Complô contra Maduro

Complô contra Maduro

Reportagem do The New York Times revela que autoridades do governo Trump mantiveram reuniões secretas com militares venezuelanos rebelados. EUA decidiram não agir e plano ficou estagnado. Ex-comandante teria participado dos encontros

RODRIGO CRAVEIRO
postado em 09/09/2018 00:00
 (foto: Juan Barreto/AFP)
(foto: Juan Barreto/AFP)

Invasão da Baía dos Porcos para depôr o ditador cubano, Fidel Castro, em 1961. Golpe no Chile que derrubou Salvador Allende e levou ao poder o general Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973. Apoio aos ;contras;, rebeldes da extrema-direita da Nicarágua, durante a década de 1980. Nas últimas seis décadas, os Estados Unidos intervieram na América Latina, quase sempre com efeitos desastrosos. De acordo com o jornal The New York Times, o governo do presidente norte-americano, Donald Trump, manteve pelo menos três reuniões secretas com militares venezuelanos rebelados para discutir um golpe contra Nicolás Maduro.

A ideia era decretar, de forma simultânea, a prisão do líder da Venezuela e de autoridades. Os oficiais sediciosos esperavam que a Casa Branca lhes fornecesse rádios criptografados, a fim de se comunicarem secretamente enquanto articulavam a instalação de um governo de transição.

Os relatos sobre os encontros furtivos foram repassados ao NY Times por 11 membros e ex-integrantes do governo, além de um ex-comandante venezuelano ; cujo nome consta na lista de autoridades corruptas sancionadas por Washington. Segundo a reportagem, os militares venezuelanos tentaram se aproximar da Casa Branca, durante a gestão de Barack Obama, mas foram repelidos. Uma declaração de Trump de que os EUA não descartaram uma ;opção militar; pela Venezuela encorajou a aproximação. Três grupos distintos de oficiais dentro da caserna de Caracas têm conspirado contra Maduro, de acordo com o jornal. Um deles estabeleceu contato com os EUA por meio da embaixada norte-americana em uma capital europeia não identificada. Assessores de Trump teriam ficado intrigados e apreensivos com a primeira comunicação. O agravamento da crise humanitária na Venezuela terminou por estimular o envolvimento dos Estados Unidos.

A primeira reunião, ocorrida no outono de 2017 (primavera no Brasil), contou com a participação de um diplomata de carreira norte-americano. O NY Times revelou que ele reportou aos superiores que os venezuelanos não tinham um plano detalhado e esperavam que os EUA lhes fornecessem orientações ou ideias para impulsionar o golpe. A intenção era depor Maduro no verão passado (inverno no Brasil), quando o Palácio de Miraflores instalou uma Assembleia Nacional Constituinte chavista. O complô foi abortado, ante o temor de um banho de sangue. Logo depois, os conspiradores pretendiam tomar o poder em março deste ano, mas o plano acabou descoberto. Por motivos similares, uma nova tentativa, que ocorreria nas eleições de 20 de maio, foi abortada. Tudo o que se sabe é que, apesar da evolução das conversas, Trump não prometeu ajuda material nem sinalizou o endosso à estratégia dos rebeldes.

Diálogo
O jornal afirma que a Casa Branca se negou a dar respostas detalhadas quando questionada sobre essas conversas, mas enfatizou a necessidade de ;dialogar com todos os venezuelanos que demonstrem um desejo de democracia;. Tomás Páez Bravo, sociólogo da Universidad Central de Venezuela e coordenador do projeto ;A voz da diáspora venezuelana;, disse ao Correio estranhar o fato de a reportagem do NY Times ser bastante concisa. ;Na Venezuela, há 500 posições em relação a como sair da tragédia humanitária que atingiu o país. Uma nação que não tem dinheiro, medicamentos, transporte público, nem mesmo gasolina;, afirmou. De acordo com ele, uma operação para derrubar Maduro dependeria de uma posição consensuada de toda a América Latina, que manifestou a necessidade de uma saída ;que faça sentido;.


Eu acho...

;Todas as diligências que fazemos frente à comunidade internacional são com a ;cara ao sol;, com a maior transparência. Estamos longe de sermos conspiradores. Em 14 de abril, em Lima, pedi ao vice-presidente dos EUA, Mike Pence, uma intervenção humanitária, para ativar o princípio do conceito de responsabilidade de proteger. Ele é acionado quando se confirma que um regime leva a cabo uma política sistemática e massiva de repressão ou é incapaz de garantir as necessidades básicas da população.;


Antonio Ledezma, prefeito de Caracas que fugiu e se exilou em Madri após ser preso pelo regime de Maduro


;Não vejo essa conspiração envolvendo EUA e militares venezuelanos como algo sólido. Custo a acreditar nisso, mas, na Venezuela, tudo é possível. Os EUA têm muitos problemas com a China e com a Europa. Trump enfrenta a mídia e o líder russo Vladimir Putin, além da Coreia do Norte. Creio ser difícil uma intervenção por aqui.;


Tomás Páez Bravo, sociólogo da Universidad Central de Venezuela

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