Renovação e experiência

Renovação e experiência

Assim como na eleição para a Câmara dos Deputados, brasilienses optaram por um nome novo e por outro político tradicional da cidade para o Senado. Especialistas apontam que cenário na capital refletiu tendências observadas em todo o país

» JÉSSICA EUFRÁSIO
postado em 15/10/2018 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Pulverização partidária, renovação e polarização deram o tom das eleições gerais de 2018. No Distrito Federal, a Câmara Legislativa (CLDF) renovou dois terços de seus integrantes. Na Câmara Federal, só uma parlamentar foi reeleita. Todos os demais são nomes novos. No Senado, das duas vagas preenchidas, uma trouxe novidade e a outra será ocupada por um político conhecido. A novata Leila do Vôlei (PSB) foi a mais votada na disputa. O segundo colocado, o deputado federal Izalci Lucas (PSDB), já ocupou cargos no Legislativo e no segundo escalão do Executivo nas últimas décadas. Eles vão se juntar a Reguffe (sem partido), que tem mandato até 2022.

Na opinião de especialistas, a escolha revelou uma insatisfação dos brasileiros com a velha política. Segundo Iara Cavalcante, advogada especialista em direito eleitoral, o voto pela renovação se dividiu com o medo do novo e a busca por políticos com histórico na área. ;Muita gente apostou na Leila, porque não acompanhava o Executivo, achava que ela era uma atleta sem envolvimento com a política. Já o Izalci seria uma forma de manter o conservadorismo. Os brasilienses até quiseram renovação, mas também procuraram uma pessoa com experiência;, analisou.

A divisão do eleitorado não se refletiu apenas no Senado, mas na escolha dos candidatos ao GDF e na Câmara dos Deputados. Para o professor de ciência política Emerson Masullo, há um pedido claro de mudança nas ruas, mas ele destaca que não é possível saber se isso resultará em uma alteração de postura por parte dos representantes. ;Há muitos pastores, militares e agentes de segurança pública, então, a tendência é de termos um parlamento mais conservador e com posicionamento de direita;, observou. Ele ainda destaca que não foi possível saber se a população votou em figuras novas para tirar antigas do poder, ou se realmente estudou os candidatos.

Ainda segundo Emerson, o fato de a população do DF ser a que mais se exercita, segundo pesquisa do IBGE, pode ter influenciado na escolha da ex-atleta para o Senado. ;Na Leila, temos a figura do esporte. O fato de ela ser prata da casa e campeã de vôlei contou bastante. Mulheres no esporte sempre trouxeram muito mérito para o Brasil. O PSB foi inteligente em colocá-la como senadora. Já Izalci é um político tradicional. Ele foi frustrado pelo desejo de disputar o GDF, mas acabou brindado com uma cadeira que poderia ser novamente do Cristovam;, avaliou Emerson.

Estreante

Leila do Vôlei, 47 anos, conquistou os eleitores do Distrito Federal ao disputar a cadeira para o Senado pela primeira vez. Em 2014, tentou uma vaga na Câmara Legislativa, mas não se elegeu. Assumiu a primeira suplência na coligação do PRB e foi nomeada titular da Secretaria de Esportes e Lazer, cargo que ocupou de 2015 até o início deste ano. Enquanto ainda jogava pela Seleção Brasileira, a primeira mulher eleita como senadora no DF participou de três olimpíadas, tendo alcançado o terceiro lugar nas duas últimas. Como senadora, Leila terá duas suplentes: a servidora pública federal Leany Lemos, 48, e a arquivista e museóloga Ivonete Nascimento, 58. Ambas disputaram um cargo eletivo pela primeira vez.

A medalhista apresentou desempenho positivo em praticamente todas as zonas eleitorais do DF. Leila só não ficou em primeiro lugar na zona que compreende Guará, SIA e Estrutural, além de Taguatinga Norte e Vicente Pires, nas quais ficou em segundo lugar. Em bairros da parte central de Brasília e na região do Cruzeiro, ela alcançou a terceira colocação. ;Foi uma campanha rápida, de 45 dias. E a minha decisão de concorrer ao Senado não surgiu um ano antes. Não tive muito tempo para planejar a campanha e não consegui estar em todas as cidades. Talvez, esse tenha sido um ponto falho;, declarou.

Leila ainda falou sobre a prioridade para os primeiros 100 dias de mandato. ;O primeiro tema que temos de abordar é a violência contra a mulher. A Lei Maria da Penha pode ser mais rígida. Temos de pensar em como proteger as vítimas de forma imediata, a partir do momento em que é constatada a violência.; Embora reforce que tem um compromisso com a população e que trabalhará para a obter recursos independentemente de quem assumir o GDF, ela diz que lutará pela reeleição do correligionário Rodrigo Rollemberg (PSB).

Para concorrer à CLDF em 2014, Leila escolheu o PRB, que hoje faz oposição ao governo. Ela conta que viu no ex-secretário de Esportes e ex-atleta Célio René, filiado ao PRB à época, um caminho para a entrada na política. ;Minha bandeira é o esporte; então, naquele momento, pesquisei qual era o partido que comandava essa pasta. Era uma tendência natural, não uma questão ideológica;, justifica. ;Não sou conservadora ou engessada. Sou mulher, jovem, olho para minorias. Quero um mundo feliz onde as pessoas se respeitem. Não estou muito feliz com essa polarização;, completou.

Em relação ao cenário político atual e questionada sobre cinco temas que devem entrar na pauta do Legislativo em 2019, Leila se posicionou favoravelmente a um deles, a reforma do sistema tributário e uma revisão da Previdência Social elaborada coletivamente. Diante do agendamento de temas como redução da maioridade penal, flexibilização da posse e do porte de armas, legalização de drogas e descriminalização do aborto, ela disse que se posicionará contra essas pautas.

;Não acho que o sistema prisional recupere alguém. Temos de enxergar a realidade dos jovens. Muitas vezes, é o ambiente que torna o jovem agressivo. Ele precisa de educação e políticas públicas para o desenvolvimento. Sobre as armas, acho que se pode abrir o diálogo apenas para moradores da área rural. Em relação às drogas, só para fins terapêuticos. Já existe isso em lei. E, sobre o aborto, há uma legislação para que ele seja autorizado. Para mim, isso está muito claro;, argumentou.

Veterano

O mineiro Izalci Lucas, 62 anos, é formado em contabilidade e atuou como professor, bancário e sindicalista. Assumiu o primeiro cargo de deputado federal como suplente em 2008, e, em 2010 e 2014, elegeu-se como titular. Chegou a ser eleito para a Câmara Legislativa como suplente e titular. Por duas vezes, foi convidado para ser titular da Secretaria de Ciência e Tecnologia, nos governos de Joaquim Roriz e de José Roberto Arruda.

Um dia após o resultado do primeiro turno das eleições, o tucano declarou que apoiaria o advogado Ibaneis Rocha (MDB) na corrida ao Buriti. Além de contar com o apoio do emedebista para as propostas apresentadas quando ainda

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