Habilitado, mas assustado

Habilitado, mas assustado

postado em 09/12/2018 00:00
 (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press
)
(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press )

O chef de cozinha Carlos Henrique dos Santos, 40, fica no ônibus por cerca de duas horas todos os dias. Ele tirou carteira de motorista há cinco anos. Passou nas provas teórica e prática de primeira e tem um carro à disposição em casa ; do irmão, o único da família que dirige. Mesmo assim, não se sente seguro e, desde que tirou a habilitação, nunca assumiu a direção. Tem medo. ;Parece que o que eu aprendi era só para ser aprovado mesmo, não pra ir para a rua. Fico inseguro;, afirma.

Se fosse ao trabalho de carro, gastaria, no máximo, uma hora e meia para ir e voltar ; e ainda não perderia tempo esperando os coletivos que, às vezes, demoram a chegar às paradas. Além disso, por conta da profissão, costuma sair tarde da noite do trabalho, pra lá da meia-noite, horário ainda pior de pegar ônibus. Mesmo com todos os benefícios de dirigir, ele prefere não arriscar.

Recém-sorteado no consórcio de um carro, Carlos decidiu, porém, que era hora de superar o medo. Começou aulas práticas de direção para quem já é habilitado. A empresa do educador de trânsito Adilson Cândido é registrada no Ministério da Educação e dá aulas para pessoas que já têm carteira de motorista, mas sentem medo de dirigir. ;Nós conversamos muito com os alunos, explicamos todo o funcionamento do painel do carro, o que é cada luz e o que significam as cores delas;, explica Cândido.

Para ele, as aulas de autoescola para tirar a habilitação são muito teóricas, mesmo as práticas. ;Para algumas pessoas, não adianta treinar estacionamento com cones, porque, quando tiver carro, vão ficar com medo;, argumenta. Outra diferença é o tratamento dos alunos: ;Nós não focamos nos erros deles, não brigamos, não gritamos, não pressionamos, como alguns instrutores acabam fazendo. Nós nos focamos em ensinar;.

Em geral, os inseguros costumam fazer 10 aulas, mas isso pode variar de acordo com o grau de dificuldade e com a disponibilidade de tempo e de dinheiro. A maioria dos alunos são mulheres. Em relação à idade, os alunos se concentram na faixa entre 30 e 50 anos. ;Alguns carregam traumas de acidentes que sofreram, mas a maior parte só tem insegurança mesmo;, afirma Cândido.

Segurança

Para o chef de cozinha, um diferencial das aulas para quem tem medo foi o trabalho psicológico. Na sexta aula, já estava mais calmo. Liberado pelo professor, até pegou o carro do irmão emprestado. ;Com seis aulas, aprendi mais do que na autoescola toda;, garante.

Em alguns casos, pegar o carro antes de estar completamente seguro pode ser um problema. ;Às vezes, a pessoa pega o carro do pai, da mãe, do marido e vai dirigir ao lado deles, mas eles podem não ter muita paciência e acabam jogando um balde de água fria em quem está aprendendo;, explica Cândido.

Em breve, Carlos espera já estar com carro próprio e a vida mais fácil, sem depender do transporte público. ;Eu tenho medo de deixar o carro morrer no meio da rua, mas agora já estou bem mais tranquilo;, afirma.

Que tal ir acompanhada?

Só quem é mulher sabe o medo que elas sentem ao andar sozinhas na rua. A apreensão vai além de perder os bens materiais. Nesse caso, o que está em jogo é o próprio corpo. Andar em uma rua deserta e ouvir passos atrás é mesmo de arrepiar, mas o fato de esses passos serem de outra mulher as deixam mais aliviadas.

É nesse sentido que surgiu um movimento que tem atraído mulheres de todo o Brasil, o Vamos Juntas?. A iniciativa nasceu da jornalista Babi Souza, que, em uma volta sozinha à noite para casa, percebeu que as mulheres poderiam se sentir mais seguras se acompanhadas umas das outras. ;Percebi que eu tinha medo de andar na rua porque eu sou mulher. Eu observei que várias mulheres que estavam naquele trajeto sentiam o mesmo medo que eu.;

A ideia do movimento é reunir mulheres que frequentam os mesmos lugares em horário parecidos e, assim, possam fazer os caminhos juntas. Babi destaca que, a partir do movimento, várias mulheres formaram grupos para fazerem certos percursos. A página no Facebook já tem mais de 455 mil curtidas e, segundo a jornalista, um aplicativo será lançado em breve.


Quando o outro assusta

A artista Nebulosa Stoppa, 26, sente-se constantemente ameaçada simplesmente por ser quem é. Como tantas outras mulheres, em especial as trans como ela, a violência assusta, mas ela tenta não ser paralisada por esse sentimento. Dados do Observatório da Violência, mantido pelo site Observatório Trans, mostraram que em 2017 houve 185 assassinatos na população trans. Em 2016, o Brasil já era recordista em números absolutos de homicídios, com 144 mortes. ;Estar vivo hoje parece raridade;, lamenta.

Diversas vezes, a artista já foi abordada com palavras violentas e ameaças por parte de pessoas transfóbicas, mas a situação piorou nos últimos meses. ;Dá a impressão de que as pessoas querem nossa morte mesmo;, lamenta. Nebulosa conclui algo triste: ;Para mulheres, tanto cis quanto trans, o homem é o maior símbolo do medo. Ele nos assusta;.

Apesar de saber que não pode controlar o medo, ;porque ele tem a ver com a atitude do outro, que é imprevisível;, ela acredita que todos podem escolher como enfrentá-lo. Para ela, o enfrentamento é feito por meio da arte, expondo o sentimento dela e de tantas outras pessoas no teatro, na música e, principalmente, usando estratégias de proteção. Admite que carrega pedra na bolsa, para o caso de tentarem algo contra ela. ;Eu não quero usar jamais, mas é instinto de defesa;, afirma.

Nascida e criada no Guará, é ali onde ela se sente mais segura. Sabe evitar lugares perigosos e escolher os mais seguros. No Plano Piloto, é onde tem mais medo. ;É tudo mais deserto, tem muitas árvores;, argumenta. Infelizmente, é também o lugar que oferece mais lazer. Ela e as amigas, então, vão sempre juntas e, muitas vezes, preferem confraternizar em casa a se expor.

Sem carro e dependendo do transporte público, ficar na rua à noite é um risco. prefere nunca esperar o ônibus na parada. Fica afastada. ;É um lugar estratégico para assalto e outras violências. Passa uma moto, o motoqueiro te faz mal e vai embora;, explica a artista.

Viver com medo é um dos desafios, mas ela prefere seguir em frente e não se isolar ou se prender em casa. ;Nós não podemos nos render. Temos

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