Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Mariana Niederauer mariananiederauer.df@dabr.com.br
postado em 24/06/2019 00:00
O melhor são-joão

Nenhuma novidade no noticiário. Analistas políticos e econômicos traçam cenários pessimistas para os próximos tempos. A violência dos crimes assusta. Estamos mergulhados nas incertezas. A tristeza é angústia no peito.

Mas brasileiro, safo e esperto como descreveu Sérgio Buarque de Holanda, tem solução pra tudo. Se o carnaval abre alas e oficializa a chegada de cada novo ano, as festas juninas são a válvula de escape estrategicamente posicionada entre um semestre e outro para aliviar as tensões que pairam no ar.

Até com benção de santo a celebração conta. São João Batista abençoa e recebe homenagens do povo sofrido. Ouvi na rádio um fiel dizer que aguarda, ansioso, por 365 dias, a chegada do festejo. Ao último toque da sanfona, a contagem regressiva recomeça.

Brasília se alegra com bandeiras coloridas decorando as igrejas e quentão e canjica nas festas de entrequadras. O comércio ferve em Caruaru. A simplicidade prova ser possível sorrir com pouco, sem motivo. A tradição nordestina que aflora em todos os cantos do país tem o dom de emocionar.

As canções do Rei do Baião estão entre as minhas favoritas na trilha sonora dessa época do ano. Lembro da enorme coleção de CDs e LPs de Luiz Gonzaga que minha avó guarda em algum canto da casa, já pouco usados nos dias de streaming.

Passei boa parte da minha infância fora de Brasília e, quando comecei a arriscar algumas notas na flauta doce, uma das primeiras músicas que aprendi a tocar foi Asa Branca. Minha mãe tratou de me colocar ao telefone para soprar, desajeitada, o hino nordestino e derreter o coração da vovó. ;Eu te asseguro, não chore não, viu / Que eu vortarei, viu, meu coração.;

Mas são os versos de um dos discípulos do mestre sanfoneiro que me cativam ainda mais nesse período de arraiás. A voz serena de Dominguinhos domina despretensiosa como uma dança com o amado numa sala de reboco.

A parceria com Gilberto Gil é de morrer de sofrência. ;Traga-me um copo d;água, tenho sede / E essa sede pode me matar / Minha garganta pede um pouco d;água / E os meus olhos pedem o teu olhar;.

E a interpretação de Elba Ramalho fecha o são-joão dos apaixonados: ;Me alegro na hora de regressar / Parece que vou mergulhar na felicidade sem-fim;. Com o forró no pé, vou juntando os pedaços de mim e buscando o sorriso sincero.

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