogados ;, o que permite que as chamadas facções continuem com o comando de sempre. Mas, nos últimos tempos, com a prisão dos bacanas, o muro praticamente caiu.

Alguns presos estão caladinhos, outros reúnem material para eventual registro posterior; há quem comente jogo de futebol e outros que se preocupam em vasculhar a memória em busca de alguma lembrança que possa virar deduragem. Há até presos que promovem debate entre candidatos a governador. Coisa de doido.

A prisão tem regras próprias, bastante diferentes das normas sociais. Algumas dessas regras alcançam a vida de quem está fora dos muros, especialmente familiares de presos, que recebem mimos e garantem uma vida menos dura para o patrocinador internado.

Daqui a alguns anos teremos a literatura de nosso tempo. Não esses livros apressados que se dedicam a contar casos, reproduzir notícias de jornal e a expandir fuxicos, mas estudos que poderão analisar o momento peculiar da atual vida republicana. Vai ser difícil segurar o riso dos brasileiros do futuro. ;Que país era aquele?;, perguntarão.



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